Vamos por partes nem sei bem do quê. Isto de moralizar quase de improviso tem o que se lhe diga. Fala-barato, pensarão. Talvez não. Que pensei hoje para deixar escrito nesta rubrica? Não fugindo de teclas muito marteladas neste blogue passarei novamente pela presunção de que se sabe mais do que o interlocutor e num registo menos tocado pela existência de diferentes sensibilidades quanto ao que é certo ou errado no trato.
Despachemos a primeira que já tem barbas aqui nas Comezinhas. Supondo um qualquer diálogo e nem sequer refiro um debate de ideias ou troca de opiniões. Basta uma qualquer troca de cumprimentos seguida de uma conversa mais ou menos inócua seja acerca do que for: meteorologia, pássaros ou cozido à portuguesa (com este calor não apetece). O que reparo é no constante atropelo do interlocutor por imposição da força do chavão, do auto-elogio ou do argumento ou retórica fácil. Não se dá chance ao outro de saber (tantas vezes de saber mais) ou de ter razão (tantas vezes todas as razões mais válidas). O que interessa é investir contra o que o outro disse ou convencê-lo. Às vezes isso é feito com justificação por se ter ouvido quanto baste durante tempo suficiente – por irritação ou reacção -, mas em muitíssimos casos não: é mera precipitação, ignorância, excesso de bazófia e falta de capacidade para ouvir. A lei da esfrega da auto-estima incentiva todos a serem afirmativos mesmo à custa da paciência alheia. Em quantas ocasiões alguns se contém ouvindo disparates ou mostras de ignorância. Por saberem que os semelhantes têm tempo de vir a compreender sem ser preciso dar-lhes lições acintosas que só demonstram falta de inteligência e necessidade de afirmação de quem perora. Por não ser exigível a todos que saibam tudo quanto sabemos e valorizem tudo quanto valorizamos no mesmo momento na vida. Mas há quem nunca condescenda (normalmente quem tem menos de humanamente valioso a dar aos outros), apesar de exigir a todos que oiçam e respeitem a sua opinião ou decisão como a mais avisada. Pequenos ditadores ditos muito democratas que se impõem pela lei do mais forte na retórica e na acção. Pequenos ditadores com audiência sempre prontos a dar lições, tomando-se por exemplo de conduta, procurando uma vitória a todo custo para sustentar a turba de adeptos da sua facção.
Sim, sei, quanta vontade de me dizerem: se te olhasses ao espelho. O eterno argumento da brincadeira de criança: quem diz é quem é. Passando adiante.
Acresce ao primeiro ponto a questão da sensibilidade. Quantas vezes basta uma forma de cumprimentar ou despedir ou de responder, uma postura, um tique para percebermos que não somos respeitados. E não, não é excesso de susceptibilidade do agredido, é patente má-criação do agressor por mais que dê ar de (falsa) polidez. Em quantas ocasiões vemos o pequeno ditador dissimulado a colocar-se num qualquer degrau ilegítimo porque se auto-investe de uma qualidade ou virtude - chegando ao cúmulo de nos atirar à cara esse suposto degrau em que se auto-promove nos casos de maior falta de inteligência e canalhice invocando lérias como a que ascendeu a custo ou nasceu educado ou trabalhou mais do que os outros ou se preparou melhor - e esta ideia custa a engolir a muitos que não compreendem a diferença entre ter valor e exibir e vender fácil a aparência dele, custa a entender a muitos que desprezam a verdadeira sobriedade. Estão habituados ao sucesso num tempo em que se vende muito ou dá muita audiência ao pechisbeque alçado artificialmente a produto de rigor e seriedade. Enfim, campeões em demonstrações de pobreza de espírito que só envergonham os seus autores apesar da ideia ser impressionar e ofender os outros. Quanta pequenez revelam.
Mas saindo dos casos perdidos, há nuances entre gente que só por falta de educação, e não falha de carácter como a do exemplo acima, desrespeita os outros sem grande intenção. Todos nós carregamos quer uma carga de códigos de cortesia quer manias de mera etiqueta que não são coincidentes por termos educações e percursos de vida e sensibilidades diferentes. Há expressões que são muito ofensivas para uns e não têm carga pejorativa para outros. Por outro lado, há quem em quase tudo na vida valorize a moldura e não o quadro. Ser educado não é mimetizar o comportamento de uma elite que materializa um rol invejado de pergaminhos ou ser sensível a tudo quanto nos magoou ou orgulhou durante o percurso. Há gente educada em todos os escalões sociais e nas mais variadas experiências de vida, desde as mais dóceis às mais agrestes. Há verdadeiros labregos entre aristocratas e príncipes entre gente de origem humilde. Há senhores cuja educação esmerada e privilegiada ensinou a respeitar todos. E gente de origens modestas muito rude. Há gente que passou as passas do Algarve e se manteve delicada e honesta. Há gente com vidas mais fáceis bastante agressiva ou oportunista. A educação vem da própria índole e do modo de trato aprendido no seio familiar e não dos recursos financeiros ou da formação académica e intelectual de cada um ou do grau de dificuldade da vida.
E há gente que sabe observar e respeitar o outro pelo que verdadeiramente é e não pela aparência e valia como moeda de troca ou vantagem a extorquir. Pode parecer uma visão maniqueísta e é claro que há zonas cinzentas, mas quando me refiro aos tesouros e ao lixo que fui encontrando ao longo da vida, é a isto que me refiro: aos tesouros humanos que encontrei a respeitar os semelhantes e ao lixo que vê os demais como moeda de troca ou vantagem a extorquir.
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- Moralidades à quinta-feira, de8 de Junho 2023;
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