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30/06/2023

É oficial

ferias

Diário

Modo: crescendo de boa-disposição; capacidade de regeneração, como as lagartas.


Faz amanhã oito dias, na troca de fim de tarde por noite de São João vinda do local de trabalho, subi até casa sentindo-me a mais infeliz das humanas - desconsiderem a falta de medida das proporções. Desciam magotes de gente preparando-se para a folia e eu carpia. Ah, os egoísmos e as manhosices. Águas semi-passadas: é bom ter como referência os maus momentos para apreciarmos melhor os dias bons. Amanhã conto subir até casa bem sorridente – vão de retro os contratempos. Só não entoarei qualquer musiqueta alegre pelo caminho porque sou desafinada, em rigor, nem sei mesmo cantar afinado ou desafinado. Por falar nisso, espero não estar a cantar vitória antes do tempo - não é que se espere nenhuma outra disputa senão esta: deixar tudo orientado para gozar 15 dias de férias.


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Foi uma semana em crescendo, depois da derrota de sexta-feira, passei a manhã de Sábado a dar um arranjo à casa. À tarde recebemos a amiga F. que nos trouxe uma visão diferente do mundo de alguém que dividiu a vida entre Moçambique, Portugal, Angola e África do Sul. O lanche serviu apenas de pretexto para a ouvir e com ela conversarmos.


 


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No Domingo fomos para o Parque da Cidade. Desta vez comecei por registar um dente-de-leão perto das ramadas de videiras, como acontecia em Valinhas. Sempre vi dentes-de-leão junto às ramadas.


 


 


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Um pouco mais adiante os tão mal-amados eucaliptos. Habituei-me na meninice a ouvir falar dos malefícios desses delapidadores de água e vida alheia originários da Austrália. Ah, porque demos cabo das espécies autóctones: ah, as prédicas que levei sobre a adoração aos castanheiros e carvalhos contra a praga dos eucaliptos e pinheiros. É engraçado como muito do que ouvi em miúda surgiu ao longo dos anos como verdade do momento. O facto é que também gosto de eucaliptos.


Agrada-me o conjunto de ar esguio e seco de pele rasgada e folha prateada cheirosa, todo ele a uivar ao sabor do vento.


 


 


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De resto, dois grupos. Um de gente que me pareceu nova, mas para dizer a verdade não prestei grande atenção, vi apenas a mancha e percebi que havia uma palestrante. Não sei de que falavam, mas escolheram bem o cenário. Outro de gente aplicada no exercício físico.


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Desta vez não fotografei os vários piqueniques, mas comentamos como ideia futura. Há tantos anos não faço um piquenique. É uma ideia para um fim de tarde bem passado. A ver vamos. No fim da volta ao parque a já habitual bola de gelado de maracujá. 


 


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A semana de trabalho foi correndo e o refúgio em casa fez-se tranquilo, de dia para dia menos sofrido e mais bem-disposto já que a aproximação das férias traz sempre ânimo. O Ritz também anda ainda mais alegre e amistoso. O Nuno desencantou a ideia que ele está agradecido por lhe termos dado um cadeirão, onde tem passado boa parte das noites.


 


 


Anteontem aderi ao quarto grupo de WhatsApp – uma fartura para mim que sou pouco dessas coisas, mas no caso sempre serve para saber notícias de uma casa que me é muito querida. Ontem troquei poucas e curtas mensagens com uma amiga em férias a solo e tive alguma inveja daquela boa vida de pegar numa pequena mochila e estar no ir sem amarras. Sim, isto da tendência celibatária não é uma coisa que saia do nosso espírito facilmente apesar de já se contarem alguns bons anos de vida a dois. Ontem o telemóvel contou-me a propósito dos esoterismos que os caranguejos e sagitários são pouco dados à saudade e vivem bem consigo próprios e os seus interesses, sem grande necessidade de estarem sempre acompanhados. Talvez por isso haja bom-entendimento nesta casa de caranguejo com ascendente em sagitário e “sagitária” com ascendente em “carangueja”. Vivemos bem respeitando o espaço do outro, continuamos a acordar a maioria dos dias com razões para soltar umas gargalhadas logo pela manhã e um dia destes para desenjoarmos um do outro regresso à ideia de uma escapadinha a solo, um giro de independência. Temos que zelar pelo futuro e a manutenção da sanidade mútua. Precisamos de descanso. O Nuno ajuda-me a aturar a mim própria, o que não é tarefa fácil atentas as rabugices e as neuras, e eu aturo-o chato como a ferrugem como é. Duas peças de refugo a estragar apenas uma casa, como costumamos brincar.


Planos de férias? Sim, isto continua tintim por tintim. Uma alteração de última hora feita ontem: marquei uns dias na Póvoa de Varzim, afinal estava a fazer-me impressão não sair de casa no Verão e aquela cidade aqui tão perto é como se fosse a nossa segunda casa nos últimos anos - e minha há mais alguns, desde que para lá fui uns dias para conseguir paz. A ideia é poder nadar, ter à disposição piscina e mar a dois passos do quarto. A ver vamos como estarão os dias. De resto, marcados estão: dois dias destinados a Almada, uma tarde de arejo com a T. e um jantar com o C. e o R. E porque não há bela sem senão: uma manhã destinada a burocracias e um fim de manhã a consulta médica. De resto, recreio livre sem pré-marcações.


Tintim por tintim, uma pouca-vergonha de exibicionismo de vida banalíssima, de rame-rame mesmo em férias, sem um pingo de excite, aventura, exotismo e glamour. Uma valente maçada.


Temos pena – sim, adiro a estas expressões bregas quando me apetece e também às expressões chiques ou bem cotadas quando me dá na real gana, mas estas últimas uso cada vez menos. É tão bom deixar o pezito fugir para o chinelo; dá tanto gozo poder ser pirosa à vontade e quando apetece. Esses sim, são os verdadeiros privilégios cada vez mais inacessíveis. É por estas e por outras que amanhã conto ter um fim de tarde feliz.


 

29/06/2023

Moralidades à quinta-feira

Vamos por partes nem sei bem do quê. Isto de moralizar quase de improviso tem o que se lhe diga. Fala-barato, pensarão. Talvez não. Que pensei hoje para deixar escrito nesta rubrica? Não fugindo de teclas muito marteladas neste blogue passarei novamente pela presunção de que se sabe mais do que o interlocutor e num registo menos tocado pela existência de diferentes sensibilidades quanto ao que é certo ou errado no trato.


Despachemos a primeira que já tem barbas aqui nas Comezinhas. Supondo um qualquer diálogo e nem sequer refiro um debate de ideias ou troca de opiniões. Basta uma qualquer troca de cumprimentos seguida de uma conversa mais ou menos inócua seja acerca do que for: meteorologia, pássaros ou cozido à portuguesa (com este calor não apetece). O que reparo é no constante atropelo do interlocutor por imposição da força do chavão, do auto-elogio ou do argumento ou retórica fácil. Não se dá chance ao outro de saber (tantas vezes de saber mais) ou de ter razão (tantas vezes todas as razões mais válidas). O que interessa é investir contra o que o outro disse ou convencê-lo. Às vezes isso é feito com justificação por se ter ouvido quanto baste durante tempo suficiente – por irritação ou reacção -, mas em muitíssimos casos não: é mera precipitação, ignorância, excesso de bazófia e falta de capacidade para ouvir. A lei da esfrega da auto-estima incentiva todos a serem afirmativos mesmo à custa da paciência alheia. Em quantas ocasiões alguns se contém ouvindo disparates ou mostras de ignorância. Por saberem que os semelhantes têm tempo de vir a compreender sem ser preciso dar-lhes lições acintosas que só demonstram falta de inteligência e necessidade de afirmação de quem perora. Por não ser exigível a todos que saibam tudo quanto sabemos e valorizem tudo quanto valorizamos no mesmo momento na vida. Mas há quem nunca condescenda (normalmente quem tem menos de humanamente valioso a dar aos outros), apesar de exigir a todos que oiçam e respeitem a sua opinião ou decisão como a mais avisada. Pequenos ditadores ditos muito democratas que se impõem pela lei do mais forte na retórica e na acção. Pequenos ditadores com audiência sempre prontos a dar lições, tomando-se por exemplo de conduta, procurando uma vitória a todo custo para sustentar a turba de adeptos da sua facção.


Sim, sei, quanta vontade de me dizerem: se te olhasses ao espelho. O eterno argumento da brincadeira de criança: quem diz é quem é. Passando adiante.


Acresce ao primeiro ponto a questão da sensibilidade. Quantas vezes basta uma forma de cumprimentar ou despedir ou de responder, uma postura, um tique para percebermos que não somos respeitados. E não, não é excesso de susceptibilidade do agredido, é patente má-criação do agressor por mais que dê ar de (falsa) polidez. Em quantas ocasiões vemos o pequeno ditador dissimulado a colocar-se num qualquer degrau ilegítimo porque se auto-investe de uma qualidade ou virtude - chegando ao cúmulo de nos atirar à cara esse suposto degrau em que se auto-promove nos casos de maior falta de inteligência e canalhice invocando lérias como a que ascendeu a custo ou nasceu educado ou trabalhou mais do que os outros ou se preparou melhor - e esta ideia custa a engolir a muitos que não compreendem a diferença entre ter valor e exibir e vender fácil a aparência dele, custa a entender a muitos que desprezam a verdadeira sobriedade. Estão habituados ao sucesso num tempo em que se vende muito ou dá muita audiência ao pechisbeque alçado artificialmente a produto de rigor e seriedade. Enfim, campeões em demonstrações de pobreza de espírito que só envergonham os seus autores apesar da ideia ser impressionar e ofender os outros. Quanta pequenez revelam.


Mas saindo dos casos perdidos, há nuances entre gente que só por falta de educação, e não falha de carácter como a do exemplo acima, desrespeita os outros sem grande intenção. Todos nós carregamos quer uma carga de códigos de cortesia quer manias de mera etiqueta que não são coincidentes por termos educações e percursos de vida e sensibilidades diferentes. Há expressões que são muito ofensivas para uns e não têm carga pejorativa para outros. Por outro lado, há quem em quase tudo na vida valorize a moldura e não o quadro. Ser educado não é mimetizar o comportamento de uma elite que materializa um rol invejado de pergaminhos ou ser sensível a tudo quanto nos magoou ou orgulhou durante o percurso. Há gente educada em todos os escalões sociais e nas mais variadas experiências de vida, desde as mais dóceis às mais agrestes. Há verdadeiros labregos entre aristocratas e príncipes entre gente de origem humilde. Há senhores cuja educação esmerada e privilegiada ensinou a respeitar todos. E gente de origens modestas muito rude. Há gente que passou as passas do Algarve e se manteve delicada e honesta. Há gente com vidas mais fáceis bastante agressiva ou oportunista. A educação vem da própria índole e do modo de trato aprendido no seio familiar e não dos recursos financeiros ou da formação académica e intelectual de cada um ou do grau de dificuldade da vida.


E há gente que sabe observar e respeitar o outro pelo que verdadeiramente é e não pela aparência e valia como moeda de troca ou vantagem a extorquir. Pode parecer uma visão maniqueísta e é claro que há zonas cinzentas, mas quando me refiro aos tesouros e ao lixo que fui encontrando ao longo da vida, é a isto que me refiro: aos tesouros humanos que encontrei a respeitar os semelhantes e ao lixo que vê os demais como moeda de troca ou vantagem a extorquir.


*


Posts anteriores desta série.


28/06/2023

Pequenas Vigias

Chamem loucura ou imaginação, mas é bem real. Soubesse a explicação lógica e todo o espanto e dúvida se desfariam. Há quem me diga que há pequenos insectos que se mantém no mesmo lugar por dias à espera da presa. Há quem diga que as abelhas voam em falso para refrigeração. Talvez o fenómeno que a seguir refiro tenha uma razão destas assentes em conhecimento que não possuo. 


Há anos cruzo um pequeno insecto que parece voar eternamente em falso numa redoma invisível num passeio perto de uma loja chinesa. Sim, pode ser que não seja o mesmo insecto, mas outro na mesma espécie: pequena vespa cilíndrica meio amarelada. O certo é que passo semanas seguidas naquele passeio e o vejo e desvio-me. 


Nos últimos meses numa rua não muito longe começou a aparecer outro insecto igual. Curiosamente à porta de uma loja de produtos em segunda mão, não longe de outro estabelecimento comercial chinês. 


Dirão: maluqueira. É pura coincidência. É bem possível, respondo. Às tantas há-os junto das nossas tradicionais drogarias e o que os atrai é um produto específico.


E o que digo para lá do realismo que sempre é bom ter em conta? Tivesse vida de princesa com tempo e talento para escrever fosse nos moldes da pindérica escrita criativa ou literatura à séria e dedicar-me-ia a um livro a que chamaria talvez não "Sentinelas", para não dar azo a confusão com as Testemunhas de Jeová, mas sei lá: "Pequenas Vigias". Havendo tempo e talento para a escrita e o pensamento era só associar a informação que corre nos meios jornalísticos com a imaginação e a criatividade, talvez um toque lunático e teríamos um grande livro.


Pena não ser detentora nem de tempo nem de talento. Fica a ideia para quem queira pegar nela.

27/06/2023

Momento de pura parvoeira

Isto é pura intriga e leviandade, mas aqui entretida no crochet das banalidades pergunto: Vladimir Putin deixou de tomar cortisona, não foi? Tem a focinheira patibular menos inchada.

Ambições

Vi agora no Jornal da Tarde da SIC que os meninos da LGBTIQ+ não gostaram que a Câmara Municipal do Porto disponibilizasse a Quinta do Covelo para as suas actividades. Os meninos da LGBTIQ+ não gostam de zonas proletárias da cidade. Gostariam mais de zonas chiques. Sei lá, os Jardins do Palácio ou o Parque da Cidade, na Foz. São muito inclusivos os meninos e meninas da LGBTIQ+. Muito preocupados com justiça. Nada discriminatórios. 


Na Quinta do Covelo já se fizeram Queimas das Fitas, é um dos parques mais visitados da cidade, mas ficando na zona oriental não obedece aos requisitos caviar destes meninos e meninas de dedo mindinho esticado. São vidas e lutas tão duras, estas. Mania a minha da intolerância. Bom, pelo menos se a preterirem, há uma coisa boa: nesse fim-de-semana posso ir tomar um cafezito à esplanada da Quinta do Covelo, como já fiz várias vezes.

26/06/2023

O que tu queres sei eu

Andavas tu cabisbaixo com o estado do mundo e eis quando descobres um motivo para sorrir. Dois comunistas peroram sobre o horror que é deixar os utilizadores do mundo online debruçarem-se sobre banalidades. Pois claro, é um perigo: deveriam estar todos em acções de sensibilização para compreender a superioridade do ideário revolucionário socialista, prontos para a reivindicação dos interesses de classes privilegiadas de trabalhadores do Estado ou empresas estratégicas, prontos a defenderem esse farol da Democracia que é Putin contra os nazis ucranianos, prontos a criarem uma rede de emprego público entre os militantes e simpatizantes do Partido e, sobretudo, ansiosos pelo momento em que possam silenciar a livre expressão individual em prol da cartilha colectivista dos interesses de alguns, impondo a lei da rolha como é hábito nos regimes totalitários que estes queridíssimos apaixonados da Liberdade tanto apreciam.


Sorris sempre com a desfaçatez. É muito aborrecido tolerar gente a dizer o que pensa e sente - o horror, o horror. É uma maçada gente com vidas triviais, não convenientemente amestradas pela catequese comunista, que como os maus cristãos gostam e pregam muito mas têm pouca prática solidária.  


E és tu que dizes isto, ciente que aqui nas Comezinhas, este antro de banalidades, já defendeste a importância do papel dos comunistas no mundo presente. É sempre bom tê-los debaixo de olho: para o bem e para o mal foram eles que educaram a maioria dos portugueses nos últimos 50 anos e, ao lado das instituições religiosas, a elite minoritária nos 50 anteriores. Eles, os tais que não podiam falar povoavam os corpos docentes dos liceus e faculdades portuguesas educando gerações. Isto para não falar no peso que tiveram e têm na comunicação social, nos meios culturais e no entretenimento. Possuíssem ou não juízo crítico sobre os sermões mais ou menos escancarados conforme o regime em vigor, os alunos formataram os cérebros com as prédicas comunistas tal como as homilias cristãs.


Na tua meninice contavam-te o testemunho de alguém que conhecia por dentro a Igreja e o Partido Comunista e dizia serem as instituições mais parecidas que conhecera.


Vai daí, passe a presunção, sabes muito bem o que querem. O que tu queres sei eu.

Bruce Hornsby


Bom dia. Boa semana.

25/06/2023

Diário

Como testemunhar os dias banais de uma qualquer semana dos anos 20 do século XXI na segunda cidade de um país do sul da Europa? Podia tocar os aspectos tidos como sinais do tempo. Talvez falasse de modo detalhado das responsabilidades profissionais de uma qualquer função dita moderna desempenhada em teletrabalho. Ou perorasse sobre a decadência do mundo que conhecemos culpando uma facção política ou ideológica. Ou caísse na tentação de empolar um qualquer acontecimento apelando à emoção ou à controvérsia para criar comoção e com ela maior audiência.


Pois, tentarei não fazer nada disto. Ao menos tento. No dia em que o Grupo Wagner, liderado por Prigozhin - a quem há apenas duas referências aqui nas Comezinhas em Fevereiro e Maio últimos a propósito da futura desagregação russa (já antecipada, nomeadamente em Abril) -, ensaiou uma rebelião armada com vista a tomar lugar no Ministério da Defesa, fazendo tremer o poder de Putin com a tomada de três cidades russas e a formação de uma coluna (para)militar (de mercenários) para avançar na direcção de Moscovo, ao que parece decidindo pelo recuo após acordo com o Kremlin, neste dia, dizia, vou apenas fazer um diário de trivialidades pessoais.  Volto a mim enquanto os orientadores das grandes audiências decidem quem saiu mais fragilizado deste capítulo da insurreição, visto e comentado nos jornais e redes sociais (onde incluo os blogues) como se tratasse de um episódio da Netflix. Pode parecer narcisismo o foco no discurso do umbigo, mas antes no discurso do que nas acções. É preferível falar muito de si próprio e ter disponibilidade para os outros a expurgar da retórica a primeira pessoa do singular ainda que toda a acção seja bem egoísta, interesseira ou mesmo prejudicial ao outro.


Por mais ladainhas haja sobre a demência das vidas digitais, a verdade é que parte substancial do quotidiano actual passa pelo digital, pelos telefones e computadores. Então vamos a isso. Consultando os registos pessoais, que vejo eu? No dia 19 trocas de mensagens com os meus pais, um dos meus irmãos e a minha enteada. Ecos de uma chamada para a Austrália e das normais novidades de quem está longe. Várias chamadas com o Nuno (sim, somos daqueles casais cola que passam o dia a ligar um ao outro). Um telefonema para uma amiga, com que tomei um cafezito na semana passada, para dar conta da possibilidade de uma oferta de emprego. Recepção (ai esta palavra e os frenicoques preconceituosos dos obtusos convencidos da sua enorme inteligência) de mensagem de primo do Nuno. No dia 20 troca de mensagens com outra amiga que propôs programa para as férias. A habitual chamada com a mãe (em todas elas além das trivialidades discutimos a actualidade e as leituras de cada uma). Chamada com primo para trocar informação sobre fim do ano lectivo e planos de cada um para as férias. Chamada com irmão e com pai no Algarve. Várias chamadas com o Nuno. No dia 21 telefonemas com Nuno, mãe e outro irmão. Troca de mensagens com amiga do Nuno sobre possibilidade de oferta de emprego. Recepção de mensagens de amigo com uma conversa OpenAI sobre o valor da vida humana, sistemas de saúde e modelos políticos que façam depender o auxílio médico da capacidade económica do doente. No dia 22 apenas telefonemas com Nuno. Dia 23 chamadas com Nuno, pai e mãe. Dia 24 chamada com mãe, telefonema de parabéns a cunhada, chamada com amiga do Nuno, que passou a tarde connosco. A vida pessoal é banal, tão só isso mesmo, e não um aglomerado de contactos com uma rede numerosa de meros conhecidos que interessam em determinado momento. O bom de não ter favores a trocar é que não sofro do mal de passar o tempo com assédio de gente interesseira nem de uma vida oca, nem chamo amigos aos elementos dessa rede.


Aquém da vida digital decorreu a física. Destaco dois momentos. O primeiro relativo ao jantar antecipado de São João que apesar de exibido em fotografias aqui nas Comezinhas não teve muito de agradável. Já repararam como somos peritos em apontar defeitos à vida dos outros, às vãs exibições virtuais dos outros e, em regra, somos incapazes de assumir incongruências próprias nessa matéria? Sempre tão espertos, tão superiores a essas menoridades alheias. O tanas. Não faria mal nenhum olhar ao espelho de quando em vez. Um ruído difícil de suportar na sala de jantar na tenda à qual temos ido nos últimos anos nesta altura do ano. A má-criação de um conjunto da quatro amigos com idade para serem educados que atiraram uma cadeira perturbadora o seu espaço para a mesa contígua. Tirei a cadeira para que Nuno pudesse passar, depois do Nuno se sentar voltei a colocá-la a atravancar a nossa mesa porque seria incapaz de a atirar para cima de outra mesa, prejudicando outros. Os quatro marmanjos mantiveram-se impassíveis. Na sua perspectiva: os outros que se amanhem, seja qual seja a sua condição. Primeiro nós, os cheios de nós mesmos. E é assim: o mundo físico ou digital é desta gentalha. A funcionária trazendo a lista, insistiu que a víssemos quando prescindimos dela. Queria estar certa que os pelintras tomariam conhecimento dos preços, sabe-se lá se estaríamos preparados. Na mesa do lado uma criança de três anos competiu com o inteligente paizinho batendo com o garfo no copo - o pai batia com a faca para dar o exemplo – e estiveram nisto imenso tempo a moer o juízo do Nuno e meu e de todos os que estavam próximos. Salvava o meu campo de visão uma família composta de dois casais, com três crianças pequenas engraçadinhas. Uma família normal, bem-disposta e bem-educada. Amenizou a minha má-disposição. Melhorou quando seguimos para o sossego da Bertrand quase em hora de fecho, onde fomos mais uma vez muito bem recebidos.


No que diz respeito ao segundo momento nem sei como pôr em pé o que posso dizer. Digamos que face a uma informação nova pus a hipótese de mudar radicalmente uma área importante de vida. A questão não se coloca de imediato, mas haverá mudança. Ténue ou radical, haverá. A propósito levei com a enésima decepção e mais uma vez a constatação de que o egoísmo e a sacanice impera mesmo em quem gostaríamos de confiar. Nada que não soubesse desde sempre. Só a constatação uma vez mais. Se sempre defendi que não devo mudar de rumo e que é fundamental acreditar, mesmo passando por ingénua, devo agir de uma forma mais pragmática acautelando os meus interesses e sendo não direi calculista mas ao menos mais precavida. Ao longo da vida tenho-me dito isto vezes sem conta. Pena o comando central não ouvir e agir em consonância. Estou bastante farta que deturpem a verdade para enganar em proveito próprio. Estou bastante farta de fazer figura de urso e que façam de mim burra. Farta de chicos-espertos.

24/06/2023

23/06/2023

Boa sexta-feira

Com falta de tempo tinha pensado publicar um vídeo com música ou animação, mas foi muito mais fácil arranjar postais anteriores para recapitular. Ficam nas entradas anteriores os três que me vieram à cabeça. Creio haver mais uns tantos do género, mas não quero sobrecarregar um dia que se quer leve.


Boa sexta-feira. E bom São João para quem é dessas folias.

Recapitulando




Peças do puzzle


por Isabel Paulos, em 10.10.21

 




Fiz uma pequena alteração ao perfil, acrescentei “feminino” não me vá baralhar no futuro e deixar de saber quem sou – nunca se sabe, posso ficar com Alzheimer. É que pelo jeito - sei, abrasileirei, foi de propósito: é uma parvoíce provinciana não aglutinar os termos e os ditos usados nos países de expressão portuguesa, só nos engrandece – pelo jeito que isto leva, dizia eu, posso vir a perder o direito a ser mulher, passando apenas a pessoa.


Não é que ser pessoa seja pouco. Mas sinto que parte de mim dessa forma fica por explicar. Claro que cada um com a sua panca: há gente cujas grandes preocupações passam pelas novas dinâmicas no mercado dos vernizes e manicura, pelos paradigmas dos bike tours, pelos conceitos do turismo gastronómico ou ecológico e naturalmente exauridas de tanto esforço mental precisam de sair da sua zona de conforto, nem que para isso seja necessário negar a biologia. Já pessoas ociosas, manifestamente ignorantes e que se comportam como trogloditas pelam-se por ser mulheres. Talvez seja apenas por uma questão prática: a de em si mesmas não sobrarem peças ou ausência delas por explicar, digamos assim. Além do que é naturalmente difícil negar que sentem falta das peças que não possuem para serem contentes e vá-se lá saber porquê, gostam que as ditas peças fiquem do lado de lá (enquanto estão ocupadas com outros afazeres, claro), do lado das pessoas das peças diferentes. Ou talvez seja a falta de frequência de workshops de escrita e caprichos criativos – deve ser, por isso ficam assim básicas e sem imaginação a perorar sobre peças: não sabem nada da vida, as pobres coitadas, ingénuas que até dói. Ou será falta de tempo para se informarem e educarem batendo perna nos centros comerciais à procura dos trapinhos e dos ténis a condizer com o tom da bike - essa sacrossanta potenciadora das endorfinas - ou passando horas em frente à televisão e nas redes sociais a seguir séries apocalípticas, as excitantes cusquices dos famosos, os temas fracturantes dos reality shows e a organizar eventos para debater traumas psicológicos e as melhores rações gourmet para evitar a azia aos companheiros de quatro patas.  Já as portadoras de pobres cérebros arcaicos pouco mais do que analfabetas e paradigma-info-excluídas - longe de perceberem a pertinência e premência destes assuntos fulcrais -, não se habituam facilmente a prescindir de parte de si, nem da parte que lhes falta e (felizmente, céus!) não é sua.


Ups, parece que caí um outra vez no sarcasmo. Mas foi pouquinho, vá.

Recapulando




Coisas muito fúteis que me apoquentam o espírito


- actualizado -


por Isabel Paulos, em 20.10.22

 




Malhas. Nos últimos dias usei o termo "malhas" e casaco de "malha". Vocábulos que não constavam do meu mundo. Não sei se bem ou mal - no sentido de fazer ou não parte do catálogo de palavras proibidas no mundo onde nasci e cresci, tal como, por exemplo: esposo(a), funeral, sanita, aleijar. Palavras grosseiras e pirosas. Creio conhecer a origem do meu drama: havia quem dissesse "fazer tricot" e quem usasse a expressão "fazer malha". Esta segunda versão estava vedada a gente civilizada - sim, é presunção, além de não fazer sentido, mas que querem: a vida também é feita de um aglomerado de falhas de sentido. Em todo o caso, a minha cautela no uso do termo malhas para identificar peças de roupa, a que me habituei a chamar camisola de lã ou de algodão, nasceu da rejeição a esse "fazer malha". Está identificada a causa, já posso continuar o dia descansada.


Tenho plena consciência, aliás expressei-o na Ana Paula, que esta espécie de código de honra vocabular, cheia de interditos e tabus, não passa de tiques de gente bem, servindo para conservar a diferença face à marabunta. Mas também não deixo de saber que quem mais os critica é quem cedo ou tarde, bem esticado em bicos dos pés, vai aprender e dominar os tiques, passando a desconsiderar e espezinhar através do sarcasmo os que os desconhecem como ele(a) próprio(a) até há pouco. E fá-lo-á sempre com imensa aceitação e sucesso. É a lei da vida, diz-se.


*


Três notas finais.



  • É de todo desaconselhável viver entre dois mundos, no caso, entre o dito educado e o dito piroso. Qualquer pessoa que pretenda ser aceite, compreendida e respeitada deve escolher um lado e nele permanecer, caso contrário, parecerá sempre estar a trair uma tribo. Aqui está uma regra que nunca aprendi a respeitar. Sempre me senti ave solta. Pior do que querer agradar a gregos e troianos, é insistir no que considera fazer sentido, não agradando nem a gregos nem a troianos, seguindo a própria rota de vôo.



  • Todo este post dá ideia de menoridade. Com tanto assunto importante de momento - os casos de abuso de menores por membros da igreja, as sanções ao Irão pela venda de drones à Rússia, os problemas com o fornecimento de gás nigeriano, os protestos das mulheres iranianas, o pingue-pongue de intriga política a propósito da TAP, os limites ao preço do gás e electricidade, etc. - entradas como a presente irritam os meninos e as meninas que acham que todos os dias têm de debitar opinião dita séria sobre os diversos temas quentes, reduzindo-os a pretextos para atacar supostos adversários. Esquecem-se que se limitam a replicar as próprias tribos ou à contestação entre gangues sem um átomo de consciência do papel que fazem: encher o espaço público de mais do mesmo, acabando a citar com ridícula sobranceria, a propósito das menoridades, dos portugueses e dos que não alinham nos jogos de facção e do leviano e supérfluo, por exemplo, o já enjoativo Eça de Queiroz - oh, heresia máxima, o bem-amado, o génio incontestável, o paradigma de toda a sabedoria, o oráculo de todo o bicho-careta alçado a intelectual de sucesso da nossa praça.



  • Por fim conto, qual livro aberto: nas últimas semanas tenho pensado reduzir substancialmente o tempo passado na SapoBlogs. Já ponderei encerrar as hostes ou passar-me para o antigo poiso da BlogSpot, mas creio que não o vou fazer. De qualquer modo, a partir do momento que me apercebo serem mais os dias em que me irrito no meu mau-feitio do que nos quais tiro prazer disto compreendo dever mudar qualquer coisa. Assim, depois de três anos nesta fona e se tiver juízo, passarei, por exemplo, a escrever aqui apenas duas vezes por semana, aproveitando melhor a vida. Vida a sério. Resta-me passar das intenções aos actos.

Recapitulando




Irritações


por Isabel Paulos, em 06.07.20




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Apesar de reconhecer que cometo vários erros gramaticais (alguns graves) e que todos os dias me encho de dúvidas ao escrever, não deixo de notar nos maus usos da língua portuguesa. Por mero preciosismo de educação ou vivência tenho, como todos nós, irritações de estimação. Manias. Começo hoje por contar uma delas.


Fico de pêlo eriçado quando oiço ou leio alguém "meter o livro em cima da mesa", "meter nomes estrangeiros aos filhos" ou pérolas do género. Já não digo para colocarem por poder parecer pretensioso, mas por amor de Deus: ponham. O verbo pôr existe e é para ser usado. Creio que a explicação para o uso abusivo e grosseiro do verbo meter está no facto desta nova geração que perora na televisão e nas redes sociais ser filha dos que nos diziam há trinta anos que quem põe são as galinhas. E pronto, estamos nisto.


*


Adenda: grata a quem avisou da falha 'oiço o leio'. Já emendei.

22/06/2023

Moralidades à quinta-feira

Esta entrada vai ser escrita a contra gosto, apenas porque me tinha comprometido e devo cumprir. De facto estou cheia de sono e apetecia-me tudo menos escrever sobre moral. Havia então dito que exporia um defeito patente num destes postais e cá vai: a necessidade de me considerar num degrau superior faz-me desprezar unhas de gel e cabelos pintados de amarelo ou outra cor brilhante nelas e camisas e t-shirts justas a delinear braços e bíceps tatuados neles, sobretudo quando abrem a boca e toda a grosseria vem à tona. Ponho-me ainda num degrau superior quando as ditas e ditos já aprenderam a falar com advérbios e termos técnicos e dão lições de esperteza a quem com eles se cruza. E mantenho-me num degrau superior ainda quando apesar de já ridicularizarem os dois patamares anteriores demarcando-se deles e com algumas leituras e formação ao nível do mestrado ou mesmo do doutoramento, seja efectivo ou equiparável por experiência profissional ou intelectual, permanecem sem compreender o essencial da vida: substituindo o pensamento pela explicação e argumentação.


(Pergunto-me que pensarão da ilustração acima, quando é meramente exemplificativa e não inter-exclusiva; só os exemplos originariam um tratado e o questionamento da falta de sofisticação na sua escolha.)


De onde me vem este ascendente e altivez ridícula aos olhos dos outros, mas inelutáveis intimamente? Sem dúvida da desconsideração pelas capacidades dos outros – sobretudo, se lhes noto soberba, que considero sinal de falta de inteligência e sensibilidade - e da necessidade de me afirmar. Mas também do convencimento que observo melhor, mais profunda e justamente o mundo do que os outros. Da convicção de ter passado uma vida inteira de atenção aos outros, aos mais pequenos gestos e atitudes. Da consciência sempre presente da imensa ignorância que possuo, da constante curiosidade e da eterna dúvida.


No defeito do convencimento sou amplamente acompanhada. O que mais há no mundo é gente presunçosa. A diferença talvez seja que a maioria não assume e tenta disfarçar - diferente de corrigir. A meu ver, mal. De tal forma que se transformam em presunçosos dissimulados, daqueles que se mostram de modo interesseiro muito compreensivos com tudo e todos ou então os já mais acintosos que se consideram absolvidos da presunção só por elogiarem muito os mestres ou quem é conveniente à medida que cobiçam mais do que respeitam, à medida que pilham mais do que aprendem.


De qualquer modo, voltemos ao meu defeito: a presunção de pensar melhor. Ainda que sem a posse de toda a informação e conhecimento, presumo em regra que penso melhor do que a maioria. E admito. Detesto a falsa tolerância. Odeio sentir que estão a fazer de conta que respeitam um ponto de vista só para passarem a imagem de grandes democratas, quando é patente que quem o faz, geralmente, gosta da competição ou desporto da retórica, de manipular o discurso e as acções de modo a prejudicar não quem é nocivo ao mundo, mas quem não lhe traz vantagem pessoal. E mais do que tudo gosta da zombaria e só com ela se sente gente, se sente vencedor; e só com ela esconde a solidão.


Ser presunçoso já é suficientemente mau, valorizar ou desprezar outrem em função do lucro pessoal que se tira mesmo em prejuízo do todo é miserável. Espero não enfermar deste segundo defeito. Não me tenho nessa conta.


Mais uma quinta-feira com moralismos, mais motivos para as rentáveis zombarias das marés dos pretensos sofisticados. Sempre a mesma tecla, como se não houvesse assunto mais premente a tratar. Vá-se lá saber porque insisto nela neste mundo de tantas certezas fáceis e tão poucas decisões acertadas. Num tempo com tanta ladainha de tolerância muito instruída, de tanta aparência de incentivo desinteressado e tão pouca prática solidária.


 

21/06/2023

São João antecipado

 



 

Entretanto em casa, há vida no manjerico. Uma minhoca de olhos atentos... a vida animal à mesa de jantar.

 


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20/06/2023

Chiuuu

Não contem a ninguém, mas faltam 10 dias para as férias. Serão 15 dias para estrafegar, sem saídas, nem viagens, nem malas, nem hotéis, nem programas nem planos, salvo o habitual pulo de dois dias a Almada.


As malas só sairão do pousio em Outubro. Em Julho serão 15 dias para descansar verdadeiramente, fazer praia com as insuportáveis nortadas (sim, dantes começavam em Agosto) e água do mar fria, dormir às horas que me apetecer e rever e estar com os amigos. Nada mau. 


Já começa a cheirar a férias.

Feito

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Primeiro round da faxina.

Semana antipática

Passem adiante: vêm aí mais menoridades. Mais picuinhices. Estamos nisto. Nos concursos para Miss Simpatia e nas lengas-lengas para perfeitinhos vale tudo menos agir segundo o que genuinamente se pensa e sente. Foste educada a considerar falta de educação fazer cenas. Entre gente civilizada devemos saber estar com todos, concordando ou não concordando, gostando ou não gostando. Muitas vezes ao longo da vida foste amparo dos que se sentiam desprezados ou incompreendidos. Em muitas ocasiões do percurso observaste a soberba e o oportunismo das relações. A tolerância com atitudes desse teor começou a minguar em ti, tal como a permissividade com a violência gratuita, a agressão velada, o oportunismo e a grosseria mascarada na realidade ou na ficção. São escolhas.


Há anos deixaste de consumir a maior parte dos conteúdos televisivos, restringindo-te quase à informação. E hoje de manhã perguntaste-te: se fazes opções na televisão porque não as farás no mundo online, ficando exposta a substâncias irrelevantes ou hostis só porque há anos ou há dias tiveste curiosidade em conhecer o que determinado espaço ou pessoa oferecia? Se compreendes que nada de relevo traz ou até trazendo aí prevalecem a proa ou a pequenez de espírito, para quê manter um canal ligado? Num mundo tão amplo, com tanto de interessante para desbravar, seria muito tonto estar a levar dia após dia com o chamariz de gente cheia de si só por num determinado momento ou período da vida teres tido curiosidade.


É por isso que estando muito longe de perfeitinha e correndo o risco de parecer que fazes não uma cena, vá, mas uma cenazinha, durante do dia de hoje vais fazer uma limpeza nos canais de conteúdos que enchem o teu mundo online, reduzindo-o ao mundo que queres e não ao que estavas sujeita por mera curiosidade e boa-educação ou cortesia. Bom, isto não é inteiramente possível por haver conteúdos agregados - às vezes queremos ler qualquer coisa e levamos com todo o lixo envolvente vendido por redes de arrasto. Enfim, farás a limpeza possível.


Aproveitas para o fazer nesta semana em que estás ainda mais antipática do que é costume.


Bom dia.


 


Adenda. Ao publicar este post reparei que as Comezinhas foram destacadas num anterior, gesto que agradeço. De qualquer modo, publico na mesma a antipatia de hoje. Tal como o Archie Bunker nunca primei muito pelo tacto.

Recapitulando




Recolha para Memórias/Tílias


- a actualizar -


por Isabel Paulos, em 26.04.23




 


Foram umas horas a fazer um primeiro levantamento dos posts a aproveitar para As Tílias, A Tília, Quinta (ainda não fixei nome). Durante as quais muito me passou pela cabeça, desde o "pronto, está feito", até ao "não faço a mais pálida ideia de como agarrar nisto, seguir o croqui inicial juntando os poucos escritos não publicados e construir uma estrutura coerente", passando pelo "epah, estou fartinha de memórias e família e de mim, vou largar esta coisa toda e zarpar para uma vida". E foi assim o estado de espírito desta madrugada. Amanhã logo se vê. De qualquer forma, fica este post em banho-maria. Quem sabe o complete e lhe dê atenção noutra altura. Neste momento, estou farta.


*


Noite, a 12 Janeiro 2020, Compromissos, a 02 Fevereiro 2020; Espanto, a 09 Fevereiro 2020; Alegrias, a 14 Março 2020; Tílias - Rua N. S. de Fátima, a 18 de Fevereiro 2020;  Os livros que não li, a 11 Abril 2020; 2020; Tílias - Compor os Sonhos, a 18 Fevereiro 2020; Elo de vida, a 09 Março 2020; A ponte, a 28 Março 2020; O dia seguinte, a 13 Abril 2020; Dramas, a 13 Abril 2020; Tílias - Brilho e Falsidade, a 23 Abril 2020; Sonhar, a 01 Maio 2020; Verdes - Tílias,Conversa, a 15 Maio 2020;  Respirar, a 16 Maio 2020; Noites atrevidas, a 19 Maio 2020;  De volta à realidade, a 04 Junho 2020; Bafejada pela sorte, a 18 Junho 2020; Almoço, a 20 Junho 2020; Lanche, a 20 Junho 2020; O agora, a 26 Junho 2020; Sábado a 27 Junho 2020; Verdes - Tílias, a 28 Junho 2020; Verdes - Mentrasto, a 30 Junho 2020; Verdes - Flores campestres, a 02 Julho 2020; Verdes - Couves, a 08 Julho 2020; Ele há vidas boas, a 13 Julho 2020; Os castelos na areia, a 25 Julho 2020; Verdes - Frutos, a 11 Agosto 2020; Passear, a 14 Agosto 2020; Até breve, a 18 Agosto 2020, Interlúdio, a 03 Setembro 2020; Ferreira de Castro, a 06 Setembro 2020; Chuva, a 19 Setembro 2020; Essencial, a 09 Outubro 2020; A despropósito de Hemingway, a 17 Outubro 2020; Apontamento, a 18 Outubro 2020;  A caminho do Jardim Botânico, a 18 Outubro 2020; Verdes, a 19 Outubro 2020; Xícaras & Canecas, a 07 Novembro 2020; Verdes - Milho, a 16 Novembro 2020; Porto, a 27 Novembro 2020; Automóveis, a 29 Novembro 2020; A Tília, a 04 Dezembro 2020; Tílias - Rua General Torres e Brasil, a 08 Dezembro 2020; Meio Sábado, a 19 Dezembro 2020; Paul McCartney Carpool - Let It Be, a 31 Dezembro 2020; Perborato, a 03 Janeiro 2021; São Miguel, a 16 Janeiro 2021; Fiel da Balança, a 16 Janeiro 2021; Costura, a 23 Janeiro 2021; Mais automóveis, a 30 Janeiro 2021; Diário, a 06 Fevereiro 2021; Três Velhotes, colonização e gato, a 20 Fevereiro 2021; Bichos, a 28 Fevereiro 2021; Risco mal calculado, a 12 Março 2021; Trigo e Joio - Serra da Estrela, a 13 Março 2021; A gémea, a 18 Março 2021; Vidas incontáveis, a 25 Março 2021; Futebol, a 27 Março 2021; Ponto de situação, a 04 Abril 2021; Personal trainer e genuflexório, a 08 Abril 2021; Sobreviver, a 09 Abril 2021; Serralves, a 17 Abril 2021; O pesadelo, a 22 Abril 2021; Sonhos, a 28 Abril 2021; Umbigo, a 15 Maio 2021; Casa & Conforto, a 15 Maio 2021;  Planos, a 19 Maio 2021; Tílias - Filha e Maternidade, a 20 Maio 2021; Crapô, a 05 Junho 2021; Diário da Varanda, a 11 Junho 2021; O cúmulo da sinceridade, a 24 Junho 2021; Brancas e pretas, a 07 Agosto 2021; Diário, a 08 Agosto 2021; Sábado, a 14 Agosto 2021; Panca das casas, a 18 Agosto 2021; Computadores, a 22 Agosto 2021; Inconfessáveis, a 02 Setembro 2021; Caminho, a 06 Setembro 2021; Tílias - 11 de Setembro 2001, a 11 Setembro 2021; Diário, a 13 Setembro 2021; Céu nocturno estrelado, a 25 Setembro 2021; Tílias - Chave em Christchurch, a 28 Setembro 2021; Setembro, a 29 Setembro 2021; Verdes – Japoneiras, a 06 Outubro 2021; Tílias - Maçãs e Batatas, a 17 Outubro 2021; Diário, a 17 Outubro 2021;  Silo, a 20 Outubro 2021; Mais íntimo é impossível, a 24 Outubro 2021; Verdes - Caminhos, a 10 Novembro 2021; Grande toalha branca, a 10 Novembro 2021; Diário, a 20 Novembro 2021; Verdes – Alho-porro, a 20 Novembro 2021; Diário, a 27 Novembro 2021, Tílias - Jerusalém há 2000 anos, a 28 Novembro 2021; O que não se costuma dizer, a 01 Dezembro 2021; Diário, a 05 Dezembro 2021; Verdes – Bichos, a 09 Dezembro 2021; Tílias - Avó, a 13 Dezembro 2021;Pequenos evangelhos atrás da porta, a 13 Dezembro 2021; Tílias - Virinha, a 04 Janeiro 2022; Tílias - Sonhos, a 09 Janeiro 2022; Lembrete, a 26 Janeiro 2022; Diário, a 29 Janeiro 2022; Tílias - Livros da infância, a 31 Janeiro 2022; Diário, a 12 Fevereiro 2022; Tílias - Café, a 18 Fevereiro 2022; Diário, a 20 Fevereiro 2022; Funil, arroz de polvo e originalidade, a 06 Março 2022; Tílias - Cozinhotes, a 31 Março 2022; Verdes, a 03 Abril 2022; A Guerra, a 06 Abril 2022; Diário, a 09 Abril 2022; Tílias - Anciãos, a 17 Abril 2022; Tílias - Avó Rosa, a 24 Abril 2022; Diário, a 30 Abril 2022; A minha multidão VI, a 12 Maio 2022; O outro, a 14 Maio 2022; O drama, a 02 Junho 2022; Tílias - Regueifa, a 05 Junho 2022; Verdes - Água, a 06 Junho 2022; Cem razões para viver, a 18 Junho 2022; Dia de tempo incerto, a 22 Junho 2022; Diário, a 26 Junho 2022; Guilty pleasures, a 05 Julho 2022; Diário, a 10 Julho 2022; Dois lados, a 18 Julho 2022;  Divagações sobre sonho e morte, a 24 Julho 2022; Cigarros, a 28 Julho 2022; Diário, a 31 Julho 2022;  Diário, a 07 Agosto 2022; Memórias de infância, a 14 Agosto 2022; Três notas, afinal são quatro, a 16 Agosto 2022; Encurradada, ou talvez não, a 16 Agosto 2022; Obrigada, a 18 Agosto 2022; Um segredo, a 18 Agosto 2022; Disparates, a 21 Agosto 2022;  Os outros, a 24 Agosto 2022; Três filmes, a 03 Setembro 2022; Amálgama, 06 Setembro 2022; Jardins do Palácio, a 06 Setembro 2022; Autocarro 203, a 09 Setembro 2022; Rua de Miguel Bombarda, a 15 Setembro 2022; Diário, a 28 Setembro 2022; Vladimir Putin, a 30 Setembro 2022; Tarde, a 03 Outubro 2022; Eca, 4 de Outubro 2022; Desabafo, a 09 Outubro 2022; Mais uma batota, a 09 Outubro 2022; Memórias, a 09 Outubro 2022; Viajar, a 11 Outubro 2022; Tagarela, a 12 Outubro 2022; Misto de agenda e diário, a 13 Outubro 2022; . Absoluto exibicionismo, a 15 Outubro 2022; Raios, luas e estrelas despojadas, a 30 Outubro 2022; Casas do passado, a 04 Novembro 2022; Castanhas, a 06 Novembro 2022; Diário telegráfico, a 10 Novembro 2022; Vinha, a 11 Novembro 2022; Pintarolas, a 13 Novembro 2022; Domingo, a 20 Novembro 2022; Conversa em Família a Quatro, a 20 Novembro 2022; Goodreads, a 24 Novembro 2022; Japonesices, a 24 Novembro 2022; Hora de almoço, a 25 Novembro 2022; Pé ante pé, a 27 Novembro 2022; Os pintainhos, a 02 Dezembro 2022;  Diário, 08 Dezembro 2022; Sexta à noite, a 17 Dezembro 2022; Lições de Vida, a 21 Dezembro 2022;  Tulipas, a 21 Dezembro 2022; Lulas, a 26 Dezembro 2022; Cão, vacas e crocodilos gigantes, a 01 Janeiro 2023; Diário, a 04 Janeiro 2023; Tanto aparato para no fim queimar o bolo, a 08 Janeiro 2023; Pequenas felicidades, a 17 Janeiro 2023; Sensações, a 17 Janeiro 2023; Diário, a 05 Fevereiro 2023; Os equívocos, a 10 Fevereiro 2023; Continuação do diário de ontem a 12 Fevereiro 2023; Hiatos a 21 Fevereiro 2023; Está a fazer argamassa?, a 07 Março 2023; Varanda, a 11 Março 2023; Almoço, a 21 Março 2023; Diário, a 26 Março 2023; Diário, a 22 Abril 2023; Diário, a 26 Março 2023; Diário, a 13 Abril 2023; Agenda, a 20 Abril 2023; Coisas de rapariga, a 24 Abril 2023.

Recapitulando



por Isabel Paulos, em 05.06.22


 


Por vezes compro regueifa em espécie de peregrinação à infância. Hoje foi um Domingo desses, com mesa de pequeno-almoço posta. Lembrei-me por isso de fazer uma entrada para as Tílias, agora que me assalta de novo a dúvida se o grosso do teor das Comezinhas não deveria ficar reservado apenas a caderno de memórias para consumo familiar. Começa a ser tarde para voltar atrás, ainda que me falte o talento para escritora ou cronista já não há volta a dar. Mergulhei nisto a fundo. O tempo julgará o destino destas memórias.

 

Ao Domingo em Valinhas não havia pão fresco pelo que era preciso sair de carro no seu encalço. Um dos postos de venda era na Longra, e aí ainda há pouco me lembrava a minha mãe como a fornecedora colocava as roscas de regueifa no triângulo de terra na berma da estrada. Mas o que mais me lembro era do entroncamento de Mouriz, em Paredes, que dava saída para Cete e Paço de Sousa, onde estacionavam vários autocarros e camionetas que percorriam a estrada nacional Porto-Vila Real, tão regularmente por nós batida entre Porto e Felgueiras. Recorda o meu pai como desses autocarros depois de auscultados todos os passageiros, saía o revisor pronto a comprar por encomenda oito ou dez roscas deste pão de romaria, no buraco das quais enfiava os braços para poder transportar todas até as entregar aos consumidores finais. Eram um primor a asseio os tempos antigos.

 

No trajecto de carro nessa zona outra coqueluche para mim e os meus irmãos era a Casa do Zé do Telhado. Costumávamos fazer as viagens a zombar no mau gosto das fachadas das casas ao longo da estrada. Aquela era diferente. Com pena não faço ideia da razão do nome por que era conhecida. Será que o famoso salteador, originário dali bem perto, pernoitara na casa? Fiquei por saber. Do meu conhecimento era propriedade de quem sempre ouvi chamar tio X.P.B. e gostava dela como de poucas, por ter traves de madeira na fachada ao gosto da arquitectura nórdica. Completamente desfasada de tudo mais nas redondezas.

 

E como as memórias são com as cerejas, ao lembrar daquele lanço de estrada e da propriedade do tio X.P.B associo sempre a história do Marquês de L., que me divertiu desde cedo. Trata-se de um senhor muito apreciado por todos e o episódio que agora conto em nada retira a estima que lhe é devida. Contaram-me em pequena - e sabe-se lá se seria verdade, estas histórias correm entre famílias e têm sempre um misto de verdade com acrescentos vários - que este senhor muito desejoso de um título nobiliárquico, escreveu a um membro da Casa de Orléans, subscrevendo-se como Marquês de L. Um apelido aliás de origem alemã, o que rebusca mais a história. Na volta do correio o ilustre aristocrata francês dirigiu a missiva naturalmente ao Marquês de L., e assim o dito passou a intitular-se doravante, munido de prova irrefutável da legitimidade do título com que se auto-investiu.

 


Da mesma saga existem os seguintes postais:


 


Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima


Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos


Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade


Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil


Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade


Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001


Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch


Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas


Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos


Fragmento 10. Tílias - Avó


Fragmento 11. Tílias - Virinha


Fragmento 12. Tílias - Sonhos


Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância


Fragmento 14 - Tílias - Café


Fragmento 15 - Tílias - Cozinhotes


Fragmento 16 - Tílias - Anciãos


Fragmento 17 - Tílias - Avó Rosa



Recapitulando
















por Isabel Paulos, em 06.06.22










 






 


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Não há verdes sem água. No meu paraíso verdejante da infância não faltava água e muito do dia-a-dia decorria em seu torno com tempos ora apressados ora vagarosos. Cada vez que me sinto digitar num ápice os vinte e um algarismos do NIB para fazer transferência bancária ou manejar outra qualquer máquina digital, e reparo na forma como outros estranham a velocidade do dedilhar, dou por mim a notar a distância abissal que me separa da meninice - a noção de tempo. O lava-louça da cozinha de Valinhas tinha três torneiras, duas com água corrente, a fria e a quente aquecida por pequeno esquentador a gás próprio, e uma terceira da água da mina. A única que bebíamos. No Inverno jorrava forte, no Verão era uma despaciência e foi essa torneira que me educou nos jogos de perseverança. Vazando um fio lento e fino, em criança pequena colocava o copo de vidro em baixo e começava a dar voltas à mesa da cozinha, contando-as para saber quantos giros demorava encher o copo. De igual modo, quando me avisavam que estava quase na hora do almoço ou jantar, perguntava aos adultos quantas voltas à casa demorava até ter de vir para dentro – havia que aproveitar o arejo do lado de fora das paredes de pedra. Aliás, o circuito no terreiro em torno da casa era a minha medida de eleição - o meu jogo de paciência.


Nos meses quentes os meus irmãos e eu estávamos encarregues de ir ao tanque do patamar de baixo, onde a água da mina corria mais lesta, encher os jarros da água para as refeições. E até muito tarde, já vivendo em Gaia há vários anos, continuei a beber água da mina de Valinhas, por a minha mãe se dar ao trabalho e cansaço de todas as quartas-feiras quando ia visitar a minha avó, encher seis garrafões e trazê-los para casa.


Em nova era muito sensível ao sabor. Odiava o paladar da água da torneira de Gaia e, sobretudo, do Porto. Há quarenta anos as águas do Porto eram pestíferas. No controlo da qualidade evoluímos bastante. Também não apreciava a maioria das engarrafadas, salvaguardando talvez pelo hábito a Fastio e a Luso. Hoje em dia bebo quase todas sem me aperceber das cambiantes de paladar e em casa uso a da torneira - tornei-me insensível a estes pequenos preciosismos da vida.


Voltando a Valinhas, todo o sistema de rega e de circulação da água da mina havia sido criado e desenhado pelo meu avô. Junto ao terreiro da casa no lado poente estava aquilo a que nunca se referiu senão como "a taça", rodeada de uma sebe de metro e meio de altura em forma de meia lua intervalada a meio pelo diospireiro. Fazia parte do sistema de rega da quinta. Era um tanque oval com cerca de quinze metros de comprimento, metro e meio de altura na parte mais baixa e três metros na mais funda. Nós crianças chamávamos com atrevimento e pompa àquele refrigerador de pequenos afoitos: piscina. O início do Verão abria com a minha mãe e nós lá enfiados a tirar baldes de lodo do Inverno, a esfregar com vassouras e detergente as paredes e chão, ao que se seguia o enchimento com um garrafão de lixívia e não sei se cloro. Nos meses seguintes, os das férias grandes, corajosos como só as crianças conseguem ser nesta matéria nadávamos nas águas gélidas depois das quatro da tarde. A regra imposta pelo meu avô era: só entra quem sabe nadar, pelo que a quem não sabia convinha aprender rápido e às escondidas e tratar de se mostrar desenvolto logo de seguida. O certo é que entre irmãos e primos todos adorávamos tais banhos.


 


Da mesma saga existem os seguintes postais:



19/06/2023

Chegou o Archie

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Ao fim de alguns anos lá me decidi a comprar uma reaccionária poltrona Archie (Bunker). O tal orelhas. E bem berrante, a jogar com o sofá de dois lugares, para que não haja dúvida de que lado da guerra estamos cá em casa. Cheira a novo, é uma sensação boa.


 


Ah, e a série de luzes de Natal está ali desde Janeiro. Não pode ser mais piroso, sei. Mas por cá, este ano é Natal todos os dias.


É o que se chama pôr-me a jeito. 

Brilhante


Bom dia.

Picuinhices ou talvez não

Que fazer na hipótese de alguém que até temos em boa conta, no desconhecimento dos factos, nos dá, com a melhor das intenções, pressupomos, uma lição errada com recurso a um lugar-comum? 


Que fazer na hipótese da mesma pessoa pôr em causa a veracidade das nossas palavras, quando estamos a ser absolutamente honestos e exactos, sentindo-nos ofendidos com isso?


No primeiro caso esperar que o tempo passe e a despropósito, para não cairmos no mesmo erro de dar ensaboadelas patetas, explicar com toda a compreensão possível o facto que esse alguém desconhece, não o ofuscando ou ofendendo. São cuidados que passam despercebidos à maioria.


Na segunda hipótese passando a ter menos consideração por esse alguém, porque ela é uma dádiva de dois sentidos. 

18/06/2023

Diário

(Uma nota: o presente postal é menos importante do que o de ontem, um resumo de artigo lido sobre Inteligência Artificial; se não tiverem paciência para dois postais longos, sugiro o de ontem - no hard feelings, entendo perfeitamente, há 49 anos que me aturo e sei bem que sou muito maçadora.)


Por onde começar sem ponderar? Por ontem. Já nem me lembro muito bem, foi há tanto tempo. Sim, hoje dormi até depois das nove, sem me aperceber das duas vezes que o despertador tocou e o desliguei. E quando se dorme muito, os dias transactos ficam mais enterrados no passado. Dormi mais do que habitual e estava a precisar, mais uma noite assim e refaço-me. De resto, pouco fiz. As deambulações de leitura habituais. O post que parece um quiqueriqui e não é. É das tais coisas, há quiqueriquis que passam por textos com substância e substância que passa por quiqueriqui. Um café a três com cobiça das novas canecas. Hoje já fui comprar um par delas para oferecer a quem cobiçou e já agora mais algumas para nós, para servir aos poucos que chegam.


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Um jantar de leitão - sim é infanticídio e a vida é cruel -, com batata frita de pacote e alface, milho e tomate. Uma passagem rápida pelas moradias da rua abaixo, para ver a evolução da construção dos meus queridos caixotinhos da mansarda altaneira.


E recebi o orelhas amarelo, finalmente. Estou uma mãos largas, apeteceu. Como sou lerda, não me habilito a montá-lo. Virão cá amanhã tratar do assunto. Terei um sol maior na pequena sala, já havia um sol pequeno feito pouf, agora o Nuno terá mais conforto na sala e o Ritz mais uma oportunidade de enfiar as unhas e estragar a poltrona nova. Bom, a mim também agrada. Um dia ainda aprendo a estar sentada numa poltrona o tempo suficiente como gente grande. Sempre fui mais de me esparramar ou sentar à chinesa. As posturas correctas cansam-me sempre. Ai, as teorias psicológicas sobre posturas. A tragédia, o drama, a falha. Os paradigmas do comportamento certo e errado. Ontem ou hoje fiz mais uns desses testes de personalidade muito fiáveis que dizem tudo e o seu contrário. Continuam a deduzir pelas imagens escolhidas que sou criativa, mas ainda não se decidiram se sou observadora nata ou não; umas vezes lá calha, deve coincidir com os períodos em que o cérebro está descansado. Hoje decidiram que sou mais de desistir do que de persistir. Quem diria. Será que os tão estimulantes e rigorosos estudos lifestyle consideram variáveis determinantes para os rótulos que criam - e pensar que é isto que alimenta os algoritmos, céus. Imaginar isto num tempo em que a IA determine a avaliação dos perfis para empregabilidade por exemplo é fascinante. Se muitas das pessoas que trabalham em recursos humanos já estão pejadas de preconceitos, guiando-se por rótulos das vagas pseudo-científicas, o passo seguinte, o das máquinas avaliarem homens e mulheres para determinarem se estão aptos ou não a executar determinada função é assustador. Não gosto de alarmismos e prefiro optar sempre por uma atitude optimista – até por considerar o pessimismo um luxo de gente privilegiada -, mas é inegável a ideia da Inteligência Artificial poder vir abrir a Caixa de Pandora.


Saindo rápido de assuntos pesados e falando do dia de hoje. Correndo o risco de ser repetitiva - e céus, como sou -, comunico novamente que passei a adorar as manhãs de fim-de-semana, as tais que ignorei durante tantos e tantos anos. São escolhas, dizem os sabe-tudo. Depois do café e de ir à padaria, estivemos a ouvir um podcast E o Resto é História. Esta semana escolhi o: O Homem que mais vidas salvou em toda a História. Rui Ramos fala não só sobre Louis Pasteur como acerca de Os Miseráveis de Victor Hugo. Hoje não faço resumo. Já chegou o de ontem. Quem quiser pode sempre ouvir.


O que ficou a pairar na minha mioleira, mais do que a enorme relevância do primeiro para a humanidade com a descoberta da importância da higiene e a revolução das vacinas (pré-existentes) e do vanguardismo do segundo ao focar a narrativa nos miseráveis em tempo de optimismo no progresso, mais do isto, dizia, foi a contestação que geraram, apesar de figuras ilustres no seu tempo, fosse pelo pasmo da novidade que defendia o primeiro fosse pela estranheza do que se considerava anacronismo do segundo.


(Falta aqui qualquer coisa a que não consigo chegar; precisava de algum silêncio para me concentrar, mas o Nuno está virado para música portuguesa o dia inteiro; se ao fim da manhã me soube muito bem, agora já estou fartinha, porém há que ajustar a mioleira a um acordo possível com o que existe e é justo, a isto se chama convivência.)


A outra questão a pairar é a da relação entre a ciência e a fé. Julgo que já deixei expressa nas Comezinhas a ideia da possibilidade de convivência pacífica de uma e outra na mente humana. No senso comum passa-se muito a ideia de que se contrapõem, apelando aos exemplos de cientistas ateus e ocultando a existência dos cientistas crentes. Em paralelo apresenta-se o problema que leva à confusão. A falta de explicação racional, lógica e emocional para qualquer fenómeno ou aspectos comezinhos do dia-a-dia pode gerar duas vias de solução irracionais: a da convicção pela moda do momento e a do sobrenatural. No presente cai-se muito frequentemente na primeira - parte reconduz-se ao que chamo ciência lifestyle.


Num pré-estágio dos conteúdos produzidos pela Inteligência Artificial, que debitará tudo quando seja corrente dominante no mundo, já hoje, já há anos observamos conteúdos pré-fabricados nos portais mais populares online. Aliás, podemos reparar neles quando trocámos conversas profissionais, sociais ou mesmo familiares. Estamos tomados pelos conteúdos standardizados. Há gente que os produz e gaba-se disso como se estivesse a produzir uma obra digna de criativo ou reflectido. Ainda na semana passada pude ler uma mulher muito contente consigo e com o textinho que acabara de produzir, criticando os que não percebendo do assunto gostam de opiniar. Pena a dita, apesar da auto-estima são polida, não saber escrever nem pensar tão pouco respeitar os outros. Todavia o conteúdo era muito adequado a encher chouriços ou páginas mais vistas online - preenchia com brio os requisitos de irrelevância, quezília gratuita e leviandade. É claro que com alfinetadas destas fico com o odioso. É detestável pôr em causa a mentalidade subjacente aos testes de personalidade e aos conselhos da psicologia lifestyle, que determinam que cada um deve afirmar-se pela positiva, mostrando-se sempre auto-confiante, nunca valorizando o aspecto da exigência consigo próprio e a capacidade de auto-critica - há de chegar a moda da auto-critica, mas estou certa que em vez da verdadeira humildade, irá defender-se a aparência de modéstia só para angariar mais audiência para os criadores de conteúdos. O que é mais desmoralizador? É que mesmo quem entende estas nuances, aconselha o uso oportunista da inteligência e do bom senso – o mesmo é dizer, aconselha que se disfarce, não se afronte os poderes e a estupidez instalada no mundo online, tal como recomendava não questionar frontalmente os poderes instalados no mundo físico. Come e cala, sugerem.


Regressando ao mais importante, a aparência de ciência é um dos maiores dramas da actualidade. O grande engodo, tão perigoso como o fanatismo ou a entrega cega às seitas religiosas. A credulidade numa e noutra alimentam negócios lucrativos: o tráfico de conteúdos do sector do entretenimento e media, o comércio da fé nas seitas. Numa época em que tantos de nós ficará desnorteado com os avanços tecnológicos, tamanha será a velocidade com que ocorrão, será preciso estar desperto, será preciso estar mentalmente são, para não cair nestes engodos. Bem sei que critico muitas vezes o esmiuçar de razões, de argumentação, e não desdigo: a avalanche de argumentos mina a convivência pacífica. Porém, não deixa de ser verdade que também é preciso confiar nas explicações racionais. É preciso tentar entender a causa das coisas, com ajuda da ciência verdadeira. Nem sempre conseguimos, nem sempre é possível compreender o que se passa à nossa volta. Sempre assim foi e assim será. Por isso costumo falar na necessidade de acreditar no acaso. Há momentos em que devemos dar o braço a torcer: nos casos em que ainda não há resposta da ciência séria ou verdadeira e nos negamos a sujeitar à parvoeira da pseudo-ciência. Nesses casos, antes o acaso. Nesses casos não me custa nada admitir a tranquilidade de uma razão última inexplicável. Até a ciência explicar, até que se abra nova dúvida na eternidade.


Ah, esqueci-me que isto era um Diário. Ou talvez não, afinal os meus dias são mesmo assim.


E como sou tonta, deixo mais uma promessa. Um post futuro sobre as novas teorias da ciência verdadeira. Para além das quatro dimensões conhecidas (comprimento, largura, altura e tempo), coloca-se a possibilidade de existirem outras. Mas por estas matérias não me aventuro sozinha, mais uma vez vou pedir a alguém (quem será, quem será?) faça leituras por mim e me explique o que é difícil compreender.