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02/10/2024

O que é esta segunda-feira?

A palavra escolhida como pretexto é: defeito. Motivo para desenlear os dedos à segunda-feira.


Um cavalo de batalha dos tempos modernos no pensamento dominante: esconder todas as falhas, suprir as imperfeições, castigar as fraquezas, disfarçar as deficiências. Ficcionando, aumentando, distorcendo, reduzindo-as ao simplismo ao invés de as limitar à simplicidade. No domínio do gosto, da forma e da substância. O gosto não se discute, afirma-se. Como quase todas as ideias fortes passam a inquestionáveis. Ora aqui nas Comezinhas é uso pôr em causa tudo e mais um par de botas, não por devaneio tonto, mas por me deparar tantas vezes com contra-sensos que decorrem de ideias feitas. Não quero impôr gostos, porém posso discuti-los e justificar a minha antipatia ou menor apetência por determinadas marés e contra-marés populares ou restritas. Se não me atrai especialmente muito do que se chama arte em fotografia, pode ser por não me rever nas escolas artísticas e a vulgarização delas num nicho de intelectuais e de publicações que definem em cada época o que é ou não válido como arte. O excesso de estilismo, o pretenso minimalismo, a redução da imagem a uma única e perfeita ideia, pronta feita e acabada, como se não aceitasse impurezas é capaz de me repelir. Assim vejo muitas das fotografias artísticas cujo objecto é a paisagem rural ou urbana oca de vida, o corpo humano, masculino ou feminino, ou a sua interacção vazios de naturalidade. Os exemplos de imagens a preto e branco, supostamente para enfatizar emoções, de toque pouco autêntico em contrastes de pele e contorno masculino e feminino muito realçados ou de corpo de mulher envergando vestido ou nudez a exalar feminidade numa postura de abandono encostado a cenário de luz difusa são dois clichés que nada me dizem. Se a ideia é salientar as emoções e a beleza, tem o efeito contrário, banaliza-as. Resulta no mesmo que a quietude do mar turquesa ponteado por uma ilhota de palmeira solitária. Tudo me parece pífio e irreal. Decoração de quarto de motel. Nos primeiros casos sobressai a pretensão, no último o pimba. O que disse para a imagem estática vale para o cinema, no qual o excesso de depuração e artifício da fotografia remete para um mundo sem macula, que não reconheço nem real nem ideal. E vale também para a escrita.


Bem sei que a fidelidade ao real, longe de representada pelo realismo ou hiper-realismo nas artes plásticas, traz amiúde associado um ar de descuido, de irritante, de desagradável. Se nos limitarmos a retratar o mundo tal qual é desprevenido, sem artifício, caímos no sensual risco de nos vermos tal qual somos, sem trabalho de produção, sem caricatura, sem vontade de causar impacto por lente aumentada ou distorcida. Aqui nos aparecem a paisagem e a nudez tal qual são, desafectadas. Espontâneas.


Reconheceria o mundo se fosse exposto ou retratado tal como é, para variar. Às tantas a corrente cansaria em pouco tempo. Talvez, não sei. Neste momento, alguns leitores resmungam com os seus botões: nada de novo, já existe, mais do que visto. Mas apraz-me a ideia de olhar para a realidade e apanhá-la desprevenida, sem noir, sem tinta, sem pente e escova. Como nunca a vi representada. Isto é, ao natural.


E pronto, foi o apontamento acerca de imperfeições e demais assuntos dos quais não entendo rigorosamente nada. Um dia lá terei de me debruçar nas correntes das artes plásticas e sobre muito mais. E o que tencionava dizer nada remetia à arte, mas sim para a aceitação das imperfeições humanas na palavra e nas acções. Todavia fica assim mesmo, afinal o ideal estético pode representar o modo como pensamos e sentimos.