Desde que abri as Comezinhas e apesar da intensa escrita diária fiz algumas paragens estratégicas para descanso e em quase todas pensei encerrar as hostes. É-me natural ir indo, mas tem-se dado o caso de regressar e intensificar ainda mais a escrita – nos últimos anos produzi muito, talvez lixo; produzi sem contribuir para o PIB. Há mais de dois meses ando a preparar o fim do blogue ou mais um intervalo. Ainda não decidi.
Tenho o vício de escrever, o que é bom. Mas também sinto que há aspectos nocivos em manter-me aqui. Podia enumerar as razões de irritação, mas quem lê as Comezinhas já as conhece de cor e salteado: presunção, compadrio, falsidades, política rasteira, arrogâncias, ofensas gratuitas e dissimuladas, aldrabices, elogios falsos e interesseiros. Nada disto é novidade, a realidade comporta estas características e para onde quer que vá encontrarei laivos destes comportamentos. Sucede que cansa. Talvez a falta de ferro e o meu mau-feitio contribuam para cada vez ter menos paciência.
Não nego que me fará falta a companhia de boa gente que cá passa por bem e a quem estou grata. Nalguns casos gente que vou lendo. Não sou disfarçada para dar o ar que me é indiferente estar aqui ou não estar. Gosto pouco de dar o ar indiferente para me fazer passar por quem não sou. Não aprecio isso nos outros, não gostaria de me comportar da mesma forma. Acontece que me fazem falta alegrias e sinto que este lugar tem-me trazido mais tristeza do que ânimo. Ora nunca tive queda para o martírio. E a verdade é que a vida profissional, familiar e com os poucos amigos corre tão pacífica que seria estúpido vir incomodar-me no espaço público. Além de que gosto genuinamente da mudança. Desta vez comecei a procurar outros poisos onde possa assentar e continuar a escrever. Encontrei e apesar de ainda não ter começado a publicar no novo espaço – nem saber como se faz, como é costume ando sempre às aranhas – é para lá que irei depois de descansar uns tempos da intensa escrita diária. Em suma: tenciono mudar de ares. Não me perguntem o destino; preciso ir sozinha. Além de mais por mero acaso comecei a receber circulares no email de estudos académicos acerca de temas que me interessam, o que ajudará a espicaçar-me – preciso sempre de estímulo para lá da vida rotineira que levo. Mais uma vez arrumarei o apartamento no intervalo, faz parte dos meus fetiches de transição de vida desde a meninice, e terei de contar com o imprevisto.
Nas Comezinhas muito fica em aberto: o Espanador que está em fase de embrião e possivelmente publicarei na outra banda quando chegar o tempo, o post sobre astrologia que acabei por não fazer, o tributo aos leitores que por cá têm passado e mais uma série de promessas que ficaram por aí penduradas. Talvez volte mais tarde. Agora parece-me muito provável que aconteça. Houve dias que não, em que apeteceu selar mesmo a porta sem regresso. Faltam poucos postais para acabar a republicação de textos que ando a fazer há dois meses e picos preparando o fim ou intervalo das Comezinhas. Não vou repor os postais deste ano por estarem ainda muito frescos e dando uma vista de olhos a fazê-lo talvez destacasse os dedicados aos debates das eleições legislativas e europeias, um sobre a ida ao centro comercial e tarde com os meus pais cá em casa, outro dos reveses da vida e ainda aquele sobre o que faria se o tempo de vida escasseasse. Não tenciono recapitular os postais destes cinco anos acerca dos sonhos nem das leituras. Não encaro os poucos livros que leio como troféus ou crachás e procuro não abusar deles para arremesso de argumentos. Sendo desavergonhada em matéria de pensamento não aprecio grandes mostras de desinibição livresca e desenvoltura presumida. Tenho pudor ao falar de livros - talvez signifique que os respeite.
Resumindo, daqui a um punhado de postais virá mais um Até já, depois o futuro dirá. Fui o mais honesta possível.