Pesquisar neste blogue

02/10/2024

O mundo aqui tão perto

O momento não nos define tanto mais que podemos valorizar com intensidade todo o instante como se o mundo parasse para repararmos nele e logo a seguir esquecêssemos. O momento não nos define apesar da imagem que deixamos a quem passa ser feita do que dizemos ou fazemos em determinada ocasião e assim ficarmos carimbados para sempre ou por muito tempo.


Este feriado à terça-feira vai-se bastar a si. Render por si. A manhã estende-se pela tarde como se não houvesse nada mais de importante a resolver, a dar importância. E há, queria ler um pouquinho, mas não sei se sobra tempo depois da escrita, do descanso, da cera e das tarefas domésticas. Tenho prioridades e perder tempo é a maior delas, para o ganhar mais tarde.


Oiço Chopin para serenar o desassossego da hora a mais de sono que me faltou dormir. Fica cá dentro a comer a serenidade, como se lhe desse mordidelas que moem mais após o almoço – prato monocolor de salmão grelhado e arroz de tomate.


Agora sim, o prometido relato sobre a manhã. E a cada vez maior sensação que não preciso ficcionar, tal a vida se me apresenta rica todos os dias à mão de semear, bem perto, em pormenores que costumam escapar se procurarmos apenas o especial e extraordinário, longe.


Acordei cedo e ao contrário do costume fomos de manhã ao Parque da Cidade. Passeámos e tirei as fotografias do post anterior. Nada a acrescentar às legendas senão não ter conseguido fotografar a troca de palavras de um casal humilde que cruzou connosco. Distraí-me com as palavras e não fui a tempo de captar a imagem do par cúmplice na casa dos quarenta que se ouvia à vez numa t-shirt colorida com dizeres publicitários sobre os jeans magros e gastos e um vestido cilíndrico em tons cinza de cintura que não estreita.


Depois fomos à bola de gelado. Erro crasso. De manhã não se comem gelados, muito menos de chocolate. Opinião válida apenas para mim própria. Não sei porque alinhei nem porque traí o hábito do maracujá. Se só gosto de chocolate à noite, para quê inventar? Má ideia.


Seguimos para o Forte São Francisco Xavier - Castelo do Queijo. Entrámos sem pagar os 50 cêntimos de cada entrada só pelo olhar atento do funcionário da recepção. Principiámos pelo pequeno espaço do Museu, fotografei armas e dinastias. Subimos, tirei imagens do mar, da praia, dos canhões e guaridas. Descemos e fomos ver a anunciada exposição de pintura. Cumprimentei a senhora que estava à entrada, que me devolveu um sorriso simpático e ao fim de três ou quatro palavras se apresentou como a pintora. Ah, bom, temos cá a artista. Que bom. Demos a volta ao exíguo recinto, bastante pintura de porcelana que não me encanta, quadros e objectos vários pintados por mãos dedicadas. E se muitas das peças não são do meu agrado, há ali inegável talento. Pedi autorização para tocar. Peguei no íman do Farol de que gostei muito. Voltámos para junto de Margarida Castro Cunha, assim se apresentou quando perguntei o nome, filha de pintora, mãe de filha que entre outros trabalhos fez restauros na Igreja dos Clérigos e de filho artista plástico. Nascida em Lamego, com vínculos a Esmoriz e Espinho, mulher de figueirense (da Figueira da Foz) que acompanhou de perto a conversa. Um doce e simpatia de senhora, que ali estava só porque hoje é feriado. De resto, está sempre em casa a trabalhar – a pintar. Sempre. Assim é gente dedicada e talentosa. Achou piada a eu saber o nome do farol, que ela desconhecia – para me dizer qual era apontou o dedo na direcção do paredão do Farol de Felgueiras. Disse-lhe que tinha vivido em Felgueiras na infância, por isso me foi fácil fixar o nome do farolim. E saímos, trazendo o íman.


Chamámos o Uber e mais uma vez pude confirmar como o Porto é uma aldeia. Além de me certificar que pouca coisa me dá tanto gozo como a conversa franca, mesmo sabendo que o tom geral dos contactos é bem confessional. O jeito natural e disposição do Nuno para ouvir ajuda, e a minha predisposição para a conversa e a curiosidade também. Entrámos no carro e pouco depois já sabíamos bastante da vida profissional anterior do explorador do negócio. Minutos mais tarde já o tinha ouvido falar de nomes de amigos de familiares meus, e também nomes ligados a empresa antiga e ao meio cultural da cidade – gente, entidades e espaços ligados à música, cinema e teatro. O mundo é muito pequeno e se bem que despassarada não cultive as relações dos meus familiares e amigos, nem para isso tenha feitio, sempre me chega qualquer coisa – o suficiente para quem está de orelhas atentas. Na segunda parte do pequeno percurso contou-nos o drama da sua vida – não há nada como conduzir passageiros com vidas pouco standard para se dar o à vontade. Há uns bons anos o filho avisou-o que devia ver o telefone da mãe. Não podem imaginar as fotografias. Ao fim de mais de vinte anos de casamento foi corte total no próprio dia, largando tudo para trás, menos os filhos: quis guarda conjunta e precisamente por isso mudou de vida e comprou os carros da Uber. Revelou a mágoa do abalo e além de mais a perda de amigos que desaparecem nos piores momentos da vida. O Nuno apoiou-o na sensação de abandono total pelos amigos quando o desastre acontece. Pus os panos quentes habituais: pois, também sei como é, mas às vezes nós próprios repelimos as pessoas, a vida é como é, precisamos relativizar. Nisto os homens são muito mais a direito: não perdoam. E chegámos a casa, nós descemos, ele deve continuar a trabalhar e a recompor-se do abalo já antigo e ainda por superar. Faço figas para que refaça a vida com a nova companheira e seja feliz tocando guitarra.