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07/06/2023

O laguinho do quintal

Serás tomada por chica-esperta? Talvez não. Agora, é certo que és justamente tida por chata. Ninguém gosta de deparar-se dia-a-dia com evidências desconfortáveis. Ninguém gosta da realidade nua. Despida. Chamam-lhe excesso e topete. É muito mais agradável a realidade vestidinha da fato de marinheiro a dar o ar de grandes navegações e aventuras no laguinho do quintal - cheio de peixinhos vermelhos e pretos a brincar à falta de memória -, é muito mais simpático doar a sensação de realismo conveniente, com o vocabulário e a gramática adequada e a semântica dos lugares-comuns. Repara como entre nós são bem-sucedidos os plagiadores de correntes e estruturas literárias de referência, sem um pingo de criatividade associada, sem um pingo de pensamento original ou inovador – é erudição, é resultado de estudo, de trabalho, de rigor, refugiam-se. É preguiça, comodismo e trapaça de bom aluno que decora e replica a lição sem a questionar, apesar de a dissecar, isso sim. Brilharete de quem não arrisca um centímetro fora da doutrina dos pedagogos, de quem não tem pensamento próprio. Bons alunos na Europa, dizia-se há 30 anos. Bons imitadores na escrita e pensamento entre os nomes que bailam nos salões das menções e referências recíprocas. Sucesso fácil e efémero no comércio da escrita e das ideias feitas. Fancaria.


(Adenda fortuita: são tão corajosos os cobardes quando atacam à socapa e em matilha; quase parecem gente.)