Modo: crescendo de boa-disposição; capacidade de regeneração, como as lagartas.
Faz amanhã oito dias, na troca de fim de tarde por noite de São João vinda do local de trabalho, subi até casa sentindo-me a mais infeliz das humanas - desconsiderem a falta de medida das proporções. Desciam magotes de gente preparando-se para a folia e eu carpia. Ah, os egoísmos e as manhosices. Águas semi-passadas: é bom ter como referência os maus momentos para apreciarmos melhor os dias bons. Amanhã conto subir até casa bem sorridente – vão de retro os contratempos. Só não entoarei qualquer musiqueta alegre pelo caminho porque sou desafinada, em rigor, nem sei mesmo cantar afinado ou desafinado. Por falar nisso, espero não estar a cantar vitória antes do tempo - não é que se espere nenhuma outra disputa senão esta: deixar tudo orientado para gozar 15 dias de férias.

Foi uma semana em crescendo, depois da derrota de sexta-feira, passei a manhã de Sábado a dar um arranjo à casa. À tarde recebemos a amiga F. que nos trouxe uma visão diferente do mundo de alguém que dividiu a vida entre Moçambique, Portugal, Angola e África do Sul. O lanche serviu apenas de pretexto para a ouvir e com ela conversarmos.

No Domingo fomos para o Parque da Cidade. Desta vez comecei por registar um dente-de-leão perto das ramadas de videiras, como acontecia em Valinhas. Sempre vi dentes-de-leão junto às ramadas.

Um pouco mais adiante os tão mal-amados eucaliptos. Habituei-me na meninice a ouvir falar dos malefícios desses delapidadores de água e vida alheia originários da Austrália. Ah, porque demos cabo das espécies autóctones: ah, as prédicas que levei sobre a adoração aos castanheiros e carvalhos contra a praga dos eucaliptos e pinheiros. É engraçado como muito do que ouvi em miúda surgiu ao longo dos anos como verdade do momento. O facto é que também gosto de eucaliptos.
Agrada-me o conjunto de ar esguio e seco de pele rasgada e folha prateada cheirosa, todo ele a uivar ao sabor do vento.

De resto, dois grupos. Um de gente que me pareceu nova, mas para dizer a verdade não prestei grande atenção, vi apenas a mancha e percebi que havia uma palestrante. Não sei de que falavam, mas escolheram bem o cenário. Outro de gente aplicada no exercício físico.


Desta vez não fotografei os vários piqueniques, mas comentamos como ideia futura. Há tantos anos não faço um piquenique. É uma ideia para um fim de tarde bem passado. A ver vamos. No fim da volta ao parque a já habitual bola de gelado de maracujá.

A semana de trabalho foi correndo e o refúgio em casa fez-se tranquilo, de dia para dia menos sofrido e mais bem-disposto já que a aproximação das férias traz sempre ânimo. O Ritz também anda ainda mais alegre e amistoso. O Nuno desencantou a ideia que ele está agradecido por lhe termos dado um cadeirão, onde tem passado boa parte das noites.
Anteontem aderi ao quarto grupo de WhatsApp – uma fartura para mim que sou pouco dessas coisas, mas no caso sempre serve para saber notícias de uma casa que me é muito querida. Ontem troquei poucas e curtas mensagens com uma amiga em férias a solo e tive alguma inveja daquela boa vida de pegar numa pequena mochila e estar no ir sem amarras. Sim, isto da tendência celibatária não é uma coisa que saia do nosso espírito facilmente apesar de já se contarem alguns bons anos de vida a dois. Ontem o telemóvel contou-me a propósito dos esoterismos que os caranguejos e sagitários são pouco dados à saudade e vivem bem consigo próprios e os seus interesses, sem grande necessidade de estarem sempre acompanhados. Talvez por isso haja bom-entendimento nesta casa de caranguejo com ascendente em sagitário e “sagitária” com ascendente em “carangueja”. Vivemos bem respeitando o espaço do outro, continuamos a acordar a maioria dos dias com razões para soltar umas gargalhadas logo pela manhã e um dia destes para desenjoarmos um do outro regresso à ideia de uma escapadinha a solo, um giro de independência. Temos que zelar pelo futuro e a manutenção da sanidade mútua. Precisamos de descanso. O Nuno ajuda-me a aturar a mim própria, o que não é tarefa fácil atentas as rabugices e as neuras, e eu aturo-o chato como a ferrugem como é. Duas peças de refugo a estragar apenas uma casa, como costumamos brincar.
Planos de férias? Sim, isto continua tintim por tintim. Uma alteração de última hora feita ontem: marquei uns dias na Póvoa de Varzim, afinal estava a fazer-me impressão não sair de casa no Verão e aquela cidade aqui tão perto é como se fosse a nossa segunda casa nos últimos anos - e minha há mais alguns, desde que para lá fui uns dias para conseguir paz. A ideia é poder nadar, ter à disposição piscina e mar a dois passos do quarto. A ver vamos como estarão os dias. De resto, marcados estão: dois dias destinados a Almada, uma tarde de arejo com a T. e um jantar com o C. e o R. E porque não há bela sem senão: uma manhã destinada a burocracias e um fim de manhã a consulta médica. De resto, recreio livre sem pré-marcações.
Tintim por tintim, uma pouca-vergonha de exibicionismo de vida banalíssima, de rame-rame mesmo em férias, sem um pingo de excite, aventura, exotismo e glamour. Uma valente maçada.
Temos pena – sim, adiro a estas expressões bregas quando me apetece e também às expressões chiques ou bem cotadas quando me dá na real gana, mas estas últimas uso cada vez menos. É tão bom deixar o pezito fugir para o chinelo; dá tanto gozo poder ser pirosa à vontade e quando apetece. Esses sim, são os verdadeiros privilégios cada vez mais inacessíveis. É por estas e por outras que amanhã conto ter um fim de tarde feliz.