Há 17 anos a mulher de um bloguer, no meio de uma convulsão política que prejudicaria muito a vida de gente que apenas dizia o que pensava em ambiente hostil e que não constará dos anais da História feita pelos iluminados, disse-te ficar surpreendida por andares nestas vidas sozinha. Vejo-a sempre só, não sei como consegue. Lembras-te muitas vezes destas palavras. Nalgumas ocasiões pensas que gostavas de a reencontrar só para dizer que sobreviveste e sobreviverás, e que não estás só. O Nuno é um apoio fundamental. E para dizer a verdade, para lá deste factor importante, nunca estás só. Só a viste uma vez, mas ficaste a admirá-la pela serenidade e sabes que compreenderia estas palavras.
Vem isto a propósito das convulsões no país e no mundo, de toda insalubridade e insanidade do espaço público e das amigas e prudentes recomendações para te protegeres e não chocares de frente, que sempre agradeces. Já caíste bem no fundo do poço (imagem simplória e pouco atraente aos olhos dos arautos da sabedoria) e de lá saíste lentamente. Desta vez, terás mais cuidado.
E acabando de ler os parágrafos anteriores, o que te saltou à mente? A pergunta: mas quem raio julgas que és? A questão é exactamente essa: qualquer um, qualquer anónimo como tu tem o direito a zangar-se com as podridões do mundo em que vive. Não sintas que te estás a pôr em bicos de pés como tanto criticas nem temas ser injusta. Não tens as costas quentes ou vá, todos as teremos de alguma forma, mas vais indo pelo próprio pé, o que neste país se estranha e confunde com solidão ou mesmo desajuste.