Passa da meia-noite e só agora vou escrever. Durante o dia senti vontade e entretanto dou por mim sem saber o que havia a dizer. Além do que hesito, sei que não é recomendável ir pelas vias que me prendem os pensamentos. Não quero escrever tudo quanto me vai na alma por considerar que não devo apesar de sentir o apelo da transparência e dela fazer caminho.
Um autor contemporâneo francês muito em voga prima pela vulgaridade que não é tida como tal no mundo literário apenas por estar intelectualizada. Li-lhe qualquer coisa como isto: para sermos inteiros como escritores não podemos ser receosos nem de nós próprios nem dos outros. Pelo que percebi haverá necessidade de uma certa carta de alforria das convenções e necessidade imperiosa de não nos castrarmos. A rédea livre atrai, vende. É apelativo ver o que em regra não se mostra. Sucede que não se trata de cunho, mas propósito: muitos passam a viver em função da satisfação dessa pulsão de nudez e quanto mais agressiva, isto é, quanto mais destruidora da beleza e delicadeza de sentimentos e pensamentos mais audiência gera. Auto-justificação dos instintos primários bordada a liberdade artística. É um caminho possível explorar o lado animal, egoísta, perverso. Resta inseminá-lo no tempo e espaço público. Ao consumidor de informação da actualidade política, social, económica, cultural e científica que possua inteligência argumentativa e talento para a escrita é fácil criar obra atractiva. Disruptiva, dirão os sábios.
De novo não sei por que raio acabei de escrever isto e me lembrei deste escritor cujo nome não digo como costume para não perder tempo com o que não interessa: a intriga. Já aqui expliquei amiúde a razão de não gostar das referências. Aprecio mais ideias do que ânimos exaltados por facções e paixões clubísticas. Já sabem, as Comezinhas limitam-se a conversa de café, às bocas. São de uma inconsistência só. Faltam os nomes, os factos. Os nomes, céus. Como viver sem eles?
O que parecem propor? Devemos pôr-nos à prova. Confrontar-nos com o desagradável. Questionar. Testar. Esticar e deixar que estiquem a corda. Seremos mais fortes e resistentes deste modo. Humanamente mais experimentados.
Será? E se o desagradável não passar de uma série de caprichos de espíritos levianos aborrecidos com vidas fáceis nas quais as questões materiais estão resolvidas e parece divertido brincar às peculiaridades mentais e emocionais esvaziando-as de tudo quanto de benigno possuam. Escalar os jogos de perversidade como prova de sofisticação intelectual. Com uso da ironia, claro, para provar a superioridade de espírito. Essa popular muleta do cinismo cada vez mais fácil de usar para disfarçar a solidão acompanhada e a falta de razão. Fazer de conta que é a própria vida a impor a sujeição à densa perturbação mental, à intensificação das paixões e ódios. Simular repulsa pelo singelo e são por considerá-lo menoridade de gente estúpida. Exibir mensagens e imagens chocantes para suprir falta de paz interior e aparente lucidez. Demonstrar espírito mais mordaz com suposta preparação de entendido da crueza humana. Ficcionar um mundo porco e iníquo como forma de exercer o poder do intelecto confundindo essa intenção criativa com a realidade em falsa prova de testemunho do tempo - a receita mágica da distopia. A mente corrupta é sempre mais interessante e apelativa do que a recta. Muito mais sofisticada, esse troféu de poder.
À hipocrisia dos moralistas do bem contrapõem-se estes falsos profetas moralizadores da perversidade sofisticada, criadores de mundos sórdidos, para quem a supremacia do entendimento da dimensão humana passa por esvaziá-la da componente benigna, como se tratasse da pecha da ignorância.
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Ia fazer um diário com balanços e planos e saiu isto. É o que dá pensar ao sabor dos dedos. Às tantas ainda vou continuar. Afinal amanhã não trabalho, posso estrafegar a madrugada como bem entender.