Fiz uma pequena alteração ao perfil, acrescentei “feminino” não me vá baralhar no futuro e deixar de saber quem sou – nunca se sabe, posso ficar com Alzheimer. É que pelo jeito - sei, abrasileirei, foi de propósito: é uma parvoíce provinciana não aglutinar os termos e os ditos usados nos países de expressão portuguesa, só nos engrandece – pelo jeito que isto leva, dizia eu, posso vir a perder o direito a ser mulher, passando apenas a pessoa.
Não é que ser pessoa seja pouco. Mas sinto que parte de mim dessa forma fica por explicar. Claro que cada um com a sua panca: há gente cujas grandes preocupações passam pelas novas dinâmicas no mercado dos vernizes e manicura, pelos paradigmas dos bike tours, pelos conceitos do turismo gastronómico ou ecológico e naturalmente exauridas de tanto esforço mental precisam de sair da sua zona de conforto, nem que para isso seja necessário negar a biologia. Já pessoas ociosas, manifestamente ignorantes e que se comportam como trogloditas pelam-se por ser mulheres. Talvez seja apenas por uma questão prática: a de em si mesmas não sobrarem peças ou ausência delas por explicar, digamos assim. Além do que é naturalmente difícil negar que sentem falta das peças que não possuem para serem contentes e vá-se lá saber porquê, gostam que as ditas peças fiquem do lado de lá (enquanto estão ocupadas com outros afazeres, claro), do lado das pessoas das peças diferentes. Ou talvez seja a falta de frequência de workshops de escrita e caprichos criativos – deve ser, por isso ficam assim básicas e sem imaginação a perorar sobre peças: não sabem nada da vida, as pobres coitadas, ingénuas que até dói. Ou será falta de tempo para se informarem e educarem batendo perna nos centros comerciais à procura dos trapinhos e dos ténis a condizer com o tom da bike - essa sacrossanta potenciadora das endorfinas - ou passando horas em frente à televisão e nas redes sociais a seguir séries apocalípticas, as excitantes cusquices dos famosos, os temas fracturantes dos reality shows e a organizar eventos para debater traumas psicológicos e as melhores rações gourmet para evitar a azia aos companheiros de quatro patas. Já as portadoras de pobres cérebros arcaicos pouco mais do que analfabetas e paradigma-info-excluídas - longe de perceberem a pertinência e premência destes assuntos fulcrais -, não se habituam facilmente a prescindir de parte de si, nem da parte que lhes falta e (felizmente, céus!) não é sua.
Ups, parece que caí um outra vez no sarcasmo. Mas foi pouquinho, vá.