A cada almoço fora de casa espreita o perigo da delapidação de património. Por não conseguir carregar o passe de autocarro no multibanco e nas papelarias onde é habitual fazê-lo - o sistema está com problemas, explicam -, decidi nestes dois últimos dois dias almoçar perto do local de trabalho.
Como se sabe um risco agravado para as finanças de almas tentadas com os primeiros devaneios que surgem pela frente. Ainda corri duas lojas de quiqueriquis para ver se sossegava o ímpeto consumista - onde decidi ao telefone com a minha mãe passar os tempos livres dos próximos dois meses a dar uma volta à casa em arrumações mais cuidadas -, mas acabei uma vez mais na Bertrand e na poesia. Maldição.
A diabólica resma da Relógio de Água leva-me à falência. Depois não sobra para a casa com jardim. Vidas difíceis.
Em suma: na intenção de poupar o dinheiro do Uber para ir a casa almoçar gastei o triplo a almoçar e a comprar Duzentos Poemas (gulosa, é o que é) de Emily Dickinson. Poesia em frases curtas acerca de menoridades. Não percam tempo. Coisas de mulher sem importância. Vidas enfadonhas. Além de mais a encadernação nem sequer está imaculada. O livro tem ar de já ter sido lido. Não faz vista nenhuma. Esqueçam. Coisas com duzentos anos, muito maçadoras. Ainda por cima, ao que dizem, desrespeitadora das regras gramaticais do seu tempo. É preciso topete.
Hoje não houve conversa alongada com o livreiro habitual, apenas cumprimento e tomada de conhecimento por parte dele do que eu levava. Há que vistoriar. Julgo que aprovou, mas fiquei na dúvida. A despropósito: não sei se dá para perceber, mas fico sempre na dúvida com aquilo que os outros me dizem ou tentam dizer. Baralho-me com facilidade ao pôr milhentas hipóteses.
Assisti sim atrás na fila à demorada conversa entre a funcionária que registava a compra e a cliente. Falavam sobre os livros de Freida McFadden que desconheço. Ao que parece vivo no planeta Lua porque A Criada - o pior e mais simples da autora já que os demais são muito melhores, disse a funcionária - e outros livros da autora são muito populares. É o que dá viver desfasada do mundo. Nunca sei nada do que é suposto.