![]()
![]()
Muito obrigada a todos os que vieram por bem.
Fiquem bem.![]()
Cheguei à SapoBlogs de mãos vazias, parto de mãos vazias.
![]()
![]()
Muito obrigada a todos os que vieram por bem.
Fiquem bem.![]()
Cheguei à SapoBlogs de mãos vazias, parto de mãos vazias.
Outubro
Amanhã fará um mês sobre o dia em que casámos. É o pretexto certo para escrever umas notas acerca do evento. Como aqui havia contado convidámos a T. e o C. para testemunhas pela minha parte e a F. e a minha enteada pelo Nuno. A K. não conseguiu as trocas de turnos no hospital pelo que não veio – neste fim-de-semana anda sozinha por Viena como convém a uma rapariga de 24 anos. Ao que contou ontem enfiou-se de penetra num grupo de turistas espanhóis para usufruir das explicações do guia; coisa muito portuguesa. Amanhã segue para Praga.
De modo que no dia 15 de Setembro uns minutos antes das 11h00 o Nuno e eu estávamos na Conservatória da Rua Gonçalo Cristóvão. Olhei para a sala, vi o computador e resolvi que nos sentaríamos em frente ao dito – afinal assim se faz nos serviços de atendimento ao público. Chegaram as testemunhas, conversa para aqui e acolá, apresentação da F. à T. e ao C., e logo ali o desajuste de formas de ver o mundo. A F. fortemente impregnada de religiosidade, os meus amigos muitíssimo liberais nos costumes. Entendi que tudo ia correr bem ao ver o C. desarmar a F. e ela alinhar com bom humor habitual.
Chega a conservadora, olho e percebo que a conheço. Fico a pensar: será da Católica ou das temporadas em Vila do Conde? É de algures. Não valorizo. Sentamos e começa a saga da tolice. Chama pelos nomes os noivos e olha para mim e a T. já que éramos quem se apresentava ao centro estando o Nuno por minha causa sentado no lugar de testemunha. O facto de ser extraordinariamente distraída não ajuda e menos ainda o Nuno estar cego, já que seria o único presente com juízo e capaz de pôr ordem à casa. Há risos com a confusão, aproveito para brincar e pergunto à T. se quer casar comigo enquanto o noivo vai tentando manter a compostura dizendo à conservadora que é ele o Nuno. Começa o acto formal com a explicação da lei – diz o C. cá fora: estavas com aquele ar de conheço isso de cor e salteado, estás a ensinar o Pai Nosso ao vigário. A M. – irmã do A. C., como quem estive em várias ocasiões não tira os olhos de mim com um sorriso, creio que fica a pensar que devia dizer que me conhece, mas como continuo a não lembrar de onde, não nos descosemos. Só ao final do dia liguei à minha mãe e disse o nome, que de imediato a identificou. O C. já cá fora faz reparos ao macacão comprado em loja da Foz e sapatilhas do Lidl – conheço o C. há décadas suficientes para conhecer a má-língua. Não é que reparasse mas intuo pela mancha que a M. está impecavelmente vestida e calçada para quem está a trabalhar. Chega a parte dos impedimentos e explica sorridente que precisa saber se algum de nós está casado com outra pessoa, sugerindo por exemplo um casamento em Las Vegas. O Nuno recorda que conhece bem Las Vegas. Conto-lhe que o Nuno esteve lá meia-dúzia de vezes e eu apenas uma, porém não me lembro de ter casado por lá. O C. completa: o que no caso da Isabel não quer dizer nada. Galhofamos os cinco bem-dispostos. Um pouco mais adiante a M. enquanto faz a leitura da lei tem um ataque de riso sozinha. Julgo que tudo aquilo é insólito para uma conservadora cuja educação é ultra-tradicional. Até que é dado o momento dos sins. No exacto instante em que o Nuno ensaia a resposta o despertador do telemóvel do C. toca. Disfarça o indisfarçável dizendo que se esqueceu de desligar. Obviamente não ia perder a oportunidade de marcar o casamento com as suas partidas. No fim a mestre-de-cerimónias pergunta se queremos assinar já que há gente que gosta desse momento para a fotografia. Fico a saber que agora até essa formalidade é prescindível. Radiante digo que é óptimo casar sem assinar, quanto menos frosquices melhor. Sei bem que pode parecer alarve dessacralizar estes actos formais abandalhando-os, mas aprecio a leveza e descontracção. Recordo os dois casamentos em que fui testemunha, um deles o da T., e a rigidez de um dos outros conservadores que presidiram a esses registos; fico contente por me ter calhado a espantada mas cooperante M., que fez estágio de advocacia com o tio M. C.R., amigo de infância e de uma vida da minha mãe, entretanto já desaparecido. Além de ser irmã do A. C., grande amigo dos meus primos, com quem passei alguns Verões de praia em Vila do Conde – outras vidas do passado, cada dia mais longe da minha. O Porto é uma aldeia.
Seguimos a pé para o Portucale que já foi um dos melhores restaurantes do Porto e hoje está decadente - por isso mesmo o escolhi. Era o que me faltava marcar o dia num poiso da moda. Primeiro fomos ao paupérrimo bar, cujo sofá maior tem uma coberta de pano tosco a tapar o estofo de couro roto – pormenor que me deixa deliciada. Não havia sequer café, bebemos apenas água. Entrosamos, a F. fica admirada com o que digo acerca da T., o C. explica que dizemos as últimas uns aos outros porque nos conhecemos há mais de 35 anos e somos bem capazes de nos enxovalharmos a nós próprios sem precisar de ajuda de terceiros. Adianta que somos estrambólicos – palavra minha, a dele não recordo qual foi - e define-me como excêntrica. Ideia que me fica a martelar: sempre os tive por excêntricos, mas não a mim; achava-me a enfadonha tontinha do grupo. Manias minhas. Fala-se de outros tempos, o que marca as várias gerações e as loucuras de cada uma delas. Tento introduzir a astrologia e o efeito de Úrano e Plutão na nossa geração. O C., que aprendeu a ler Tarot com a mais célebre taróloga portuguesa (será daí que lhe vem o sucesso empresarial por esse mundo fora?), ri-se e diz: é sempre engraçado, olha-se para ti, pensa-se que vais dissertar sobre astronomia e sais-te com astrologia. Justifico afirmando que sou básica e deixo os assuntos sérios para o Nuno, ele é que tenta compreender a ciência.
Subimos ao último piso para a fabulosa vista panorâmica da cidade. O C. começa com as recordações perante o olhar surpreso da F.. Lembra um jantar memorável com a M. e quatro drag queens. A M. já morreu e nos meus 19 anos era uma referência da vida que idealizava; já explico a seguir. A propósito das amigas do C. recordámos também a sócia C. e da Figueira da Foz e de Luanda; a C. também já morreu. Ainda somos novos e alguns já desapareceram. Penso sempre na minha sorte em ter vindo a ser poupada a grandes desgostos com os mais próximos, ao contrário do C. e da T.. Mas voltando às loucuras, recordaram-se tempos de saídas nocturnas da nossa juventude e bem conheço o impacto que as drag queens podem provocar em gente mais alinhada. O C. recorda as expressões e trocas de olhares dos empregados e dos comensais de outras mesas nesses velhos tempos em que não estava na moda nem era recomendável ser homossexual. Como prometido a explicação sobre a M., prima de um meu namorado de então: pouco convivi com ela, mas recordo que tinha 30 e poucos anos e era já uma arqueóloga divorciada quando eu andaria nos 19 e 20 anos e invejava a sua vida solitária num apartamento onde se destacavam aos meus olhos o sofá e estante de livros. Em miúda era aquela vida que desejava para mim: não casar, mas viver assim, sozinha, por minha conta e risco - demorei uma eternidade a conquistar essa meta. Diz o C.: pois, o teu sonho até ao momento em que substituíste a estante pelo Nuno. Exacto, penso. As minhas duas principais fontes de alento, alegria e conhecimento.
De entrada vieiras recheadas de camarão e gratinadas, de resto já nem me lembro, sei que para mim escolhi peixe, mas não sei qual e não recordo do cardápio dos restantes quatro, sei que de sobremesa voltei a insistir no semi-frio de frutos vermelhos – devia ter escrito nos dias seguintes este relato e saber os nomes sofisticados que sempre esqueço. Mas recordo que ia escolher um vinho banal, tendo o C. intervindo com autorização do Nuno e mandado vir o champanhe à sua conta, disse. É evidente que tive o cuidado de me levantar oportunamente e pagar a conta integral, encarecida com as manias da grandeza do C..
Falou-se da vida em Angola, terra que diz muito à F. que lá viveu uns bons anos com o segundo marido e filhos, assim com ao C. que lá nasceu, viveu a infância e regressou em adulto para trabalhar e empreender, e a mim pelos motivos que se conhecem. A T. e a F. nasceram em Moçambique, o C. e eu em Angola, o Nuno foi o único a nascer na metrópole (diverte-me escrever isto), nem mais nem menos do que em Ourique, o que faz a minha mãe nutrir orgulho patriótico pelo genro. Ainda tem outra bênção sob o ponto de vista da minha mãe e meu: teve em Angola o seu paraíso na Terra, a sua grande experiência profissional e encontro consigo mesmo. Falou-se dos portugueses de segunda e de preconceitos. E das vidas dos portugueses por cá e pelo mundo.
A F. esteve atenta em permanência ao N., a defendê-lo com um sentido maternal a toda a prova. Gosto imenso desta amizade do Nuno com mais de mais de 20 anos e reconheço a dedicação e lealdade que a F. sempre demonstrou em relação ao amigo. Torço para que ela e o filho mais velho (filho de muçulmano) com quem vive possam vir a ter uma vida tranquila cá em Gaia, face às muitas dificuldades que foram tendo.
Bem sei que não é chique, mas contaram-se anedotas. Civilizadas são as histórias e os subentendidos. Mas o C. e a T. puseram a F. a par das duas anedotas mais cruas que marcaram a nossa adolescência. Aquela em que Deus se nega a voltar a fazer-se representar no planeta Terra face à constatação de há 2000 anos cá ter vindo, feito um filho a uma terráquea e ainda hoje se falar nisso e aquela de alguém perguntar a outrem se prefere festas ou sexo e esta última responder: naturalmente sexo, afinal sempre se conhece mais gente. A F. pôde ficar ciente de quem eram os dois grandes amigos e a mulher do Nuno.
Quero ver se nos reunimos os cinco mais vezes por ter sido um dia à minha medida e creio não estar a mentir se disser que o Nuno estava feliz com a leveza e alegria dos nossos amigos. Estávamos os que devíamos estar nem mais nem menos. Não terá sido um casamento convencional, como se imaginaria quando nasci - novinha, numa quinta e casa antiga, talvez Valinhas, com muita gente e burburinho - todavia correu tudo de um modo feliz e à minha imagem. Adorei. Suponho que seja o mais importante. Agora posso ganhar balanço para daqui a uns tempos reunir amigos (mais alguns) e família sem os constrangimentos que sempre coloquei por ter vivido em mundos de gente tão díspar entre si. Na reunião da diferença é que está a conquista, a grande felicidade.
Ao fim da tarde seguimos para Esposende, um dos nossos poisos de férias. Lá passámos o fim-de-semana. Não estivesse certa de não ter contado para onde iríamos e diria que tivemos direito a antigas partidas aos noivos próprias dos casamentos tradicionais. Porta do quarto aberta à chegada, trocas de menus, lençóis traçados, essas coisas. O que me deu para fazer perrice deitada no chão à moda das crianças. Nada que o Nuno não resolvesse com sabedoria e calma olímpicas.
Regressada a casa na tarde de Domingo pus a roupa usada nesses dias na máquina de lavar. Sucede que no Sábado de manhã tinha envergado um vestido verde garrafa (um dos três comprado em Maio na Natura). Vesti-o apenas ao pequeno-almoço e num passeio pela marginal de Esposende até porque se abateu sobre nós uma tromba de água que nos fez encharcados e lestos a reentrar no hotel - dia seguinte a boda molhado, boda abençoada. Não li a etiqueta e tingiu a roupa quase toda, salvando-se apenas as fibras sintécticas. No dia seguinte ao almoço a dona L. tirava as peças do estendal e ia dizendo: até ficou bem bonito. Não comungando do mesmo optimismo em relação ao geral, tive de concordar com a sua opinião acerca da lingerie. É verdade: o conjunto cor-de-rosa clarinho passou a um verde cueca irrepreensível. Muito do género do azul claro de que gosto muito. Não há nada como ver o lado luminoso da vida e ter perto gente que dá bom tempo.
Bem sei que podia embelezar. Mais, ficcionar. Afinal havia declarado esse caminho. Mas não há o que fazer: foge-me sempre o pé para a realidade nua e crua por mais que em algumas ocasiões possa parecer mentira. Não preciso inventar. Só de alguma lata.
Seguiu-se a deslumbrante Mesquita Azul de seis minaretes – o número de torres de uma mesquita é proporcional à sua importância - onde pude regalar os olhos com toda a beleza característica do Próximo Oriente. Antes de entrarmos, enquanto aguardávamos a reabertura, tive oportunidade de assistir às abluções dos muçulmanos: vi-os descalçar e lavar de pés, braços, mãos e rosto antes da oração, não na fonte central – com certeza distraí-me-, mas junto à parede lateral. O interior – contra a informação que ouvi – é de cortar a respiração, atenta a beleza e luminosidade do jogo arquitectónico das paredes, colunas e várias abóbadas ornamentadas com deslumbrante desenho de azulejos Iznik. Não tenho memória de ter visto edifícios de tamanha inspiração no belo. Entrando descalça, conforme as regras, usei nas duas mesquitas a bonita echarpe - que a minha mãe usa de modo corrente em dias de Verão -, de tecido branco e fino bordada à máquina a pequenos corações azuis. Condizente.
Abandonámos a moderna decoração do quarto do hotel de Ancara com o propósito de visitar o mausoléu erguido em honra de Mustafa Kemal Atatürk, líder do movimento nacional de resistência contra a ocupação das forças Aliadas – resultante da participação e derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial ao lado dos alemães. Fundador da República Turca - a celebrar agora cem anos -, promoveu durante a presidência reformas no sentido de ocidentalizar, democratizar e secularizar o país. Pelo que se conta como figura militar destacada dada bravura na Batalha de Galípoli e pela revolução que ajudou levar a cabo merece que lhe dedique algum tempo em leituras, mas na reforma - o que vou aprender e gozar durante a reforma que tanto anseio e idealizo não se imagina (livra-te de morrer cedo, rapariga; "ouvistes?", livra-te).
De lá continuámos caminho para sudeste rumo à região turística da Capadócia. [...]
Atravessámos os Vales de Avcilar e Uçihsar. À passagem muitas graças se disseram a pretexto de adivinhar formas e figuras nas estranhas formações rochosas. Parámos no Vale da Imaginação – Vale Devrent – que é de facto belo e bizarro, óptimo cenário para as fotografias da praxe com o “camelo de pedra” a fazer de fundo. De lá trouxe duas xícaras de café: uma preta, outra vermelha, profusamente decoradas a genuíno e típico desenho turístico (sim, não perceberam mal: é piada). Fazem parte dos pares de xícaras que fui trazendo de algumas viagens como as de Barcelona e Veneza. Lá me ia esquecer de trazer o Galo de Barcelos dos lugares por onde passo. Prezo-me de ser uma turista bem parola.
Na terça-feira acordei às sete e ao abrir a janela vi a paisagem feita de colinas arenosas castanho mel mescladas por pincel divino a manchas de verde e pedra. Cobertas pelo céu a espreguiçar cinzas azul-rosados e a segurar por fios imaginários dezenas de balões de ar quente. Imagem espectacular de surpresa nessa bela manhã.
Após o pequeno-almoço fomos para o ex-líbris do circuito da Turquia: o Museu ao Ar Livre de Göreme, património da Unesco. Conjunto de igrejas que se crê terem sido criadas por sacerdotes que começaram a chegar à região no século III, aproveitando as cavernas para fazer o centro de actividade cristã - terá sido refúgio dos primeiros cristãos e atingido o apogeu de vida monástica entre os séculos IV e XIII. O guia debruçou-se demoradamente sobre a icnografia do local. Nas capelas e igrejas há pinturas feitas directamente nas paredes e tectos ou no gesso que os reveste. Atentas as filas visitámos apenas duas, incluindo a Tokali Kilise. Como somos estranhos, rezámos em vez de aprender o que era suposto sobre a representação visual das passagens bíblicas, a forma de fazer chegar a mensagem religiosa às populações - um pouco de história religiosa através da leitura e interpretação, as quais se aprende a cada viagem, a cada destino, possuírem importantes nuances, atentas as diferentes perspectivas culturais de cada local, de cada tempo. Para dentro e à cautela disse as únicas três orações universais que sei dirigidas ao Criador, sua famelga e acólitos. Convenhamos, se hoje aquele clã fosse apanhado por uma assistente social zelosa, seria considerado família disfuncional. Por sorte ou azar as assistentes sociais não pontuavam à época. Se me esforçasse muito poderia rezar o Credo e a oração da confissão, cujo nome esqueci. Afinal também são preces universais. E para dizer a verdade no Sábado anterior havia rezado as mesmas três orações nas mesquitas em Istambul. Não sei se despertei sem querer alguma guerra no céu. Já sabem que sou desastrada: a culpa é sempre minha. [...]
À hora da Cinderela vieram buscar-nos ao hotel e numa hora e picos alcançámos o pequeno aeroporto de Kayseri conduzidos por um turco que quase não falava inglês. Entre as poucas palavras disse: sorry, Cristiano Ronaldo e Quaresma. Repetiu diversas vezes o nome do último. Obviamente, meteu-me no coração. Bem tentei falar da passagem do jogador pela Turquia, mas ele não entendia nada. O Nuno chamou-me a atenção para o facto de o sentir envergonhado por isso. Ficámos em silêncio depois de lhe ter demonstrado que estava tudo bem se não falássemos. Passou uns largos minutos agarrado ao telemóvel que me entregou na mão aberto no tradutor do Google. Havia escrito um longo texto em turco que traduzido para português resultava numa bonita e delicada mensagem a demonstrar admiração pela nossa família, pelo meu cuidado com o Nuno, a agradecer a visita à Turquia, a sugerir gorjeta – os turcos são mais parecidos com os angolanos do que com os portugueses, não dissimulam estas coisas -, despedindo-se com beijos e mais palavras bonitas. Respondi com um elogio à delicadeza dos turcos e à forma como fomos bem recebidos, desejei do coração as maiores felicidades para si, a família e amigos. Passei a gasosa ao Nuno, que a entregou. Na mensagem despedi-me também com um beijo e fiquei a matutar se seria habitual na Turquia. Vi que sim entre homens, não cheguei a perceber se o era entre homens e mulheres. Mais tarde investigarei – não há nada como ser ignorante, temos sempre o mundo à nossa espera. Extra troca de mensagens as despedidas foram dentro do aeroporto com o franco aperto de mão depois do nosso amigo se ter certificado que as malas estavam na primeira passadeira de revista e os funcionários do aeroporto instruídos a tratarem-nos bem - não é preciso saber turco para compreender.
Novembro
Um bom quinhão da arte de viver está no saber ignorar ou peneirar doutos conselhos e palpites. Em muitos casos quem se convence tudo poder ensinar dando-se como exemplo está apenas a argumentar, a persuadir para a compra de produto, a replicar modelos ou o que ouviu dizer não sabendo do conhecimento acumulado ou estranhando talentos alheios por mero preconceito - achando que já viu tudo por leviana avaliação da superfície e por adesão e comparação ao que é dado no círculo íntimo ou no meio pseudo-ilustrado.
Aprender fazendo o caminho pelo próprio pé sem recurso a atalhos, apesar das dificuldades, deficiências e erros, tem a vantagem da independência e da segurança trazidas pelo próprio valor - sem ceder à sedução das audiências e vendas. Mérito distinto do sucesso que advém da colagem ao que é dado, quer aos lugares-comuns quer às contra-correntes de elite - disseminados como verdades do tempo - e do que resulta do elogio fácil e das palmadinhas nas costas de circunstância quando se cumprem os critérios das redes de relações interesseiras.
Porquê isto? Para o caso de vir a ser lida por outros distraídos em perigo de se perderem no caminho atordoados pelos conselhos e críticas levianos de umbigos cheios de prosápia javarda e mesquinhez que sabem bastante menos do que os ditos distraídos a quem tentam ensaboar - termo exacto neste contexto já que tem duplo sentido figurado: repreender ou bajular.
Agora que desafoguei das tarefas das quais estava incumbida sempre haverá vinte minutos à hora de almoço para um intervalo de escrita. Em que pensei esta manhã? Na forma como se deve aceitar a diferença, mas numa perspectiva menos política e mais espiritual, digamos assim. Compreender que cada um está num estágio de percurso diferente e que independentemente da idade, condição social, saúde, ou outros factores de natureza determinante para a vida, o nosso momento dificilmente coincide com o dos outros. Através da compreensão ou do amor (em sentido lato) podemos atenuar essas diferenças geradoras de desentendimentos graves e desencontros que parecem irremediáveis. Mas será mais inteligente que essa dádiva seja criteriosa. Acerto em explicar sem presunção aos que me são queridos as razões porque não devem ofender. Mas para quê perder tempo com os restantes? A vida fá-los-á perceber que não vale tudo e pagarão caro as injurias. Ou não - a administração dessa Justiça não me compete. Logo se verá.
Estas afirmações soam a moralidade. É assumida. Todos os dias nas televisões, nos jornais, redes sociais e blogues, conversas pessoais e profissionais são feitos julgamentos morais sem que os autores tenham consciência deles. Uns dizem estar a informar, outros a constatar factos ou a ironizar. Ou tão simplesmente a trabalhar ou a distrair-se. Parte substancial da expressão e comunicação humana é moral. A falta de assunção deste pendor moralista mais acentuado no homem moderno deve-se à má reputação da moral, mas não é por isso que ela deixa de ser exactamente o que é: um aglomerado de convicções, costumes e regras que enformam o indivíduo ou a sociedade e nos quais assentam os juízos de valor que profere.
De resto passaram-me pela cabeça os anos luz que me separam de quem aprecia a opulência e a ostentação e como será difícil conseguir estabelecer um diálogo saudável com quem venera o fausto e o confunde com cultura ou civilização. Assim como me será penoso lidar com gente devota do glamour e das palavras agradáveis ocas. Será tudo uma questão de gosto, mas na base deste está também o carácter e, claro, o estágio do percurso de vida e ambição de cada um. Tal como me custa notar a exibição de espírito de sacrifício no trato com os outros: aquela sobranceria subtil de fazer o favor de ouvir o outro, de lhe prestar atenção, até auxílio, exaltando o papel do autor de tão boas acções, o seu bom carácter e abnegação. Fazer notar sub-repticiamente que se faz o bem por obrigação penosa, sacrificada, quando tantas vezes o mais beneficiado da relação de “atenção” ou “ajuda” é quem se gaba de ser tolerante, de saber ouvir, de elogiar, dar alento, prestar auxílio. Enfim, subtilezas da natureza humana e da forma como se incham egos, engrandecem e enriquecem vidas à custa de outrem. Tudo tão longe do imenso prazer e felicidade que é dar sem esperar receber em troca e do mundo de alegria que nos chega quando sem saber o fazemos. Tão longe da sobriedade que jamais pode ser aparente ou fabricada para o efeito de causar boa imagem.
Dezembro
Nós, os ignorantes das conversas de café,* estamos habituados a ser desconsiderados pelos senhores das teses e conclusões das ciências e os senhores dos factos. Cientistas ou investigadores das ciências sociais e económicas da banda da “ciência”, jornalistas e juristas do lado dos “factos”. Estamos habituados a apanhar na tromba e vamos continuar a perorar contra a vontade da vossa superior sapiência, sabendo que não temos audiência nem vendemos. Estamos no nosso elemento - o da ignorância - só para vos dar palco.
Covinha averiguar a orientação ideológica das teses sociais e económicas e da argumentação dos juristas e jornalistas. Todos nos habituámos a satirizar a artimanha dos advogados ao manipular factos e provas em benefício da causa ou interesse do cliente, mas estaremos cientes do ardil ideológico na promoção e venda das ciências sociais e económicas nos jornais? Não, isto não é teoria da conspiração: é realidade comezinha das discussões no espaço público. Veja-se o exemplo abstracto, claro, da cientista social que à custa de criteriosos levantamentos estatísticos e aturada investigação e análise comparada defende energicamente a engorda a toda a brida dos serviços do Estado e respectivo 'complicómetro' de procedimentos para prover esse bem superior que é o conjunto de regalias de uma fatia da população activa votante - tratando a pátria como refinado paté de ganso. Ou a outra cientista económica que se péla por impostos sobre os rendimentos dos remediados - esses malfeitores que tem o atrevimento de não viver na miséria. Mas há também os cientistas da outra banda que partem do bom senso de considerar errado fazer julgamentos de acções do passado histórico à luz do pensamento actual para as adultíssimas teses do vale tudo até arrancar olhos desde que sejamos aparentemente civilizados - os das teses fabricadas, que a pretexto da defesa da liberdade e da maturidade não só financeira como intelectual e da apologia do mercantilismo fazem tábua rasa das distorções da justiça provocadas pela mais pura ganância e oportunismo. Como se as abstracções libertárias potenciassem um desenvolvimento económico, social e cultural efectivo e equitativo.
Mas voltemos à ciência e aos factos. Tomemos o exemplo da História e da estatística. O conhecimento da História e o relato dos factos históricos é inúmeras vezes enviesado para orientar opinião. Tal como o recurso à estatística. A meia verdade – sim, os factos em muitos casos são verdadeiros – e a selecção das verdades que interessam à tese ou ao argumento podem ser tão danosos para o conhecimento, a verdade e a sanidade das discussões no espaço público – comunicação social e redes sociais – como a ignorância da populaça ou a falsificação da História e da estatística.
O desconhecimento da História é mau, sem dúvida. Todavia a substituição da ignorância pelo excite das teses ideológicas polarizadoras é tão pueril - para usar uma imagem cara aos eruditos - e tão manhosa (mais, aliás) do que a nossa conversa de café – a nossa, da populaça. É por isso no mínimo divertido ver “estudiosos”, “investigadores”, “iluminados” convencidos da sua maturidade e seriedade intelectual – só rindo.
A intuição do bem e do mal é-nos inata. A população pode ser manipulada pelas teses e argumentos – pela razão, dizem os sábios -, mas tenderá a guiar-se pela intuição na hora do voto ou da abstenção. Claro que a intuição é incerta e pode estar inquinada – nos tempos modernos mais viciada ainda atenta a profusão de dados, de informação que jorra a todo o instante e do esgrimir de teses e argumentos de facção. Onde irá parar a intuição do bem e do mal toldada pela desinformação das elites na comunicação social e inebriada pela voragem opinativa das redes sociais? - ambas sem freio e manobradas por interesses económicos e ideológicos tantas vezes difíceis de identificar.
Não sei responder e no passado recente enganei-me a ler os sinais. Esta realidade absurda do espaço público de opinião que venho descrevendo há anos - tantas vezes dando testemunho dos efeitos na primeira pessoa, passe a redundância - já entrou num patamar de imprevisibilidade. É ainda mais grave do que temia. Via a coisa como uma tendência, mas agora confirmo como facto. A opinião é absolutamente manipulada por gente sem escrúpulos mas também, ou sobretudo, pelo puro absurdo do acaso construído ao segundo – entramos em roda livre. Resumindo: a maioria de nós não sabe o que está a dizer e quanto mais convencida da sua sapiência e erudição, pior. Bem sei que há sempre quem diga muito orgulhoso que acertou na análise e nos vaticínios. Normalmente, mentem.
Não disse nada que não seja do conhecimento de muitos. Sucede que entre os muitos que sabem isto – mais do que isto e capazes de o expressar muito melhor e de modo mais estruturado do que eu – são os mesmos cuja prática opinativa olvida tudo quanto sabe por pura preguiça de dignidade – dá muito trabalho tentar exprimir ideias correctas que procurem o bem comum, se pudermos debitar, enquanto nos espreguiçamos na vida fácil, umas “verdades parciais”, uns "elogios ou insultos semi-mentirosos”, umas "acusações injustas" que nos beneficiem ou privilegiem a nossa facção. Às vezes, está apenas em causa a arbitrária inclinação do momento ou a manifestação de um acumulado de preconceitos. São os mesmos, dizia, que elaborando uma tese em abstracto e partindo da conclusão para a premissa ao contrário do que nos ensina a verdadeira ciência, constroem narrativas pseudo-científicas para manipularem a opinião pública. Ou os que dão eco nos seus espaços mediáticos a teses sectárias para em seguida darem largas à retórica na defesa da facção que representam.
Dir-me-ão: o que há de novo? Isso sempre foi assim. É normal. Aliás, o debate é benéfico. De muitas asneiras polarizadas pode nascer a luz. O jogo de interesses ou jogo do poder está na natureza do homem. Contra estes argumentos de avozinha sábia que já desistiu há muito de tomar parte na vida mundana e tricota a camisola do neto à lareira não me apetece contra-argumentar. Se gostam de historinhas da Carochinha, das contadas em perspectiva enviusada que por mero desporto nega a verdade da versão relatada pela facção contrária - a dos ignorantes - claro que não vos vou tirar esse prazer, agora que se aproxima o espírito natalício. Paz e amor.
*Pura brincadeira com a saída de uma investigadora das ciências sociais, a quem o que mais apreciei ter dito foi: "nós, os cientistas".
Ontem na Feira de Natal de Almada.
Nuno e o primo P. ficam a averiguar características de bicicletas eléctricas. Entro no stand contíguo para apreciar artigos reciclados em madeira. Compro um mini Presépio. Quando me viro vejo o Nuno abraçado a outra mulher. É desta, penso: finalmente, trocou-me. Mas logo reparo na expressão espantada da transeunte. Rio-me, digo: desculpe, o meu marido não vê. O Nuno desfaz-se em desculpas. A senhora e as amigas riem alegres. A avaliar pelo sorriso creio que não foi de todo desagradável. Pudera, já me queria levar o Adónis.
Fico a pensar se a imagem do relógio parado valerá para os sentimentos. A reclusão fará acertar mais? Nem sei bem o que estou a dizer. Sei que há uns dias veio à cabeça uma música de Peter Gabriel, interpretada pelo próprio e Kate Bush, que saiu quando entrava na adolescência, e como a ouvia fascinada no abraço. Pensei nela e em fazer um post que descrevesse o meu eterno estado apaixonado - desde que tenho memória, desde que tenho consciência de mim. Lembro de há uns bons anos ter admitido a um amigo – amigo só amigo, como se fosse pouco – encontrar-me pela primeira vez numa fase de não estar apaixonada. Durou um par de anos e foi momento único na vida, muito estranho, quase não me reconhecendo. Sentia-me verdadeiramente esquisita: nenhum rapaz, nenhum homem a povoar os meus pensamentos/sentimentos. Coisa estranha. E não se fique a pensar que era muito namoradeira. Fui parcimoniosa de reais e muito de platonices. Aqueles anos de despaixão foram possivelmente o pousio que faltava para refazer a vida – um novo início com crença absoluta no que estava a viver. Já ouvi chamar a estes momentos de vida travessias do deserto. Da minha parte senti apenas estranheza em não me sentir eu. E quem sabe se afinal fosse um reencontro comigo própria. Não valorizo assim tanto, prefiro confiar nas palavras da minha mãe, à época ainda receosa do meu regresso ao activo, quando umas semanas após reatar com o Nuno a vi espreitar-me ao telefone e dizer que o sorriso valia tudo – referia-se ao sorriso dengoso de mulher apaixonada, depois de terem passado anos em que me via apagada - disse-me mesmo que me tinha visto perder a exuberância.
De maneira que Peter Gabriel e Kate Bush e Don’t give up dos meus treze anos ainda hão-de fazer parte de um post futuro. O que gosto de prometer não tem cabimento. Depois queixa-te que não te levam a sério, menina. Queixa-te.
Claro que isto pode ser exagerado e haverá pontualmente bons ou genuínos sentimentos no meio da falsidade, mas para quê sujeitares-te a esse calvário do oportunismo, se sabes fazer a vida pelo próprio pé? E sobretudo se cada vez mais te é indiferente a herança que deixas. Se o que sobrar for rigorosamente nada, não sofrerás com isso à hora da morte. Pelo contrário, sairás do mundo mais leve. Vês tantos trabalharem para a imagem de génio, arte e erudição, convencidos de deixarem importante legado à humanidade em gestos, estratégias e materiais de suposto grande comprometimento com o seu tempo. Não farás concorrência - nem terias capacidade para tal. Por ti passas pelo mundo apenas como testemunho vulgar - sem importância -, pasmada não de espanto, mas de cansaço com tanto génio de imitação alheio.
Não é questão de prescindir dos outros. É não os usar com oportunismo como meio de singrar. É não te sujeitares, ou pelo menos tentares não o fazer, ao habitual jogo das trocas de favor, através do qual vacuidades se transformam por artes mágicas em sumidades. Sejam trocas de favor formais ou informais. Ir passando aqui e acolá e não confundir amizade com busca de benefício calculista e egoísta. Já te enganaste? Ui, vezes sem conta. O caminho está cheio de aparências. Elas iludem e as boas palavras são cada vez mais fáceis e baratas sobretudo nestes novos mundos abertos pela internet. Cais inúmeras vezes. Nuns casos na falsa intimidade, noutros casos na falsa estima. São pecadilhos de que não te arrependes por aí além. És também feita de matéria crédula e não tens remorsos. Todos esses mundos de facilidades, que em regra se aproximam rápido e cheios de familiaridade, tu cá tu lá, ou repentina estima e consideração entusiasta, acabam por se revelar artifício, repentino e superficial interesse - às vezes prolongam-se no tempo, mas na base da manha. De qualquer modo, apesar de todos os defeitos comportam eles próprios realidade onde podes encontrar matéria de conhecimento. Não se perde tudo: entre o joio ajoeira-se trigo. E se mais não tiver importância, sempre entretêm.
Não precisamos recuar 2300 anos a Platão para a crítica da democracia directa e o apelo à existência de elites pensadoras. Nietzsche também criticava a democracia e as decisões das massas como expressão de mediocridade. Pugnava pelos tais seres excepcionais que liderassem. Hoje está outra vez em voga, o que diz muito sobre o nosso tempo. Cada vez que o vejo citado em páginas fofinho-impetuosas com frases inspiradoras da treta até tremo. Estas visões de arrasar o que existe para de dar azo a pulsões salvíficas são de uma inconsistência espantosa.
Serei naïf-enfadonha mas, seja qual for a forma de governo escolhida, ainda gosto de fios condutores, de harmonizar posições ditas antagónicas e da ideia de evolução com progressos e retrocessos. Gosto de ir a Rousseau buscar a ideia base de soberania do povo, de vontade geral ou interesse comum e de contrato social (devo ser uma perigosa e ignorante jacobina aos olhos dos "observadores"), mitigando-a com os ingleses (os “Johns” Locke e Stuart Mill ) na ideia de respeito pelas liberdades individuais (incluindo a liberdade de expressão), maioria representativa e divisão de poderes. E apesar do absurdo de compulsão opinativa em que vivemos ainda acredito com Tocqueville que a igualdade de oportunidades, o bom nível educacional transversal às várias camadas sociais e a liberdade de opinião podem potenciar a criação de um espaço onde se verifique a participação em liberdade dos cidadãos na vida pública, como propunha Hannah Arendt.
Mas esta gente sábia bem conhecia os perigos da tirania da maioria e que a igualdade pode conduzir à discriminação de quem pensa de modo diferente. Isto é, maior igualdade pode significar menor independência intelectual. Será esta a tal causa da decadência da democracia? Voltamos a estaca zero. É o que dá falar do que não se sabe, atirar meia dúzia de nomes de pensadores cuja obra não se leu, dizer três patacoadas e não se chegar a conclusão alguma. É por isso que não me gosto de meter nestas alhadas. Sinto-me sempre uma intrujona - não menos do que muitos que peroram cheios de si e de certezas.
Na manhã de ontem houve saída a dois para pequenitas compras. Mania, para quê? Se até o costumeiro cabaz voltou? Mas faltava a canela, tinha-me esquecido da canela moída e já agora dos paus - os de cá de casa estão a acabar -, e também por causa das superstições na escolha das cores do fim de ano e dos mimos para os gatos da dona L. que cá veio hoje em substituição da próxima segunda-feira para minha alegria. O pequeno-almoço foi na rua: torrada, compal de alperce e café. Na mesa ao lado uma mulher chamada Liberdade trocava fotografias nas redes sociais com a ajuda de um amigo mais novo. Facto: a Liberdade existe, vi-a, é loira da tinta, faladora, ronda os sessenta anos e discute problemas familiares em tribunal e no café - tomei pequeno-almoço na mesa ao lado. Íamos também visitar uma moradia, porém o vendedor adoeceu. Ficou sem efeito até porque vi mais fotografias na página imobiliária e reparei que o acesso ao que seria o escritório deveria ser feito por escadas de metal. Nos últimos três anos registámos uma visita anual a casas em época natalícia, o que só confirma que esta é a altura propícia aos sonhos. Ainda de manhã semeei os não te esqueças de mim turcos - as sementes de Miosótis são minúsculas e eram muito poucas, a ver vamos se nascem no vaso da erva de gato que não chegou a despontar. E passei a Oliveira para um vaso maior.
A tarde foi de telefonemas e troca de mensagens antes de um reparador sono de fim de dia. Parei o ritmo para falar com família e amigos. [...]
À noite chá preto com mel, risos soltos e muitos desaforos no meio de conversas a dois a quem já restam muito menos anos dos que já passaram – a aconselhar planos futuros na consciência de termos de valorizar o que há e pode ser transformado no melhor dos mundos de sonhos já amadurecidos. Paz com rabugice à mistura, ternura, despaciência e amor.
É a nossa vida comezinha em época festiva, em véspera de Natal.
A manhã de ontem 24 foi passada na ronha, depois de apenas quatro horas de sono não havia disponibilidade para muito. Apenas para descer à padaria onde comprei uma espécie de Bolo Rainha.
Por volta do meio-dia agarrei nos sacos com as lembranças de Natal e fui de Uber a casa da minha mãe precavendo a saída à noite para o jantar mais liberta de carregos. Preguiçosa e desnaturada limitei-me a ver a minha mãe tratar de tudo: os pratos de bacalhau já prontos para mais tarde meter no forno, a mesa posta, os preparativos para fazer os doces de tarde. Assisti ao almoço e conversámos que é o que mais fazemos a vida toda. A única ajuda que consegui autorizasse foi descer com o lixo e demais tralhas para o ecoponto.
Por volta da uma e meia apanhei o autocarro 203 e vim a casa almoçar com o Nuno, que logo depois foi ao barbeiro cortar a trunfa enquanto parti em viagem a pé em busca de um multibanco que tivesse dinheiro. Só ao quinto consegui a proeza. E por me lembrar de ir a um dos inúmeros supermercados Auchan que abriram no Porto – a pobreza galopante de que falam os jornais impressiona, vê-se por estas pequenas manifestações da economia real.
À tarde, depois do telefonema à mãe, o Nuno descascou a fruta para a salada. Nos últimos anos temos feito a antiga e fora de moda salada de fruta aos cubos para contrabalançar os doces de Natal. A divisão é esta: o Nuno descasca, eu parto. E assim preparamos esta complicadíssima receita de sofisticada sobremesa.
Ainda assim este ano houve inovação: resolvi fazer Sonhos pela primeira vez na vida. Afinal algum dia teria de aprender. Acontece que temerária só li a receita da minha mãe no momento em que ia começar a preparar – havia apenas reparado antes nos ingredientes para comprar. Azar, aquilo é feito de uma massa à séria - é preciso mexer com vigor e ainda tem o que saber. O que vale é que tenho a ajuda do Nuno para bater a massa com força. A receita chega ao cúmulo de falar em quatro ovos, mas do cuidado para verificar se é desnecessária metade do último. Por alguma razão nunca me dediquei a estas artes. É coisa para muita inteligência e dedicação. Bom, no meu caso resolveu-se doutro modo: como eram grandes, pus apenas três ovos. E lá fritei as bolinhas feitas com duas colheres de sobremesa e os estafermos saíram maiores do que era suposto. Os da minha mãe são dourados e pequeninos, os meus castanhos e grandes. Bem dizia a tia T. que o lume tinha de ser brando. Estou a dizer isto mas não estavam maus de todo. Para o ano ficam melhor.
Ao final da tarde tentei dormir meia hora mas não consegui. Talvez porque tenha andado um quarto de hora à procura do Bolo Rainha: tinha-o perdido. Razão: é o Nuno que guarda as coisas nas prateiras de cima dos armários e quando pedi que guardasse as caixas da balança e da batedeira (que não foi precisa, mas antes os braços) ele enfiou caixa do bolo juntamente com as outras na prateleira de cima do armário-despensa. Já de manhã havia perdido os sapatos atrás das cortinas. Creio que o neurologista vai ter mais uma cliente. [...]
O jantar correu bem como é costume, com muitas picardias entre irmãos, os mais do que tudo a penarem pelas vergonhas que os fazemos passar, os nossos pais a tentarem pôr algum bom senso nos disparates verbais dos filhos, a tia em observação, um brinde ao tio distante mas que como de costume liga à hora da ceia de Natal para se juntar a nós, e os netos a alinharem nas patifarias que dão alegria à vida. Como é óbvio não há fotografias do mais importante. Mais tarde trocaram-se pequenas lembranças.
Não há fotografias do essencial, todavia há muitas do comezinho. Na cozinha muita loiça para meter na máquina. Compete-me a tarefa que não faço no dia-a-dia e por isso até me sabe bem nas festas. A minha mãe rabuja sempre comigo, às vezes apenas com o olhar: saia daí, eu faço – a discussão como se põe a loiça da máquina é um debate de décadas. O que interessa é que houve várias mãos a levantar a mesa e ficou tudo mais orientado para não deixar muito trabalho para a mãe
À meia-noite já em casa abrimos os presentes a dois. A camisola, o estojo de manicure e pedicure, chocolates e o gravador digital do Nuno, que aproveitou logo para gravar as conversas banais como é costume. Os meus fios da Parfois (o desejado dos trevos e outro colorido para animar), a tesoura de cozinha (a mãe notou que eu tinha uma tesoura do chinês na gaveta da cozinha e quis reparar a falha), um porta-moedas, chocolates, uma echarpe quente (nos últimos anos têm-me dado várias e uso cada vez mais) e uma caneta do chinês com inscrições no estojo – não sou a única dos irmãos a pelar-se por compras deste género para desgosto dos outros elementos da família que acham uma heresia.
E claro não falou o mimo para o Ritz: um rato de corda.
Assim continua a descrição do nosso Natal comezinho.
O dia 25 foi mais pachorrento. Manhã de sorna – a imitar vida de gato refastelado ao sol. Vida em casa de pijama e roupão até tarde. Aproveitei para escrever o postal anterior a relatar o dia de Natal. Ainda houve proposta para sairmos e andar a pé, mas este ano não me apeteceu. Só queria estar sossegada a ouvir smooth fm e passarinhar a casa e o corredor onde o Ritz foi espalhando de madrugada os diferentes ratos-brinquedo – já colecciona
A tarde não foi diferente. Ainda pensei ler, mas qual quê? Seria preciso muito ímpeto. Limitei-me a acender as velas do Presépio e a saborear os pensamentos soltos na mais pura da preguiça. Aproveitei também para pedinchar ao Nuno que tocasse piano e lá tive direito a um pedaço de devaneio melódico. Durante todo o dia fiz apenas um telefonema e recebi outro de Natal. Estive até pouco antes das cinco da tarde em pijama – coisa boa –, hora a que lanchámos: chá preto com mel e os biscoitos do cabaz da empresa.
Os sinos da igreja repicaram a assinalar o nascimento de Jesus – o vento hoje trouxe o som mais nítido. Anoiteceu e só nessa altura reparei que a estrela cadente do Presépio se partiu – despistada pu-lo sem reparar. Não é particularmente bonito, mas gosto de ver as pequenas velas arder dentro do estábulo. Apaguei-as antes de sairmos.
O jantar foi muito mais sereno do que ontem. A conversa versou sobretudo sobre memórias antigas – chegámos à conclusão que tirando os meus sobrinhos estamos todos velhos. A mãe estava feliz apesar de muito constipada.
O serviço de loiça corriqueiro de Natal substituiu o bom de ontem. E ao bacalhau de ontem sucedeu o peru. [...]
Uma vez em casa acendi o globo como é costume e as luzes natalícias. Ensonada escrevi este postal para terminar o relato dos três dias de um Natal simples – creio parecido com o de muitos portugueses. Com a despretensão de quem não considera o nosso Natal mais genuíno, mais puro, menos hipócrita ou mais dentro dos cânones do que deve ser. É apenas um Natal entre tantos.
Logro é a palavra eleita.
Valorizar tudo quanto favoreça o caminho tido por mais respeitado pelos que têm poder ou influência – por quem supostamente possui mais autoridade nas relações pessoais, profissionais, sociais. Agir sempre como se a espada da obediência ao conveniente e oportuno fosse descer sobre o corpo perpassando-o de modo fatal. Abafar e desprezar tudo quanto seja espontâneo, genuíno tomando-o por simplório e por isso sujeito ao escárnio da maioria. Confundir conhecimento e verdade com convenções herdadas, sectárias e vantajosas do ponto de vista individual - logro. Considerar que a credibilidade decorre de espécie de exibição de carta referências de quem supostamente produziu saber e partir do princípio de quem não a exibe não é recomendável senão para ser abusado, sobretudo se revelar conhecimento efectivo a ser aproveitado com oportunismo e desrespeito. Seja sob pretexto de fins lúdicos, de estímulo intelectual ou ficcional, seja com o fim aparente de exploração do conhecimento e explicação na natureza humana, entusiasmar-se e admirar a perversidade e o cinismo, considerando-os inevitáveis e naturais, tomando-os por lucidez e sagacidade. Elogiar e realçar por efeito onda sem atenção ao real talento. Agir como cata-vento sempre em busca de aceitação ou vantagem. Revelar pouca inteligência em análises levianas e nas escolhas quase sempre previsíveis e gananciosas. Confundir discernimento com manha. Eis o perfil dos(as) embusteiros(as).
Não há como fugir da realidade: isto existe e tem sucesso. Em certas ocasiões, isto é o que tem mais sucesso, apesar da ostentação dominante – a tal com muita audiência – querer fazer crer em patranhas de sucesso do trabalho e do mérito e ponha sempre o rótulo de ignorante, invejoso ou ressabiado em quem chame a atenção para a realidade. O que mais há é doçura nas palavras de perfeitos canalhas. O que mais há é tolerância e coragem na busca de justiça na boca e nos teclados de abusadores. O que mais há é convencimento de rigor e lucidez na atitude de impostores.
A maldade existe e normalmente está mascarada de forma a produzir maior dano aos odiados ou abusados e o maior benefício a quem deles se aproveita de modo ilegítimo. A crueldade existe cercada de elogios ao engenho e lucidez dos que vivem a causar o prejuízo alheio. Se a Natureza sempre gerou crápulas, o mundo online e o espaço público em geral são um viveiro deles alimentados a farinha e sarcasmo. No prato já não sabem a mar e são indigestos, apesar disso conseguem enganar por algum tempo, não se distinguem e têm vasto auditório esfaimado de engodo.
A vida também é feita de escolhas e há quem opte por viver a enganar, prefira o atalho de viver à custa do trabalho, do esforço de entendimento e do talento alheio - do esforço dos que desdenha. E do enaltecimento oportunista. Todavia dizer isto não é simpático, não é forma de angariar amigos nem dá audiência a ninguém. Ainda bem. A incompreensão demonstra que é o caminho certo. Um carreiro uns dias solitário outros cercado do aconchego de muito poucos. Maravilha, o caminho próprio.
Imaginem um período da vida de alguém de quem muito do que diz na intimidade caseira ou em pensamento é materializada no espaço público nos dias seguintes. E que os dias vão sucedendo assim, como decorrências daquilo que vai pensando ou falando em privacidade: vê o que pensa e sente abordado, traduzido, interpretado pelo mundo que a rodeia. Levantem a questão da origem da sensação: será resultado da inteligência artificial ou de um quê que ultrapassa uma explicação racional? Será comum a muitos ou não? Não temam acharem-se malucos.
Terão material para um conto ou mesmo romance.
Fica a sugestão para quem passa já que, sem falsas modéstias, não tenho nem tempo nem talento para a ficção.
Desde que abri as Comezinhas e apesar da intensa escrita diária fiz algumas paragens estratégicas para descanso e em quase todas pensei encerrar as hostes. É-me natural ir indo, mas tem-se dado o caso de regressar e intensificar ainda mais a escrita – nos últimos anos produzi muito, talvez lixo; produzi sem contribuir para o PIB. Há mais de dois meses ando a preparar o fim do blogue ou mais um intervalo. Ainda não decidi.
Tenho o vício de escrever, o que é bom. Mas também sinto que há aspectos nocivos em manter-me aqui. Podia enumerar as razões de irritação, mas quem lê as Comezinhas já as conhece de cor e salteado: presunção, compadrio, falsidades, política rasteira, arrogâncias, ofensas gratuitas e dissimuladas, aldrabices, elogios falsos e interesseiros. Nada disto é novidade, a realidade comporta estas características e para onde quer que vá encontrarei laivos destes comportamentos. Sucede que cansa. Talvez a falta de ferro e o meu mau-feitio contribuam para cada vez ter menos paciência.
Não nego que me fará falta a companhia de boa gente que cá passa por bem e a quem estou grata. Nalguns casos gente que vou lendo. Não sou disfarçada para dar o ar que me é indiferente estar aqui ou não estar. Gosto pouco de dar o ar indiferente para me fazer passar por quem não sou. Não aprecio isso nos outros, não gostaria de me comportar da mesma forma. Acontece que me fazem falta alegrias e sinto que este lugar tem-me trazido mais tristeza do que ânimo. Ora nunca tive queda para o martírio. E a verdade é que a vida profissional, familiar e com os poucos amigos corre tão pacífica que seria estúpido vir incomodar-me no espaço público. Além de que gosto genuinamente da mudança. Desta vez comecei a procurar outros poisos onde possa assentar e continuar a escrever. Encontrei e apesar de ainda não ter começado a publicar no novo espaço – nem saber como se faz, como é costume ando sempre às aranhas – é para lá que irei depois de descansar uns tempos da intensa escrita diária. Em suma: tenciono mudar de ares. Não me perguntem o destino; preciso ir sozinha. Além de mais por mero acaso comecei a receber circulares no email de estudos académicos acerca de temas que me interessam, o que ajudará a espicaçar-me – preciso sempre de estímulo para lá da vida rotineira que levo. Mais uma vez arrumarei o apartamento no intervalo, faz parte dos meus fetiches de transição de vida desde a meninice, e terei de contar com o imprevisto.
Nas Comezinhas muito fica em aberto: o Espanador que está em fase de embrião e possivelmente publicarei na outra banda quando chegar o tempo, o post sobre astrologia que acabei por não fazer, o tributo aos leitores que por cá têm passado e mais uma série de promessas que ficaram por aí penduradas. Talvez volte mais tarde. Agora parece-me muito provável que aconteça. Houve dias que não, em que apeteceu selar mesmo a porta sem regresso. Faltam poucos postais para acabar a republicação de textos que ando a fazer há dois meses e picos preparando o fim ou intervalo das Comezinhas. Não vou repor os postais deste ano por estarem ainda muito frescos e dando uma vista de olhos a fazê-lo talvez destacasse os dedicados aos debates das eleições legislativas e europeias, um sobre a ida ao centro comercial e tarde com os meus pais cá em casa, outro dos reveses da vida e ainda aquele sobre o que faria se o tempo de vida escasseasse. Não tenciono recapitular os postais destes cinco anos acerca dos sonhos nem das leituras. Não encaro os poucos livros que leio como troféus ou crachás e procuro não abusar deles para arremesso de argumentos. Sendo desavergonhada em matéria de pensamento não aprecio grandes mostras de desinibição livresca e desenvoltura presumida. Tenho pudor ao falar de livros - talvez signifique que os respeite.
Resumindo, daqui a um punhado de postais virá mais um Até já, depois o futuro dirá. Fui o mais honesta possível.
Passa da meia-noite e só agora vou escrever. Durante o dia senti vontade e entretanto dou por mim sem saber o que havia a dizer. Além do que hesito, sei que não é recomendável ir pelas vias que me prendem os pensamentos. Não quero escrever tudo quanto me vai na alma por considerar que não devo apesar de sentir o apelo da transparência e dela fazer caminho.
Um autor contemporâneo francês muito em voga prima pela vulgaridade que não é tida como tal no mundo literário apenas por estar intelectualizada. Li-lhe qualquer coisa como isto: para sermos inteiros como escritores não podemos ser receosos nem de nós próprios nem dos outros. Pelo que percebi haverá necessidade de uma certa carta de alforria das convenções e necessidade imperiosa de não nos castrarmos. A rédea livre atrai, vende. É apelativo ver o que em regra não se mostra. Sucede que não se trata de cunho, mas propósito: muitos passam a viver em função da satisfação dessa pulsão de nudez e quanto mais agressiva, isto é, quanto mais destruidora da beleza e delicadeza de sentimentos e pensamentos mais audiência gera. Auto-justificação dos instintos primários bordada a liberdade artística. É um caminho possível explorar o lado animal, egoísta, perverso. Resta inseminá-lo no tempo e espaço público. Ao consumidor de informação da actualidade política, social, económica, cultural e científica que possua inteligência argumentativa e talento para a escrita é fácil criar obra atractiva. Disruptiva, dirão os sábios.
De novo não sei por que raio acabei de escrever isto e me lembrei deste escritor cujo nome não digo como costume para não perder tempo com o que não interessa: a intriga. Já aqui expliquei amiúde a razão de não gostar das referências. Aprecio mais ideias do que ânimos exaltados por facções e paixões clubísticas. Já sabem, as Comezinhas limitam-se a conversa de café, às bocas. São de uma inconsistência só. Faltam os nomes, os factos. Os nomes, céus. Como viver sem eles?
O que parecem propor? Devemos pôr-nos à prova. Confrontar-nos com o desagradável. Questionar. Testar. Esticar e deixar que estiquem a corda. Seremos mais fortes e resistentes deste modo. Humanamente mais experimentados.
Será? E se o desagradável não passar de uma série de caprichos de espíritos levianos aborrecidos com vidas fáceis nas quais as questões materiais estão resolvidas e parece divertido brincar às peculiaridades mentais e emocionais esvaziando-as de tudo quanto de benigno possuam. Escalar os jogos de perversidade como prova de sofisticação intelectual. Com uso da ironia, claro, para provar a superioridade de espírito. Essa popular muleta do cinismo cada vez mais fácil de usar para disfarçar a solidão acompanhada e a falta de razão. Fazer de conta que é a própria vida a impor a sujeição à densa perturbação mental, à intensificação das paixões e ódios. Simular repulsa pelo singelo e são por considerá-lo menoridade de gente estúpida. Exibir mensagens e imagens chocantes para suprir falta de paz interior e aparente lucidez. Demonstrar espírito mais mordaz com suposta preparação de entendido da crueza humana. Ficcionar um mundo porco e iníquo como forma de exercer o poder do intelecto confundindo essa intenção criativa com a realidade em falsa prova de testemunho do tempo - a receita mágica da distopia. A mente corrupta é sempre mais interessante e apelativa do que a recta. Muito mais sofisticada, esse troféu de poder.
À hipocrisia dos moralistas do bem contrapõem-se estes falsos profetas moralizadores da perversidade sofisticada, criadores de mundos sórdidos, para quem a supremacia do entendimento da dimensão humana passa por esvaziá-la da componente benigna, como se tratasse da pecha da ignorância.
*
Ia fazer um diário com balanços e planos e saiu isto. É o que dá pensar ao sabor dos dedos. Às tantas ainda vou continuar. Afinal amanhã não trabalho, posso estrafegar a madrugada como bem entender.
Se observarmos a vida em dois planos distintos, um mais espiritual outro mais terreno, podemos constatar algumas contradições. Quem está habituado a lidar com o espiritual e o esoterismo sabe que é costume generalizar ou relativizar a dor e o valor de cada um face a uma razão suprema que em última instância reporá a justiça. Em traços gerais diz-se: a condição humana determina que todos sofram altos e baixos, todos tenham o seu valor intrínseco. Por contraste e baixando a um nível mais mundano é inelutável recorrer à comparação, a tal que o lifestyle proíbe - artificialmente, porque vive disso -, e com objectividade compreender que a forma como cada um está no mundo e o factor sorte são determinantes no decurso da vida.
E é sobretudo importante fazer entender como é perniciosa a adesão fácil ao discurso Miss Mundo do lifestyle, que nos pretende dar a lição do (aparente) esforço ser sempre recompensado, do recurso e favorecimento da lábia e do oportunismo, do desinteresse ou repugnância pelas reais questões da justiça mascarando-as de lugares-comuns como a igualdade de oportunidades e o mérito no esforço, nos quais pretensos empenhados, trabalhadores e, em geral, indivíduos certinhos saem sempre vitoriosos por contraste aos preguiçosos, invejosos e desregrados.
Em suma, mascarar as qualidades e defeitos do ser humano, tomando a aparência por realidade, colocando tudo no mesmo patamar, pode ser um óptimo pretexto para perpetuar injustiças. Quantos mais bocejos se observam perante quem levanta questões de equidade efectiva, mais sujo fica o mundo - um lugar propício ao destaque da mediocridade.
*
Posts anteriores desta série.
Por vezes o pensamento e o sentimento até coincidem e ainda assim há animosidade vinda da pura vontade de conflito, da usurpação de valor alheio ou da necessidade de rebaixar outrem para ganhar ascendente, mais do que de picardia inócua ou reacção a alguma injustiça.
Quantas vezes esticaste as asas e cortaram-te as penas? Quantas vezes alongas as asas e arrancam-te as penas?
Enquanto tiver juízo, a cair no erro da doutrinação, farei sempre a contrario. Espécie de psicologia reversa. Dando-me como exemplo de falha, de defeito, espelhando as minhas fraquezas.
Quem lê as Comezinhas de início sabe que a crítica a quem “olha de cima da burra” é uma das mais importantes ideias deste blogue – em que faço mais finca-pé.
[silêncio]
Onde está a moralidade hoje? Para dentro. Na admissão das falhas como alerta e incentivo a ti própria para mudar de atitude a arrumar o raio das gavetas da mesinha de cabeceira, os documentos do portátil pessoal e duas das três caixas de email profissionais.
Em contraposição carimba-se os que fogem da intriga, do obscuro e do conflito como moralistas ou puritanos, já em vias de ferrados como perigosos defensores das ditaduras, pois se atentam contra os mais nobres valores ao proporem mais reflexão, mais lucidez e, pasme-se, ao terem o topete de sugerir necessidade nalguns momentos de renúncia ao argumento em prol de consenso.
Ainda que sem a posse de toda a informação e conhecimento, presumo em regra que penso melhor do que a maioria. E admito. Detesto a falsa tolerância. Odeio sentir que estão a fazer de conta que respeitam um ponto de vista só para passarem a imagem de grandes democratas, quando é patente que quem o faz, geralmente, gosta da competição ou desporto da retórica, de manipular o discurso e as acções de modo a prejudicar não quem é nocivo ao mundo, mas quem não lhe traz vantagem pessoal. E mais do que tudo gosta da zombaria e só com ela se sente gente, se sente vencedor; e só com ela esconde a solidão.
Mas contaram-te que estando um grupo de velhas senhoras a lanchar, aproximou-se uma criança pequena, franca e malcriada e dirigindo-se a uma delas disse: ui, é tão feia. Contida, a visada fez de conta ouvir pior do que de facto escutava, afagou a cara do pequenino e virando-se para a dona de casa e avó da criança disse: tão engraçadinho, o teu pequeno.
Cedo ouviste esta história antiga e, como alguns, afagaste e afagas muitas faces de desaforos de engraçadinhos(as) que insistem em achar não que és feia, mas sim burra.
Afinal a moralidade encapotada não é exigível apenas aos bruxos, mas a todos, incluindo aos pregadores mais sofisticados da praça. Cada um vende a banha da cobra que tem mais a jeito e promove o protagonismo e a auto-estima à sua maneira. Escusam de se pôr em pedestais que não vos pertencem, ó eruditos da treta. Desçam à terra.
Só para dizer que hoje seria dia de Moralidades à quinta-feira, mas como sou uma bloguer de trazer por casa, não escrevi nada. Nem me vai sair nada de interesse de chofre. Deixo apenas a nota de que acordei muito mais inclinada para as imoralidades, por isso talvez não seja grande ideia fazer esfregas moralistas.
Não sei se abra uma rubrica: moralismos à quinta-feira. Afinal gosto de sermões. Tão fora de moda. Não é nada sexy nem excitante - assim não arranjo casamento. Que maçada.
Hoje são várias as palavras eleitas e antes mesmo de as elencar conto que não defini o que vou escrever em seguida: elogio, crítica, quero, posso e mando, hipersensibilidade e política. É possível que não esteja capaz de desenvolver um todo estruturado, por isso começo por deixar as ideias essenciais.
As noções. 1) A falta que faz o elogio e como pode ser excessivo e pouco honesto. 2) A crítica e o prejuízo que causa quando excessiva e o lucro que podemos obter dela. 3) A prepotência: as virtudes e benefícios de ter as ideias definidas e vincadas e os malefícios das atitudes quero posso e mando. 4) A hipersensibilidade como motor de avanços civilizacionais de respeito pelos direitos humanos e da Natureza e as desvantagens do dogmatismo (este vocábulo com sentido tão profundo e estudado há-de dar um post no futuro) e puritanismo. 5) Política.
Cada um é como cada qual e cada qual tem os seus recursos de sustento intelectual e emocional. A forma como para uns é dispensável o incentivo, não invalida a falta que ele possa fazer a outros. O florescer da vida para tantos pode acontecer muito em resultado desse ânimo externo, que a outros tanto falta. A afirmação solitária e impetuosa de alguns pode fazer-se de forças e independência dispensáveis a quem é amparado e incentivado. Para lá da condição humana somos todos diferentes, cada um com percurso peculiar. O elogio pode fazer maravilhas no mundo se não for fácil e desonesto, isto é, a troco de benesses. A crítica constante e desagradável pode amarfanhar e anular qualidades humanas relevantes, mas também conferir maiores graus de exigência aos visados e fazê-los mais consistentes.
Do equilíbrio difícil entre elogio e crítica, que deveria basear-se não só nos factos como na justeza da interpretação dos acontecimentos, podem nascer espíritos mais clarividentes, menos sofredores e mais harmoniosos.
Muitas das questões abordadas por aqueles que são tratados como radicais das causas identitárias pelos que tenho denominado ultra-conservadores – o que é um pouco injusto com a ideia benigna conservadorismo; deveria sim considera-los agressores – são pertinentes e justas apesar de parecerem hipersensibilidades de histéricos. O mundo é ingrato para muitos sem razões atendíveis, salvo a perpectuação ou a regressão à lei da selva. A imposição da lei do mais forte por contraposição à escalada de puritanismo – e excessos de ridículo como reacção à lei do mais forte num intuito de impor lógicas bizarras que também elas estão longe de justas - tem servido de estratégica ou táctica para protagonismos políticos. Os discursos, as argumentações e as atitudes prepotentes baseadas na factualidade crua - que dão a sensação de rigor e de objectividade -, sem interpretação contextualizada de modo justo e isento, mas pelo contrário resultado de manipulação retórica, fazem parte da política no sentido menos digno.
Não são os direitos humanos e a protecção da Natureza que estão em jogo na maioria das discussões, mas a política no sentido mais rasteiro. O que não prenuncia nada de bom. Não há aqui nenhuma epopeia para apuparmos o Velho do Restelo que representaria o travão a grandes avanços, há sim a mais elementar necessidade de bom senso.
Há horas com vontade de escrever, mas sem poder. Uma maçada, isto das obrigações. Amanhã vou para o parque de campismo. Passarei o fim-de-semana chuvoso como desejava entre árvores e demais vegetação e perto do mar. Pode ser que esta noite tenha tempo para escrever: mais uma vez balanços e planos. Tintim por tintim.




A roseira dos três botões é a do Dia dos Namorados de 2021. Sobreviveu às primeiras investidas da chegada do Ritz a esta casa. A planta vivia na cozinha, desenterrou-a várias vezes do vaso, comeu-lhe as folhas quase todas. Passei-a mirrada para um vaso grande na varanda (onde agora está a azálea) e arrebitou, sobrevivendo dois anos. Nos últimos meses estava a morrer nesse vaso maior. Tirei-a apenas com a terra que acompanhava as raízes e um pouco caule verde, mais uma vez parecia morta. Limitei-me a enfiá-la assim num vaso pequeno. Voltou a arrebitar. Gosta de mudança pela mudança, a danada. E sabe sobreviver ao gato, o mafarrico que se esconde debaixo da colcha da cama. A vida sem sofisticação é bem mais saborosa. E o que parece morto ou definhado é o que mais alegrias nos dá. Um dia hei-de falar da filosofia e da literatura em defesa da simplicidade ao longo dos tempos, mas por agora não estou para aí virada, não me apetece. E a verdade é que para isso preciso do parpaliê e dos lugares-comuns de intelectual e para intelectual falta-me a intelectualidade. Foi mais uma madrugada em claro, depois de passar o serão a ler. São 9h23 e devo dormir, mas não sei se consigo. Falta-me o sono, há-de vir quando menos convier, de tarde quando a casa estiver com o movimento das entradas e saídas de fim-de-semana. Preciso arranjar sono para dormir ainda de manhã. O coração acelera de vez em quando, talvez devesse beber menos café.
Hoje deixo um punhado de ideias soltas que não vou juntar debaixo do título Agenda nem ilustrar com a mioleira azul luminosa. Ficarão assim mesmo desatadas.
Nas Comezinhas nego-me a falar das JMJ e das questiúnculas associadas, mas a propósito de religião apetece-me dizer que há mundos difíceis de compatibilizar: como fazer compreender a alguém com uma visão seráfica de Deus a confusão mental de quem se encontra completamente entregue ao domínio de vontade superior e aí não descobre paz alguma, mas pelo contrário perturbação mental e emocional?, ou como fazer perceber a alguém que não é tocado pela fé o sentimento tranquilo, conformado e esperançoso de que tudo tem explicação e tudo está ligado num sentido único desconhecido?
E já que estamos numa de perguntas: como fazer entender que a circunstância é quase tudo (um dia ainda hei-de ler José Ortega y Gasset). Como tentar pôr um pouco de bom senso nas fáceis beatificações do Papa Francisco por grande humanidade possua e muita audiência renda a imagem de bem-aventurado e, doutra banda, como pôr tento no rancor e medo dos ultra-conservadores católicos ao revolucionário Francisco? Tentar dizer serenamente que foi escolhido pela instituição milenar não ao acaso, mas exactamente por reunir as características que possui, aproveitadas na melhor das perspectivas para apaziguar os ânimos, na pior para imolar um cordeiro no calvário das acusações que pesam sobre Igreja.
Como fazer passar a ideia de que cada um de nós é tudo e o seu contrário ao longo da vida? E os encontros e desencontros do percurso podem ser muitíssimo frágeis e as grandes forças e realizações duradouras por mais consistentes e fruto de sacrifício, estudo e trabalho possam aparentar, são em última análise fruto de uma série (feliz) de acasos? Como explicar que a verdade absoluta de hoje para uns com importância fulcral já pode ter sido para outros e deixado de ser, ou nunca haver sido e vir a sê-lo, e que o encontro ou concordância de pensamento e sentimento é também fruto do acaso ou da circunstância? Como deixar a mensagem de que não somos inteiramente donos do mundo e da nossa vontade por mais bafejados sejamos pela sorte do conhecimento e da emoção?
Como explicar que o darmos importância ao conforto e felicidade do suspiro do gato não nos faz mais estúpidos? A menos que percamos a noção das proporções e desvalorizemos o bem-estar humano.
Como deixar registado que há momentos em que corrigir é pior do que deixar fluir? Desde o exemplo simples dos erros ortográficos em espaços alheios a um mal-entendido antigo no local de trabalho. Se o tempo e a convivência não são capazes de desfazer mal-entendidos é porque não há razão para explicações suplementares.
E se puxasse pelos fusíveis lembraria mais perguntas que me fiz hoje, mas varreram-se, por isso fico por aqui.
Deixo só uma imagem de ontem. Quando estava num momento de reflexão no autocarro em comunhão e identificação com os demais num tipo de preocupações ao nível das que revelei no início deste postal, reparei numa mulher no assento da frente toda recostada e a deslizar no ecrã do telemóvel imagens de vernizes cor-de-rosa berrante. Como direi? Não acrescento nada à sensação que tive no momento. Já dá mais um parágrafo, depois de digerida a precipitação. O seguinte.
Além de sermos tudo e o seu contrário, somos a essência e o fútil. Todos. As formas de manifestação serão diferentes em qualidade e grau. Mas basta um esforço de aproximação, e na maioria das vezes nem é necessário especial tino ou coragem por as circunstâncias determinarem a vizinhança, basta um esforço para chegar à conclusão que tudo é moldável e que o pior se pode transformar em muito melhor havendo compreensão e boa influência - a inversa também é verdadeira, infelizmente.
Pronto, agora é que é, calo-me. Até amanhã. Acho.