

Fiz uma proposta indecente ao Nuno. À passagem na Feira, trouxe um saquito de churros (curioso, o dicionário da SapoBlogs conhece charros, mas não churros; será uma questão de público-alvo?), e propus que fosse o nosso jantar. Estranhou, achando que ia passar fome, mas não lhe dei hipótese de apresentar reclamação ao serviço de catering de Serpa Pinto. Diz ele no fim: sinto-me a concretizar um sonho de miúdo, uma aspiração de quando tinha cinco anos.
Pois, vem com atraso, agora que estamos velhos. Mas porque não jantar guloseimas de feira uma vez na vida? Afinal quando chegamos a semi-usados, semi-velhos temos direito a fazer palermices sem nos preocuparmos se está certo ou errado. A idade é um posto, ou não é? Da minha parte, venham os 50. Os 40 foram muito melhores que os 30 e tenho um feeling que os 50 serão melhores que os 40. E por aí adiante. A este propósito não me posso esquecer de um dia trazer a fotografia do quadro que estava no cimo das escadas em casa dos meus avós paternos. É deliciosamente tenebroso: a ascensão e declínio no ciclo da vida.
Aqui para nós não aconselho jantar churros: após ingestão os níveis de glicose e de figadeira são denunciados por calores intensos, seguidos de enjoo de uma horita, mas tudo volta ao normal.
E são estes os momentos radicais na meia-idade.
Qualquer dia experimentamos andar de balão de ar quente. Esse ícone de Júlio Verne transformado em elevador de rotina nas paisagens bonitas para consumo de turista brega – primeiro estranhei a ideia, mas depois pensámos: hum, lá íamos perder a oportunidade de assumir por inteiro que somos parolos. Um dia, um dia chegará a nossa vez. Depois também trago fotografias, prometo. Bom, prometo se chegarmos a concretizar, que isto são aspirações à la longue. Qual fotografia? Selfie, isso sim. Somos parolos integrais e não faz de conta, com direito a churros, selfies e estrangeirismos fora de moda. Só pecados mortais a deixar aflita a turba da normatividade instruída – será que está expressão também pega? Busca, busca.