
Não há verdes sem água. No meu paraíso verdejante da infância não faltava água e muito do dia-a-dia decorria em seu torno com tempos ora apressados ora vagarosos. Cada vez que me sinto digitar num ápice os vinte e um algarismos do NIB para fazer transferência bancária ou manejar outra qualquer máquina digital, e reparo na forma como outros estranham a velocidade do dedilhar, dou por mim a notar a distância abissal que me separa da meninice - a noção de tempo. O lava-louça da cozinha de Valinhas tinha três torneiras, duas com água corrente, a fria e a quente aquecida por pequeno esquentador a gás próprio, e uma terceira da água da mina. A única que bebíamos. No Inverno jorrava forte, no Verão era uma despaciência e foi essa torneira que me educou nos jogos de perseverança. Vazando um fio lento e fino, em criança pequena colocava o copo de vidro em baixo e começava a dar voltas à mesa da cozinha, contando-as para saber quantos giros demorava encher o copo. De igual modo, quando me avisavam que estava quase na hora do almoço ou jantar, perguntava aos adultos quantas voltas à casa demorava até ter de vir para dentro – havia que aproveitar o arejo do lado de fora das paredes de pedra. Aliás, o circuito no terreiro em torno da casa era a minha medida de eleição - o meu jogo de paciência.
Nos meses quentes os meus irmãos e eu estávamos encarregues de ir ao tanque do patamar de baixo, onde a água da mina corria mais lesta, encher os jarros da água para as refeições. E até muito tarde, já vivendo em Gaia há vários anos, continuei a beber água da mina de Valinhas, por a minha mãe se dar ao trabalho e cansaço de todas as quartas-feiras quando ia visitar a minha avó, encher seis garrafões e trazê-los para casa.
Em nova era muito sensível ao sabor. Odiava o paladar da água da torneira de Gaia e, sobretudo, do Porto. Há quarenta anos as águas do Porto eram pestíferas. No controlo da qualidade evoluímos bastante. Também não apreciava a maioria das engarrafadas, salvaguardando talvez pelo hábito a Fastio e a Luso. Hoje em dia bebo quase todas sem me aperceber das cambiantes de paladar e em casa uso a da torneira - tornei-me insensível a estes pequenos preciosismos da vida.
Voltando a Valinhas, todo o sistema de rega e de circulação da água da mina havia sido criado e desenhado pelo meu avô. Junto ao terreiro da casa no lado poente estava aquilo a que nunca se referiu senão como "a taça", rodeada de uma sebe de metro e meio de altura em forma de meia lua intervalada a meio pelo diospireiro. Fazia parte do sistema de rega da quinta. Era um tanque oval com cerca de quinze metros de comprimento, metro e meio de altura na parte mais baixa e três metros na mais funda. Nós crianças chamávamos com atrevimento e pompa àquele refrigerador de pequenos afoitos: piscina. O início do Verão abria com a minha mãe e nós lá enfiados a tirar baldes de lodo do Inverno, a esfregar com vassouras e detergente as paredes e chão, ao que se seguia o enchimento com um garrafão de lixívia e não sei se cloro. Nos meses seguintes, os das férias grandes, corajosos como só as crianças conseguem ser nesta matéria nadávamos nas águas gélidas depois das quatro da tarde. A regra imposta pelo meu avô era: só entra quem sabe nadar, pelo que a quem não sabia convinha aprender rápido e às escondidas e tratar de se mostrar desenvolto logo de seguida. O certo é que entre irmãos e primos todos adorávamos tais banhos.
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