
Tentando aproveitar os quatro dias em casa. Para já assolou-me uma dorzita de cabeça que há muito não sofria; devo estar a ressacar não ir trabalhar dois dias na semana. Em mente polvilham dois postais. Um na linha do escrito em Agosto de 2020, Conversas íntimas, acerca de sabotagem e espionagem nas comunicações - sim, com direito a referência aos cabos submarinos -, pretendo ter uma conversa com o Nuno sobre Inteligência Artificial e Chat GPT. Desta vez há diferenças: sei que o Nuno estava fora do assunto, por isso pedi que lesse qualquer coisa depois de ontem à noite ter estado eu própria nas minhas leituras. Apesar de ainda não ter perdido um minuto a conceber as perguntas ou a adivinhar as respostas e, talvez por isso mesmo, estou certa que a conversa será profícua. Apesar da preguiça alentejana, que afinal é muito parecida com a preguiça nortenha. Ele perde muito tempo a mexer nas gavetas e nos cabos, a arrumar audiotecas nos computadores e eu não perco a oportunidade de em dia de férias ir a lojas de quiqueriquis comprar canecas de café. Sobram-nos poucas oportunidades para encontrar as explicações do mundo. Uma maçada. Ainda assim, farei um esforço. Até porque me cansa muito reproduzir palavras de outros, já que gosto de ser fiel não aligeirando ou manipulando o que me chega. Quando assim é, tudo fica mais pesado e menos atractivo, menos vendável. Temos pena. Cada um nasce para o que nasce. Enfim, a ideia é revelar as nossas primeiras impressões sobre o assunto, sem medo de estar a dizer asneiras, inconsistências ou a fazer papel de urso. É a questionar e a colocar as perguntas básicas, sem partir do princípio falacioso que se conhece bem as respostas, sem crença nas respostas já veiculadas sobre o assunto, que se pode acrescentar qualquer coisa de válido à discussão - mesmo sabendo que o que mais interessa às empresas detentoras dos programas é a discussão em si: o debate alimenta a máquina. Outros aproveitarão e farão figura. A gente vai continuar. Vamos continuar no nosso pacato rame-rame.
Farei também um diário. Lá me iria coibir de mostrar as canecas de café novas. Desde quarta-feira que a minha máquina de fazer pipocas mentais tem bulido muito. Esse dia foi extremamente cansativo por ter trabalhado bastante enquanto as pipocas iam saltando a velocidade estonteante – vá, apenas rápida, não era estonteante e, sobretudo, o mais importante, sem comprometer a concentração total ou maioritária nas tarefas diárias. Tem sido um progresso. Houve alturas – há 23, 22, 18 e 16 anos - que o pipocar impedia-me de concentrar noutras tarefas. Ultimamente, apesar dos receios de falhas semelhantes no processador, tenho conseguido dividir a atenção e fico agradecida por isso – sei não é o ideal para o processamento da informação e o desempenho sem erros, mas a vida é como é e as necessidades são o que são. Ainda que muito cansativo, é proveitoso. Recordo que na quarta-feira, entre muito milho frito, fiquei com a ideia de um conto infantil, todavia não me lembro da historinha que construí de fio a pavio. Pena. Sei é que tinha pensado fazê-lo este fim-de-semana. E outro para adultos - o gozo que estas manifestações básicas na escolha das palavras e expressões inspiram dão-me prazer especial –, mas terei de esperar pelo final da última leitura. Ontem, quinta-feira, considerei fazer um post sobre alienações, ou melhor, acerca de humanidade e fragilidades, em regra, escondidas atrás de poses de grande racionalidade, convicção e auto-realização, transformando vidas em ficções pouco recomendáveis a gente inteligente e sensível.
A ver vamos se desta amálgama sai alguma coisa de interesse nestes três dias.