Pormenor no Arco do Triunfo, Maio de 2005.
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31/05/2020
Corridinho

Apetece-te fazer um corridinho de pensamentos soltos, despejá-los na folha branca do word, sem preocupações com o que queres ou não transmitir. Sem querer saber qual será o início do texto, as voltas do entremeio, quanto mais do final. Há sempre alguém que te diz: expõe-se demais. É verdade e ninguém mais do que tu sabe isso. Mas não é menos verdade que se fossemos por aí, muito de bom se teria perdido no que se escreveu até hoje. E isto sem a pretensão de te comparares a quem escreve com competência e seriedade. A propósito lembras-te da tentativa de versejar que fazes amiúde. Acabas quase sempre por assumir o texto em prosa, por falta de disponibilidade mental para levar a sério os versos. Terias de ser capaz de reduzir o rompante, o desabafo, a fúria, a paixão a palavras precisas, concisas e limpas. Além de desencantares a melodia. Sem ideia de rima, que essa nunca te atraiu. Já a melodia às vezes vem-te à cabeça e a coisa corre solta e alegre, mas depois há tudo o resto, os palavrões densos que estragam a leveza, os verbos que estão a mais, os artigos que nunca sabes se deves usar ou não, e o todo, às vezes, demasiado yin-yang, muito preto e branco. É curioso que não sabes onde vais buscar a melodia. Sempre foste dura de ouvido além de completamente desastrada no ritmo e coordenação motora. Lembras alegre as aulas de música do ciclo preparatório, nas quais desalinhavas a turma não acertando nos movimentos rítmicos. Já na altura apalhaçavas, na certeza de tirar peso ao handicap. Tal como nas aulas de francês, quando escangalhavas a turma a rir, se a pedido da professora conjugasses o futuro do verbo regarder em voz alta. Eram muitos erres para baralhar e a baralhar não falhavas nenhum. Mais tarde, no Instituto Francês do Porto, tiveste oportunidade de voltar a fazer vergonhas do género, a tentar dizer mer méditerranée. E continuas sem conseguir dizer. Pior que dizer erres, é dizê-los misturados com emes. Uma desgraça.
Mas a poesia atrai-te. Só ela é capaz de dizer tudo numa ou duas palavras. Despir-te inteira, sem as delongas elucidativas da prosa. Na prosa explicas, contas, quase te dissecas a ti e aos outros. Na poesia o mundo consome-te. A ti e aos outros num sorvo só. Como se não deixasse tempo nem espaço para menoridades, para a serradura e limalha. Há muito serrim na prosa. Na poesia os tornos, formões e limas estão afinados e amaciam as palavras até ficarem sem rugosidades que não sejam verdade. E a memória volta à escola e às ferramentas. Madeiras, mecanotecnia, electrotecnia. Quando é que imaginaste que um dia estas disciplinas te iam ser úteis, para além da evidente utilidade prática. Todos devíamos ter umas luzes de oficina para resolver os problemas de ordem prática que vão surgindo. Sabes o que é uma chave inglesa, ou de fendas e estrela, um maço ou nível. Mas tens dificuldade em dividir as palavras em substantivos, advérbios, verbos, adjectivos e quejantes. Ou melhor, se pensares até sabes, mas a coisa não sai imediata por te teres esquecido as categorizações. Ao fim destes anos todos, devias voltar a pegar numa gramática e num prontuário, e procurar saber o essencial. Mas o mundo está cheio de coisas fundamentais para saber.
A prosa continua sem rumo onde te levar. Assim à toa. Pensas no que queres dizer, e nada te ocorre por segundos. Reparas que alguém deve estar a lavar um terraço, por ouvires o esfregar da vassoura molhada na tijoleira. E é Domingo e tens tempo para prestar atenção. Por falar nisso, o texto já vai longo para blog, pelo que o vais dar por terminado, corrigir e publicar. Dez ou quinze minutos depois fica rectificado - com gralhas, o mais provável - e lembras-te de uma conversa de ontem sobre viagens. Cobiças o tema e equacionas a hipótese de esticar este texto. Mas não, fica para mais tarde. Talvez um outro post, quem sabe ainda hoje ou noutro dia próximo, sobre a saudade das viagens. E é mais meia-hora para corrigir isto de novo.
*
Adenda 03/06/20: reli o texto hoje encontrei pelo menos um 'imaginas-te' em vez de imaginaste; uma pouca vergonha.
30/05/2020
A diabólica



Estas máquinas de exercício cardio têm um quê de diabólico. Tenho dois dias para deixar de a ver com um instrumento de tortura e passar a tratá-la como uma aliada. De resto voltar as eternas dietas, tentando reduzir substancialmente os hidratos de carbono (a minha tentação e desgraça) substituindo-os por verdes. E ingerir menos calorias. A ver se consigo estendê-las para além das duas três semanas habituais. Perder sete a dez quilos não parece difícil (já aconteceu várias vezes, após o que ganhava mais peso ainda). O drama está em perder todos os outros a mais, mantendo o juízo por vários meses.
Às tantas é parvo dizê-lo, mas estou confiante.
Jornais

No pot-pourri de jornais de hoje há palavras corajosas. Notícias que nos deixam expectantes e atentos. E acostumandos, mas nunca resignados.
Bom dia, e bom fim-de-semana.
29/05/2020
Ganha-pão

A frase «só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos.» é atribuída a Samuel Johnson e há variações de provérbios em diversas zonas do mundo expressando a mesma ideia.
Crescemos com ideias muito precisas sobre o que é o bem e o mal e o que é socialmente aceite ou não. Cresci e fui educada, como muitos dos meus compatriotas, a olhar com menosprezo para profissões de ligadas à morte – agentes funerários e coveiros – e à cobrança de impostos e créditos.
É, por isso, com alguma perplexidade que me vejo há catorze anos – dezassete com interrupções – na área financeira, precisamente nas cobranças. Uma das mais malquistas e odiosas profissões. E é assim por estar envolta num manto de mitos e enganos que mantém a generalidade das pessoas a salvo da realidade. Preferem fantasiar, ver o mundo como um filme de gangsters, entre mauzões insensíveis e pobres vítimas.
Há dezassete anos, depois de ter feito estágio de advocacia e ter trabalhado na banca, deixei para trás o meu inviável escritório - que funcionou apenas dois anos e onde fui péssima profissional por falta de gosto, disciplina e talento -, e fui deixando os quatro bancos, onde dei uma perninha, e demais experiências profissionais. Ganhei em conhecer a realidade da justiça, que é um cancro nacional, que não funciona ou opera em prejuízo de quem dela se socorre ou dela é alvo. E em perceber como funciona a banca, que tem todos os maus vícios dos portugueses, mas ainda assim funciona. Nunca tive os chamados bons cargos. Sempre executei, operei, fiz, enfim, trabalhei. Procurando sempre ter os olhos abertos para ver o que me rodeava, não na perspectiva de singrar profissionalmente, mas de perceber o funcionamento das coisas.
Ganhei mais com esta postura do que ganharia de outra forma. Não financeiramente, mas como gente. É certo que talvez tenha conseguido o último emprego por cunha (coisa que no país da cunha ninguém admite), mas conquistei a estabilidade com esforço. Como eu há milhares de profissionais que não riscam, não dão na vista, não estão à espera de mais direitos ou privilégios, nem que estes lhes caiam em cima da cabeça sem mérito, e apesar das baixas renumerações continuam lá, a fazer, a trabalhar e a ver de olhos bem abertos o que os rodeia. E quanta injustiça há no que os rodeia.
Desculpem a presunção, mas se houvesse mais gente a bulir, e menos gente a teorizar sobre a execução do trabalho, sobre todas as tricas e intrigas que não interessam nem ao menino Jesus e, sobretudo, a fazer cera e parlapiê, talvez este fosse um lugar mais fácil para viver. Um dos aspectos que mais prejudica o país é a quantidade significativa de indivíduos que preferem encarar o emprego como um direito adquirido e não como a obrigação de, tão simplesmente, trabalhar e fazer o que é preciso ser feito. A obrigação de produzir. E de sujeitar-se. Sim, temos pena, mas sem sacrifício nada de valor se consegue (sei que dizer isto numa altura que o desemprego aumenta significativamente pode parecer ofensivo, mas há ideias que permanecem para lá das conjunturas).
Quanto ao resto, cobro. Sempre poderia usar eufemismos como técnica ou gestora de recuperação de crédito - na verdade, o termo usado é collections specialist -, mas hoje prefiro cobradora. E, mais. Há dois anos vendi a minha antiga casa no Porto. E estivemos para comprar uma outra num condomínio em Gaia cuja escritura de compra e venda incluía uma quota na exploração de uma funerária que funcionava no condomínio. Não fosse o negócio ter sido abortado por outras razões e teria sido o pleno: cobradora e cangalheira. Ah, céus. Seria a vergonha completa. Foi uma pena, por um triz.
The Best Jazz Songs of All Time | 50 Unforgettable Jazz Classics
Mais uma manhã de luxo, a trabalhar ao som destas maravilhas. Ele há vidas boas.
Irritações

Hoje é dia (em rigor, é noite) de falar daquilo que me encanita. Cada um tem as suas irritações de estimação e não fujo à regra.
A desconsideração dos mais velhos.
Tratar os mais velhos como crianças de colo, como pessoas com baixo coeficiente cognitivo ou como parasitas bole-me com o sistema nervoso. Percebo que se seja mais simpático com os mais velhos, que se tenha mais mesura ou mais delicadeza. O que não percebo é que se infantilize a terceira idade. Acho uma atitude estúpida e desrespeitosa. Quantas vezes assistimos aos mais infelizes comentários – atirados do cume da insolência - a desconsiderar os mais velhos. Exemplifico:
Ah, mas um smartphone básico para uma pessoa de idade é mais aconselhável, e ainda temos os de teclas.
Ah, boa. A senhora sabe usar o contactless.
Ah, mas vai fazer a viagem de carro sozinha? E se lhe acontece alguma coisa?
Vai pedir crédito aos 65 anos? Que absurdo.
E há quem assista a estes insultos impávido e sereno por viver numa realidade protagonizada por velhos actores, mas com argumento feito por ganapos que pouco ou nada sabem da vida.
A desconsideração das ‘meninas’
Aqui os promotores das ofensas costumam ser homens mais velhos que se consideram bem-sucedidos. É uma raça fácil de identificar por grande parte da sua pose assentar na desconsideração de quem julgam estar uns furos abaixo. A ofensa dissimulada é essencial para continuarem tão contentes consigo próprios, como aparentam. Ninguém daria por eles se não esticassem o nariz e pusessem ar de enjoado ao olhar para as sopeiras, as meninas ou as petulantes. Acham-se importantíssimos por razões várias, ou por serem empresários e terem enriquecido, ou por terem nascido numa família bem instalada e não terem tido de se cansar, ou por se considerarem intelectualmente bem preparados, enfim, há uma infinidade de razões para o ar de presunçoso que apresentam. Na generalidade são pouco mais do que calhaus, mas espertíssimos. Sobretudo, espertos o suficiente para perceber que vivemos num País onde quem abusa é rei e vinga.
Num País dissimuladamente machista, quantas ‘meninas’ não levaram já com estes presunçosos nas faculdades, nas chamadas telefónicas ou reuniões profissionais, ou até em conversas informais entre amigos. O ponto comum é este: o presunçoso parte sempre do princípio que a ‘menina’ que tem à frente é ignorante ou estúpida, coitada. Nasceu mulher e é do tipo que nunca irá longe. Tudo tem que ser explicado como se fosse demente. Pouco importa se a ‘menina’ for bastante mais inteligente, preparada, tiver mais capacidade de trabalho do que o dito cabrão, porque para ele ter sucesso ou ir mais longe é ser parecido consigo, o que corresponde na versão feminina a ser uma cabra. Coisa com que muito fantasiam.
A desconsideração das categorias económicas
É um hábito enraizado nos últimos trinta anos talvez. A categorização por escalão económico substitui a divisão do mundo entre ricos e pobres e é tão ou mais ofensiva e redutora.
Não raro vemos os novos cientistas – das ciências sociais – ou os técnicos de marketing a fazer estudos com escalonamento das pessoas segundo critérios económicos ou académicos. Chamemos-lhe: contar as galinhas. Depois a coisa extravasa para os políticos e jornalistas e dissemina-se como um praga.
Não há gente com educação, interesses, percursos de vida e hábitos diferentes. Não. Isso não interessa ao mundo executivo moderno. Os critérios para aferir do sucesso de um cidadão são o rendimento e o grau académico. Ou subgéneros que servem, sobretudo, para apaziguar as ambições frustradas dos catalogadores, como é o caso dos suburbanos, tidos como economicamente desfavorecidos, sendo que podem ter bastante mais qualidade de vida do que os citadinos.
28/05/2020
Propostas do PSD

Lidas aqui.
«O PSD pede ainda que haja “maior celeridade no pagamento dos subsídios sociais” e no “reembolso do IRS”. Além disso, nas medidas estruturais, o PSD defende uma revisão da lei do voluntariado, a melhor da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados ou a “universalização das creches e jardins de infância” e ainda de promoção do teletrabalho.»
Certo.
*
«O vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, Adão Silva, apresenta agora outras propostas. O PSD defende que o “layoff simplificado deve ser prorrogado até ao final do ano de 2020 para as entidades empregadoras cujos setores de atividade tenham de permanecer encerrados por determinação legislativa ou administrativa” e para as entidades que tenham a “sua atividade altamente reduzida em consequência da pandemia de Covid-19.»
«Rui Rio diz que o layoff “tem de ser adaptado às circunstâncias” e que “as atividades como os grandes festivais ou os carrinhos de choque, que estão fechados, têm de continuar a ser apoiados”.»
Devem ser apoiados, mas não com o lay-off. Cada coisa no seu lugar. A eterna tendência para as soluções em cima do joelho e para tratar como igual aquilo que não é igual, que mina o desenvolvimento do País.
*
«O partido propõe ainda que seja alargada a “base de beneficiários da tarifa social da energia por forma a abranger as famílias com dependentes a cargo, incluindo as famílias monoparentais cujos rendimentos familiares sejam iguais ou inferiores” ao rendimento mínimo.»
Tretas por medo de assumir a vergonha nacional que é o preço da energia e fazer frente aos interesses das empresas do sector energético. Não é com caridade que se enfrentam e resolvem os problemas de fundo do País.
Bazucazita

Fica o registo dos preliminares deste plano para recuperar a economia (a par do programa de estabilização com as verbas do Portugal 2020) para mais tarde recordar. Era bom que quem tem voz afinada e audível pudesse ir ajudando a impedir as habituais derivas do dinheiro público. O desanuviar da contribuição para a Segurança Social pelas empresas (apesar de ser sintomático dizer-se que não desequilibra os cofres da SS) e a eliminação temporária do pagamento por conta do IRC parecem boas ideias. Mas este último, tal como o prolongamento do lay-off, deveria ser feito mediante contrapartidas transparentes de real faculdade para manter actividade e rendibilidade. Arranjem-se outras medidas para compensar colapsos.
Na outra mão, até tremo quando leio coisas como «enorme oportunidade para termos uma estratégia de valorização dos nossos recursos naturais» e desconfio do «programa muito forte para corrigir o défice de qualificações no país”, em “robustecer a capacidade industrial”, aproveitar “recursos” e investir nas “infraestruturas em toda a área digital"». Esta conversa por mais atractiva que seja traz más memórias. Afinal estamos a falar de uma bazucazita e não de canhões contra os quais continuamos a precisar de marchar.
Sessão espírita


Maga Paulos & Vidente Guerreiro, com o curso de astrologia, tarot e vidência conseguido online (a troco de presenças em bares e discotecas na viragem do milénio) e pós graduação em blá blá de Táxi e Uber, a viver no País há mais de 20 anos (um nadinha mais, mas bem conservados), reunem excepcionamente hoje e abrem desinteressada e altruísta sessão espiritual para ajudar a decifrar a bazuca, ou seja, as linhas do destino da chuva dos cerca de 25 mil milhões de euros, que irá assolar o País nas próximas estações. Pressentindo um desassossego iminente nos concidadãos – já manifestado pela exuberante eloquência com que se voltaram a mostrar nas esplanadas das praças portuguesas depois da notícia - vêem-se na obrigação - após terem sido iluminados por entidades de outras dimensões sobre os perigos - de orientar os caminhos desses mesmos pobres e desnorteados concidadãos.
Então.
Avisa a Bola da Maga Paulos que a chuveirada de notas e moedas irá entupir à primeira espichadela a bicha do aspersor, comprada no chinês como resultado ao estímulo do comércio internacional.
E os Búzios do Vidente Guerreiro alertam para a retenção dos valores por tempo indeterminado por decisão do Governo, a fim de que uma comissão a eleger pelo Parlamento, sob o patrocínio da Comissão de Ética e auspicioso acompanhamento pelos Presidentes da Assembleia da República e da dita República, escrutinados pela Comissão Profissional da Carteira de Jornalista após aceso debate nos programa Prós e Contras, possa avaliar e autorizar criteriosamente as despesas orçamentadas.
A Bola da Maga sussurra que, uma vez libertado, o pecúlio será distribuído pelas mais necessitadas e imprescindíveis entidades nacionais. As que mais contribuem para o desenvolvimento sustentado do País. A saber: o Novo Banco, a RTP, a TAP, a CP, a Transtejo, a Rodoviária Nacional, os funcionários públicos, os gestores de empresa primos dos cunhados dos tios dos membros do governo, os investigadores de ciências sociais, humanas e políticas. E, claro, servirá também para fazer face aos caridosos encargos assumidos pelo Estado com as empresas do sector energético, das obras públicas e, em geral, de todas as parcerias público privadas.
Os Búzios do Vidente Guerreiro pressentem ainda as contas e avisam que não irá sobrar para ajudar na sobrevivência das empresas e dos trabalhadores (salvo as de consultoria, que estudam e planificam a distribuição dos fundos). Nem para os esbanjadores reformados da terceira idade que insistem em gastar em bugigangas - como medicamentos, fraldas, papas e raspadinhas - as magnificas reformas auferidas.
Mas a Bola e os Búzios são unânimes em prever que o ânimo dos portugueses estará ao rubro com a Festa do Avante garantida, e quem sabe o Rock in Rio e, mais do que tudo, a bola, gente, a bola – e não é a da Maga – vai voltar e ninguém vai querer saber da porra da crise. Até porque o campeonato possivelmente não acabará na expectativa que o Benfica ganhe. A bem da economia nacional, como nos ensinou um dia esse patriótico guru António Mexia.
*
Consulta sob marcação prévia para as terças-feiras e quintas-feiras das 15:30h (a extenuante tarefa das entidades econo-mediúnicas assim determina) às 19:42h (atendendo à necessidade do restabelecimento das energias despendidas em horário alinhado com os astros).
27/05/2020
Home sweet home

Numa nesga entre a manhã de trabalho e o almoço digo que bem sei que as Comezinhas andam um pouco ao abandono. Mas está difícil. Hoje há muito para fazer. Nem sequer há tempo para jornais ou outras leituras.
Sempre deixo uma ideia que me apoquenta. Quando acabar o teletrabalho vai ser o fim do mundo. O fim do meu mundinho, vá. Isto de estar em casa é uma alegria imensa. A descontracção, o relaxe é outro. E os tempos, a menor pressão, o fim das corridas das duas idas e voltas diárias e nos intervalos a seca dos supermercados, tudo à pressa.
Só de imaginar que nesta altura do campeonato estaria numa situação normal nos giros habituais e a torrar na rua com o tempo excessivamente quente (que odeio) percebo o privilegiada que tenho sido.
Sei que é quase heresia dizer isto, mas a Covid para os meus ritmos foi uma benesse imensa. E não preciso inventar desculpas - como vejo ser prática de algumas classes profissionais – para não querer voltar a trabalhar fora. É que isto é mesmo bom. Uma regalia e pêras.
26/05/2020
Jargão Covídico

Não nos chegavam as medidas de higiene e o higienizar. Agora temos as medidas de higienização. Daqui a nada é o protocolo metodológico da higienização.
Faena ao Covid

Depois de anos a ver os compatriotas correrem para os hospitais ao mínimo pretexto, resolvi não ficar atrás. E escolhi a melhor altura. Na Quinta-Feira fui à Maternidade Júlio Dinis (não foi por gravidez), no Sábado aos Lusíadas e ontem ao Santo António. Sinto-me a fazer faenas ao Covid.
Está tudo bem.
25/05/2020
Leituras a 10 anos

Como já organizei mentalmente a vida a partir da próxima semana e ando numa de ‘planejar’, como dizem os brasileiros, vou fazer como nos filmes e correr o tempo.
«…dez anos depois…»
Estarei a pegar no Guerra e Paz e a pensar com os meus botões: não será cedo demais, na casa dos cinquenta? Talvez aos sessenta. E voltarei a ler as primeiras vinte ou trinta páginas, para logo depois as esquecer.
A menos que me sinta motivada pela recordação do relato de há três ou quatro meses. Alguém o lia e descrevia passagens nas quais o supremo chefe militar (chamemos assim por ignorância), já de provecta idade, ouvia os inúmeros conselheiros. Consciente de que alguns o tentavam induzir em erro propositadamente para o afastar do cargo e uns e outros defendiam posições antagónicas e inconciliáveis, o velho e arguto militar ia ouvindo diplomaticamente a turba e fazendo o que entendia, mantendo as boas relações com todos.
Antes disso, talvez ainda na casa dos quarenta, leia uma segunda biografia de Churchill. Aí estou certa de não precisar de grandes incentivos, uma grande vida dá sempre boa leitura. Esta semana terminaram de me relatar a de Martin Gilbert. Até hoje só li a de François Bédarida, e lembro-me do gosto com que à época a li. Não sei se por habilidade do biógrafo, se por o biografado ser de facto a figura mais empolgante do século XX. Um homem que nos faz acreditar nos homens. Um militar de mão cheia, um político de têmpera e coragem. Um homem com uma vida cheia de reveses em permanente superação à custa do carácter. Uma vida rica e absolutamente extraordinária.
24/05/2020
Astro

Todos temos os nossos vícios tontos. Este é um site que consulto há 20 anos. Por temporadas. Raro diariamente, às vezes de meses a meses, outras de anos a anos. Um vício que me ficou de uma das fases da adolescência, quando ia para a Biblioteca Municipal consultar livros de astrologia. Cá em casa existe um caranguejo com ascendende em sagitário e uma sagitário com ascendente em caranguejo. Bom entendimento e a certeza de onde um quer ir já o outro ter ido.
*
Adenda: o que mais me interessou neste tipo de sites é a dissecação da personalidade através dos mapas astrais. E menos as previsões, apesar de nestas também se tirarem ilações de como o carácter pode influir no destino. É outro mundo.
Álvaro Santos Pereira

É raro poder dizer-se que um ministro deixa saudade. Cá está um, de calibre diferente da maioria. Como seria fácil de prever foi alvo de chacota e afastado de modo a que tudo ficasse na mesma. Foi bom revê-lo hoje na SIC. Serviu de lembrete para que muitos recordem como esta choldra podia ser diferente.
Registo telegráfico

Esta tarde tomámos o primeiro café a pagar na mesa em mais de dois meses, fazendo a figura ridícula de pôr a máscara à entrada e saída. Um aviso no tampo a agradecer que a visita fosse rápida. E foi. Ainda assim o café estava bom. Antes, o devaneio: mais uma passagem rápida em frente à terceira moradia do conjunto que está a ser construído aqui nas redondezas. Engraçadinhas, mas em rua feiota e com jardim mínimo. E, afinal de contas, este apartamento é casa para muita janela. Tem uma luminosidade difícil de largar. De resto, foi um Domingo como devem ser os Domingos.
Anton Tchekov

(...)

A minha mulher - Anton Tchekov, versão de Luiz Pacheco.
*
Obrigada à Susana, que me deu este livro em Dezembro de 2018. Lido hoje, antes do almoço, de um só fôlego e com muito agrado.
23/05/2020
A boa notícia

Vamos a coisas verdadeiramente importantes. Fiz hoje um teste e o resultado foi o que queria. Apesar das reacções alérgicas que descrevi à médica, não tenho alergia ao pêlo dos gatos. Isto é o que me interessa, apesar de todas as advertências: olhe que sendo alérgica aos ácaros faz mesmo reacção ao pêlo de gato. Não quero saber. Os ácaros nunca me prejudicaram por aí além e não é um ácaro que vou adoptar.
O certo é que deixei de conviver diariamente com bichos aos doze anos e me fazem falta. Se o mundo fosse perfeito, arranjaria um pachorrento cão de grande porte. Ou dois, e mais dois gatos. Mas não é. E, por isso, vai ser um gato ou gata terrorista. Já estou a ver o malandro a causar estragos. A ver vamos para quando a sua chegada. São muitos assuntos a resolver.
Ainda chegará o dia de fazer post com as gracinhas do gato.
Desaforos

Quanta mais sordidez e despeito te queiram atribuir por ignorância e medo do desconhecido, mais mostrarás que, ao contrário deles, pensas só, és livre e nada têm a temer. Não percebem que tens as mãos limpas de más intenções e odeias jogos viciados. Acham-se tanto que não percebem que é a ti que fazem perder mais e mais. Que uma simples e particular linha (recta e não escusa) poria um ponto final na abjecção. Que ainda se admiram de te continuares a espantar com o desaforo cúmplice de quem, em vez de se mostrar só, sempre recostou as costas quentes e se mostrou incapaz de uma atitude recta. E, no final de contas, parece continuar a gostar e alimentar jogos sujos.
São tão valentes. Em bando.
Os arrumados

Bem arrumado e sentado em mesa bem-disposta, o candidato a futuro lugar governativo discorre sobre os temas da semana. Entre os assuntos a tratar, os erros de outro arrumado sentado em anterior mesa alinhada, cujo lugar que ocupa já tinha sido preenchido, qual matriosca, por outro arrumado sentado em anterior mesa enfeitada.
Em comum, nenhum vê o quão arrumado é. Há sempre um momento em que se considera uma pedrada no charco na paróquia nacional e acha que rompe com o status quo pela sua capacidade analítica, pelas suas leituras invulgares, pela visão lúcida da realidade e, claro, pelo grave sentido de humor.
Pena que estes atributos se reduzam à maledicência esgalhada de modo a parecer juízo crítico e que o esforço maior que produzam seja o de manter a vulgaridade de sempre. E que as críticas inócuas ao crime, à vilania e ao desaforo sirvam tão só para garantir um mínimo de aparência de decoro para que tudo continue igual. Gabo o colossal foco e habilidade para não trazer nada de novo além do uso do cinismo absoluto, como se fosse marca de superior inteligência. Clap, clap, clap.
Há duas formas de cepticismo, de concluir que o mundo é igual desde que é mundo. A que sabendo que assim é, se põe a jeito de ficar do lado mais beneficiado e tudo faz para manter a base da sociedade longe do conhecimento e do conforto, tratando-a como uma turma de alunos problemáticos, que é preciso entreter e manter distante e vigiada. E a que, mais naïf, sabendo que assim é, que o mundo é muito igual a si próprio, acredita que é e será infinitamente mais feliz se a vida dos outros, como um todo, melhorar.
Dizes que a amas

Dizes que a amas. Como se existisse, quando para ti é uma abstracção a moldar. Dizes que amas. Como se tivesse direito a ser alguém, e não barro tolhido e retorcido pelos teus dedos intencionais e repressivos. Dizes que a amas. Como se respirasse para além das tuas projecções e frustrações.
Dizes que a amas. E não a conheces, nem queres conhecer. Preferes idealizar com uma mão e recriminar com a outra. Dizes que a amas, mas não suportas que seja quem é, e é liberdade.
22/05/2020
Pois, pois
Rui Rio foi exemplar, diz o senhor presidente.

É um elogio inocente e nada envenenado.
*
O País está derretido com tantas provas de amor na política. É comovente.
Banco bom e banco mau

Ainda sobre o que escrevi sobre o BES, alguém me fez chegar esta achega:

Pois, mas a maioria dos clientes não teria os 100 mil em depósitos. São contas impossíveis de fazer sem dados. De qualquer modo, fica a ideia.
Boa vizinhança

Isto de ter vizinhos que cozinham bem é tramado. Nem sei bem de onde, mas entro na cozinha e pelo exaustor vem o cheiro a favas. Já ia, um estufado de favas com chouriço, ai ia, ia.
Banco bom e banco mau

A ingenuidade não se costuma confessar, mas não resisto a simplificar e dizer o que sempre penso relativamente ao BES: não teria sido melhor se tivesse falido verdadeiramente sem a onerosa criação do amortecedor Novo Banco? E não haverá, apesar dos pareceres dos expertos na matéria, irracionalidade económica na solução?
Só poderia dar a resposta se tivesse acesso a dados que desconheço, designadamente, quais eram os reais activos do BES em 2014 e qual a amplitude dos depósitos cobertos pelo Fundo de Garantia. Só assim poderia conferir se os 10 mil milhões de euros que Vitor Bento previa custar a solução BES seriam suficientes para cobrir a garantia de depósito de 100 mil euros por cada cliente. Há um ano íamos em 5 mil milhões e as obrigações mantém-se até 2025. Será que serão apenas mais 2 mil milhões?
A bem da sanidade do sistema financeiro e da clareza e lisura de procedimentos, onde deviam assentar os legítimos direitos e expectativas dos clientes bancários, não me repugnaria, pelo contrário, veria com bons olhos uma falência real de qualquer banco que não tenha solvibilidade (céus, as terríveis teorias liberais). À época usou-se o argumento de que a resolução crua inquinaria o sistema financeiro, levando os clientes desesperados a retirar as poupanças dos bancos.
Sabendo bem o quanto têm ficado caro ao País os argumentos da estabilidade política e da estabilidade financeira, pergunto-me se um cliente bancário acreditará mais num sistema financeiro no qual um banco tecnicamente falido é artificialmente mantido em funcionamento à custa de cisões, recapitalizações e vendas ruinosas (pagas, em última análise pelo contribuinte), ou um sistema de onde sejam expurgadas instituições inviáveis e que demonstraram à saciedade falta de lisura com os seus clientes e os portugueses em geral.
Não sejamos ingénuos, um banco com práticas financeiras ilícitas atrai clientes vigaristas. Funciona com íman que se alimenta mutuamente. É evidente que a maioria dos clientes do BES era gente honesta que desconhecia tais práticas. Mas não se pode esconder que o banco parece ter sido palco durante décadas da negociata, ilicitude e corrupção. E a própria Comunicação Social foi dando aqui e ali notas dos casos. E de alguns que envolviam o próprio Estado.
E se argumenta com a ideia que aos clientes bancários interessa um sistema protector que arranje soluções que prevejam a restituição total do capital garantido e de parte substancial do capital de risco investido, sempre direi que este é um caminho sem regresso para o sistema financeiro, e a forma certa de tarde ou cedo entrar em desregulação total. Imagine-se o caso dar-se não com um banco, mas três ou quatro e logo se verá até onde vai o falso altruísmo do Estado e da restante banca para participar nos fundos de capitalização. E até quando estará o contribuinte disposto a pagar indefinidamente o colapso financeiro de terceiros. Além do que é a forma certa de manter os reais responsáveis pela falência impunes e a assistir à cena de camarote.
E como o que nasce torto jamais se endireita, esta solução do banco bom e banco mau, que me faz lembrar a irmã gémea que desejei em criança pequena para me substituir naquilo que não me apetecia fazer (ir para a escola cedo, arrumar o quarto ou fazer os deveres), nunca poderia ser saudável dado o seu irrealismo. Ninguém se livra das suas responsabilidades sem pagar caro por isso, a menos que seja desonesto e viva num País onde há impunidade, que parece ser o caso. É e será, porque haverá sempre prestimosos abonadores dos alegados larápios.
21/05/2020
Pele por pele

Se foi um vison a provocar tudo isto, está perdoado. Depois de todas as atrocidades que estes bichos sofreram para embelezar tontas (e tontos), têm toda a razão para a vingança.
20/05/2020
O Universo devia ter letreiro

Não suponhas que sabes mais do que o teu vizinho. Em primeiro lugar desconfia do que sabes.
Dois países

E é assim a vida de quem considera ter direito a viver sempre acima do justo e razoável. A indignação há-de passar e outras virão, e tudo permanecerá tal qual sempre foi desde que o mundo é mundo. Enquanto isso há 110 mil empresas com pedido de lay-off, cujo requisito base é a diminuição em pelo menos 40% da facturação. Tendo sido abrangidas efectivamente pela medida 60%, o que representa 780 mil pessoas. Em Abril, o desemprego aumentou 22% face a Abril de 2019, e como lembra (desta vez bem) o senhor presidente o lay-off tem amortecido o desemprego latente. Veremos até quando poderá ser esticado.
Com ensinam os africanos: sob as patas do elefante quem sofre é o capim.
Minudências

Grandes planos para o próximo dia 1 de Junho. Em rigor, ainda não planeei nada mais do que não seja ter grandes planos, mas parece-me o dia certo para refazer a vida. É início de mês e uma segunda-feira. É o dia mundial da criança, ou seja, é o meu dia e o dos começos. A lua estará crescente. Valerá como segunda oportunidade, depois do 1º de Janeiro.
A vida cheia de grandes planos e a vivida fora dos eixos. Ainda assim, é bem verdade que é preciso muito cuidado com o que se deseja e conjectura. Por caminhos ínvios acabamos por ter aquilo que desejamos ou qualquer coisa de parecido, apesar de na maior parte dos casos não termos a consciência disso.
As ferramentas estão na minha posse há vários anos. A elíptica que tem feito de cabide e os vários planos alimentares de ajuizadas nutricionistas estão guardadas em dossiês perdidos pela casa. Hei-de conseguir. Afinal há quatro anos consegui suspender o vício de vinte e seis anos de tabaco. Não ininterruptos, por ter feito ao longo do tempo algumas tentativas para deixar, duas delas quase de um ano. A ideia é a de aos oitenta e dois ter o prazer de voltar a acender um cigarro e para isso convém esforçar-me por chegar lá.
A grande questão é a força de vontade para não ceder às tentações diárias. Tenho onze dias para me mentalizar e organizar os horários e as compras.














