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20/06/2023

Recapitulando



por Isabel Paulos, em 05.06.22


 


Por vezes compro regueifa em espécie de peregrinação à infância. Hoje foi um Domingo desses, com mesa de pequeno-almoço posta. Lembrei-me por isso de fazer uma entrada para as Tílias, agora que me assalta de novo a dúvida se o grosso do teor das Comezinhas não deveria ficar reservado apenas a caderno de memórias para consumo familiar. Começa a ser tarde para voltar atrás, ainda que me falte o talento para escritora ou cronista já não há volta a dar. Mergulhei nisto a fundo. O tempo julgará o destino destas memórias.

 

Ao Domingo em Valinhas não havia pão fresco pelo que era preciso sair de carro no seu encalço. Um dos postos de venda era na Longra, e aí ainda há pouco me lembrava a minha mãe como a fornecedora colocava as roscas de regueifa no triângulo de terra na berma da estrada. Mas o que mais me lembro era do entroncamento de Mouriz, em Paredes, que dava saída para Cete e Paço de Sousa, onde estacionavam vários autocarros e camionetas que percorriam a estrada nacional Porto-Vila Real, tão regularmente por nós batida entre Porto e Felgueiras. Recorda o meu pai como desses autocarros depois de auscultados todos os passageiros, saía o revisor pronto a comprar por encomenda oito ou dez roscas deste pão de romaria, no buraco das quais enfiava os braços para poder transportar todas até as entregar aos consumidores finais. Eram um primor a asseio os tempos antigos.

 

No trajecto de carro nessa zona outra coqueluche para mim e os meus irmãos era a Casa do Zé do Telhado. Costumávamos fazer as viagens a zombar no mau gosto das fachadas das casas ao longo da estrada. Aquela era diferente. Com pena não faço ideia da razão do nome por que era conhecida. Será que o famoso salteador, originário dali bem perto, pernoitara na casa? Fiquei por saber. Do meu conhecimento era propriedade de quem sempre ouvi chamar tio X.P.B. e gostava dela como de poucas, por ter traves de madeira na fachada ao gosto da arquitectura nórdica. Completamente desfasada de tudo mais nas redondezas.

 

E como as memórias são com as cerejas, ao lembrar daquele lanço de estrada e da propriedade do tio X.P.B associo sempre a história do Marquês de L., que me divertiu desde cedo. Trata-se de um senhor muito apreciado por todos e o episódio que agora conto em nada retira a estima que lhe é devida. Contaram-me em pequena - e sabe-se lá se seria verdade, estas histórias correm entre famílias e têm sempre um misto de verdade com acrescentos vários - que este senhor muito desejoso de um título nobiliárquico, escreveu a um membro da Casa de Orléans, subscrevendo-se como Marquês de L. Um apelido aliás de origem alemã, o que rebusca mais a história. Na volta do correio o ilustre aristocrata francês dirigiu a missiva naturalmente ao Marquês de L., e assim o dito passou a intitular-se doravante, munido de prova irrefutável da legitimidade do título com que se auto-investiu.

 


Da mesma saga existem os seguintes postais:


 


Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima


Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos


Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade


Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil


Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade


Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001


Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch


Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas


Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos


Fragmento 10. Tílias - Avó


Fragmento 11. Tílias - Virinha


Fragmento 12. Tílias - Sonhos


Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância


Fragmento 14 - Tílias - Café


Fragmento 15 - Tílias - Cozinhotes


Fragmento 16 - Tílias - Anciãos


Fragmento 17 - Tílias - Avó Rosa