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25/06/2023

Diário

Como testemunhar os dias banais de uma qualquer semana dos anos 20 do século XXI na segunda cidade de um país do sul da Europa? Podia tocar os aspectos tidos como sinais do tempo. Talvez falasse de modo detalhado das responsabilidades profissionais de uma qualquer função dita moderna desempenhada em teletrabalho. Ou perorasse sobre a decadência do mundo que conhecemos culpando uma facção política ou ideológica. Ou caísse na tentação de empolar um qualquer acontecimento apelando à emoção ou à controvérsia para criar comoção e com ela maior audiência.


Pois, tentarei não fazer nada disto. Ao menos tento. No dia em que o Grupo Wagner, liderado por Prigozhin - a quem há apenas duas referências aqui nas Comezinhas em Fevereiro e Maio últimos a propósito da futura desagregação russa (já antecipada, nomeadamente em Abril) -, ensaiou uma rebelião armada com vista a tomar lugar no Ministério da Defesa, fazendo tremer o poder de Putin com a tomada de três cidades russas e a formação de uma coluna (para)militar (de mercenários) para avançar na direcção de Moscovo, ao que parece decidindo pelo recuo após acordo com o Kremlin, neste dia, dizia, vou apenas fazer um diário de trivialidades pessoais.  Volto a mim enquanto os orientadores das grandes audiências decidem quem saiu mais fragilizado deste capítulo da insurreição, visto e comentado nos jornais e redes sociais (onde incluo os blogues) como se tratasse de um episódio da Netflix. Pode parecer narcisismo o foco no discurso do umbigo, mas antes no discurso do que nas acções. É preferível falar muito de si próprio e ter disponibilidade para os outros a expurgar da retórica a primeira pessoa do singular ainda que toda a acção seja bem egoísta, interesseira ou mesmo prejudicial ao outro.


Por mais ladainhas haja sobre a demência das vidas digitais, a verdade é que parte substancial do quotidiano actual passa pelo digital, pelos telefones e computadores. Então vamos a isso. Consultando os registos pessoais, que vejo eu? No dia 19 trocas de mensagens com os meus pais, um dos meus irmãos e a minha enteada. Ecos de uma chamada para a Austrália e das normais novidades de quem está longe. Várias chamadas com o Nuno (sim, somos daqueles casais cola que passam o dia a ligar um ao outro). Um telefonema para uma amiga, com que tomei um cafezito na semana passada, para dar conta da possibilidade de uma oferta de emprego. Recepção (ai esta palavra e os frenicoques preconceituosos dos obtusos convencidos da sua enorme inteligência) de mensagem de primo do Nuno. No dia 20 troca de mensagens com outra amiga que propôs programa para as férias. A habitual chamada com a mãe (em todas elas além das trivialidades discutimos a actualidade e as leituras de cada uma). Chamada com primo para trocar informação sobre fim do ano lectivo e planos de cada um para as férias. Chamada com irmão e com pai no Algarve. Várias chamadas com o Nuno. No dia 21 telefonemas com Nuno, mãe e outro irmão. Troca de mensagens com amiga do Nuno sobre possibilidade de oferta de emprego. Recepção de mensagens de amigo com uma conversa OpenAI sobre o valor da vida humana, sistemas de saúde e modelos políticos que façam depender o auxílio médico da capacidade económica do doente. No dia 22 apenas telefonemas com Nuno. Dia 23 chamadas com Nuno, pai e mãe. Dia 24 chamada com mãe, telefonema de parabéns a cunhada, chamada com amiga do Nuno, que passou a tarde connosco. A vida pessoal é banal, tão só isso mesmo, e não um aglomerado de contactos com uma rede numerosa de meros conhecidos que interessam em determinado momento. O bom de não ter favores a trocar é que não sofro do mal de passar o tempo com assédio de gente interesseira nem de uma vida oca, nem chamo amigos aos elementos dessa rede.


Aquém da vida digital decorreu a física. Destaco dois momentos. O primeiro relativo ao jantar antecipado de São João que apesar de exibido em fotografias aqui nas Comezinhas não teve muito de agradável. Já repararam como somos peritos em apontar defeitos à vida dos outros, às vãs exibições virtuais dos outros e, em regra, somos incapazes de assumir incongruências próprias nessa matéria? Sempre tão espertos, tão superiores a essas menoridades alheias. O tanas. Não faria mal nenhum olhar ao espelho de quando em vez. Um ruído difícil de suportar na sala de jantar na tenda à qual temos ido nos últimos anos nesta altura do ano. A má-criação de um conjunto da quatro amigos com idade para serem educados que atiraram uma cadeira perturbadora o seu espaço para a mesa contígua. Tirei a cadeira para que Nuno pudesse passar, depois do Nuno se sentar voltei a colocá-la a atravancar a nossa mesa porque seria incapaz de a atirar para cima de outra mesa, prejudicando outros. Os quatro marmanjos mantiveram-se impassíveis. Na sua perspectiva: os outros que se amanhem, seja qual seja a sua condição. Primeiro nós, os cheios de nós mesmos. E é assim: o mundo físico ou digital é desta gentalha. A funcionária trazendo a lista, insistiu que a víssemos quando prescindimos dela. Queria estar certa que os pelintras tomariam conhecimento dos preços, sabe-se lá se estaríamos preparados. Na mesa do lado uma criança de três anos competiu com o inteligente paizinho batendo com o garfo no copo - o pai batia com a faca para dar o exemplo – e estiveram nisto imenso tempo a moer o juízo do Nuno e meu e de todos os que estavam próximos. Salvava o meu campo de visão uma família composta de dois casais, com três crianças pequenas engraçadinhas. Uma família normal, bem-disposta e bem-educada. Amenizou a minha má-disposição. Melhorou quando seguimos para o sossego da Bertrand quase em hora de fecho, onde fomos mais uma vez muito bem recebidos.


No que diz respeito ao segundo momento nem sei como pôr em pé o que posso dizer. Digamos que face a uma informação nova pus a hipótese de mudar radicalmente uma área importante de vida. A questão não se coloca de imediato, mas haverá mudança. Ténue ou radical, haverá. A propósito levei com a enésima decepção e mais uma vez a constatação de que o egoísmo e a sacanice impera mesmo em quem gostaríamos de confiar. Nada que não soubesse desde sempre. Só a constatação uma vez mais. Se sempre defendi que não devo mudar de rumo e que é fundamental acreditar, mesmo passando por ingénua, devo agir de uma forma mais pragmática acautelando os meus interesses e sendo não direi calculista mas ao menos mais precavida. Ao longo da vida tenho-me dito isto vezes sem conta. Pena o comando central não ouvir e agir em consonância. Estou bastante farta que deturpem a verdade para enganar em proveito próprio. Estou bastante farta de fazer figura de urso e que façam de mim burra. Farta de chicos-espertos.