(Uma nota: o presente postal é menos importante do que o de ontem, um resumo de artigo lido sobre Inteligência Artificial; se não tiverem paciência para dois postais longos, sugiro o de ontem - no hard feelings, entendo perfeitamente, há 49 anos que me aturo e sei bem que sou muito maçadora.)
Por onde começar sem ponderar? Por ontem. Já nem me lembro muito bem, foi há tanto tempo. Sim, hoje dormi até depois das nove, sem me aperceber das duas vezes que o despertador tocou e o desliguei. E quando se dorme muito, os dias transactos ficam mais enterrados no passado. Dormi mais do que habitual e estava a precisar, mais uma noite assim e refaço-me. De resto, pouco fiz. As deambulações de leitura habituais. O post que parece um quiqueriqui e não é. É das tais coisas, há quiqueriquis que passam por textos com substância e substância que passa por quiqueriqui. Um café a três com cobiça das novas canecas. Hoje já fui comprar um par delas para oferecer a quem cobiçou e já agora mais algumas para nós, para servir aos poucos que chegam.

Um jantar de leitão - sim é infanticídio e a vida é cruel -, com batata frita de pacote e alface, milho e tomate. Uma passagem rápida pelas moradias da rua abaixo, para ver a evolução da construção dos meus queridos caixotinhos da mansarda altaneira.
E recebi o orelhas amarelo, finalmente. Estou uma mãos largas, apeteceu. Como sou lerda, não me habilito a montá-lo. Virão cá amanhã tratar do assunto. Terei um sol maior na pequena sala, já havia um sol pequeno feito pouf, agora o Nuno terá mais conforto na sala e o Ritz mais uma oportunidade de enfiar as unhas e estragar a poltrona nova. Bom, a mim também agrada. Um dia ainda aprendo a estar sentada numa poltrona o tempo suficiente como gente grande. Sempre fui mais de me esparramar ou sentar à chinesa. As posturas correctas cansam-me sempre. Ai, as teorias psicológicas sobre posturas. A tragédia, o drama, a falha. Os paradigmas do comportamento certo e errado. Ontem ou hoje fiz mais uns desses testes de personalidade muito fiáveis que dizem tudo e o seu contrário. Continuam a deduzir pelas imagens escolhidas que sou criativa, mas ainda não se decidiram se sou observadora nata ou não; umas vezes lá calha, deve coincidir com os períodos em que o cérebro está descansado. Hoje decidiram que sou mais de desistir do que de persistir. Quem diria. Será que os tão estimulantes e rigorosos estudos lifestyle consideram variáveis determinantes para os rótulos que criam - e pensar que é isto que alimenta os algoritmos, céus. Imaginar isto num tempo em que a IA determine a avaliação dos perfis para empregabilidade por exemplo é fascinante. Se muitas das pessoas que trabalham em recursos humanos já estão pejadas de preconceitos, guiando-se por rótulos das vagas pseudo-científicas, o passo seguinte, o das máquinas avaliarem homens e mulheres para determinarem se estão aptos ou não a executar determinada função é assustador. Não gosto de alarmismos e prefiro optar sempre por uma atitude optimista – até por considerar o pessimismo um luxo de gente privilegiada -, mas é inegável a ideia da Inteligência Artificial poder vir abrir a Caixa de Pandora.
Saindo rápido de assuntos pesados e falando do dia de hoje. Correndo o risco de ser repetitiva - e céus, como sou -, comunico novamente que passei a adorar as manhãs de fim-de-semana, as tais que ignorei durante tantos e tantos anos. São escolhas, dizem os sabe-tudo. Depois do café e de ir à padaria, estivemos a ouvir um podcast E o Resto é História. Esta semana escolhi o: O Homem que mais vidas salvou em toda a História. Rui Ramos fala não só sobre Louis Pasteur como acerca de Os Miseráveis de Victor Hugo. Hoje não faço resumo. Já chegou o de ontem. Quem quiser pode sempre ouvir.
O que ficou a pairar na minha mioleira, mais do que a enorme relevância do primeiro para a humanidade com a descoberta da importância da higiene e a revolução das vacinas (pré-existentes) e do vanguardismo do segundo ao focar a narrativa nos miseráveis em tempo de optimismo no progresso, mais do isto, dizia, foi a contestação que geraram, apesar de figuras ilustres no seu tempo, fosse pelo pasmo da novidade que defendia o primeiro fosse pela estranheza do que se considerava anacronismo do segundo.
(Falta aqui qualquer coisa a que não consigo chegar; precisava de algum silêncio para me concentrar, mas o Nuno está virado para música portuguesa o dia inteiro; se ao fim da manhã me soube muito bem, agora já estou fartinha, porém há que ajustar a mioleira a um acordo possível com o que existe e é justo, a isto se chama convivência.)
A outra questão a pairar é a da relação entre a ciência e a fé. Julgo que já deixei expressa nas Comezinhas a ideia da possibilidade de convivência pacífica de uma e outra na mente humana. No senso comum passa-se muito a ideia de que se contrapõem, apelando aos exemplos de cientistas ateus e ocultando a existência dos cientistas crentes. Em paralelo apresenta-se o problema que leva à confusão. A falta de explicação racional, lógica e emocional para qualquer fenómeno ou aspectos comezinhos do dia-a-dia pode gerar duas vias de solução irracionais: a da convicção pela moda do momento e a do sobrenatural. No presente cai-se muito frequentemente na primeira - parte reconduz-se ao que chamo ciência lifestyle.
Num pré-estágio dos conteúdos produzidos pela Inteligência Artificial, que debitará tudo quando seja corrente dominante no mundo, já hoje, já há anos observamos conteúdos pré-fabricados nos portais mais populares online. Aliás, podemos reparar neles quando trocámos conversas profissionais, sociais ou mesmo familiares. Estamos tomados pelos conteúdos standardizados. Há gente que os produz e gaba-se disso como se estivesse a produzir uma obra digna de criativo ou reflectido. Ainda na semana passada pude ler uma mulher muito contente consigo e com o textinho que acabara de produzir, criticando os que não percebendo do assunto gostam de opiniar. Pena a dita, apesar da auto-estima são polida, não saber escrever nem pensar tão pouco respeitar os outros. Todavia o conteúdo era muito adequado a encher chouriços ou páginas mais vistas online - preenchia com brio os requisitos de irrelevância, quezília gratuita e leviandade. É claro que com alfinetadas destas fico com o odioso. É detestável pôr em causa a mentalidade subjacente aos testes de personalidade e aos conselhos da psicologia lifestyle, que determinam que cada um deve afirmar-se pela positiva, mostrando-se sempre auto-confiante, nunca valorizando o aspecto da exigência consigo próprio e a capacidade de auto-critica - há de chegar a moda da auto-critica, mas estou certa que em vez da verdadeira humildade, irá defender-se a aparência de modéstia só para angariar mais audiência para os criadores de conteúdos. O que é mais desmoralizador? É que mesmo quem entende estas nuances, aconselha o uso oportunista da inteligência e do bom senso – o mesmo é dizer, aconselha que se disfarce, não se afronte os poderes e a estupidez instalada no mundo online, tal como recomendava não questionar frontalmente os poderes instalados no mundo físico. Come e cala, sugerem.
Regressando ao mais importante, a aparência de ciência é um dos maiores dramas da actualidade. O grande engodo, tão perigoso como o fanatismo ou a entrega cega às seitas religiosas. A credulidade numa e noutra alimentam negócios lucrativos: o tráfico de conteúdos do sector do entretenimento e media, o comércio da fé nas seitas. Numa época em que tantos de nós ficará desnorteado com os avanços tecnológicos, tamanha será a velocidade com que ocorrão, será preciso estar desperto, será preciso estar mentalmente são, para não cair nestes engodos. Bem sei que critico muitas vezes o esmiuçar de razões, de argumentação, e não desdigo: a avalanche de argumentos mina a convivência pacífica. Porém, não deixa de ser verdade que também é preciso confiar nas explicações racionais. É preciso tentar entender a causa das coisas, com ajuda da ciência verdadeira. Nem sempre conseguimos, nem sempre é possível compreender o que se passa à nossa volta. Sempre assim foi e assim será. Por isso costumo falar na necessidade de acreditar no acaso. Há momentos em que devemos dar o braço a torcer: nos casos em que ainda não há resposta da ciência séria ou verdadeira e nos negamos a sujeitar à parvoeira da pseudo-ciência. Nesses casos, antes o acaso. Nesses casos não me custa nada admitir a tranquilidade de uma razão última inexplicável. Até a ciência explicar, até que se abra nova dúvida na eternidade.
Ah, esqueci-me que isto era um Diário. Ou talvez não, afinal os meus dias são mesmo assim.
E como sou tonta, deixo mais uma promessa. Um post futuro sobre as novas teorias da ciência verdadeira. Para além das quatro dimensões conhecidas (comprimento, largura, altura e tempo), coloca-se a possibilidade de existirem outras. Mas por estas matérias não me aventuro sozinha, mais uma vez vou pedir a alguém (quem será, quem será?) faça leituras por mim e me explique o que é difícil compreender.