
Há poucos dias ouvi alguém dizer na televisão (não sei se político, jornalista ou comentador, mas para o caso tanto faz): «de uma forma ou outra sempre houve máscaras à venda nas farmácias».
Ora, vivo numa zona central do Porto e na primeira quinzena de Março fui três vezes às farmácias da área tentar comprar uma máscara. Uma que fosse. A resposta foi sempre: não temos. Nenhuma. Aliás, havia avisos nas portas a dizer isso mesmo. Só no dia 15 de Março consegui a da fotografia, que era o único modelo à venda e paguei o preço que me pediram: 19,95€. O que atesta a falta de bom senso com que, às vezes, nos comportamos como consumidores. Vi várias pessoas a comprar a mesma máscara nesse dia.
Sei que a memória é curta, mas gosto pouco que me atirem areia aos olhos. Mais, é insultuoso menorizarem a existência ou não das máscaras ao fim de mês e meio e se esquecerem do preço a que estavam a ser vendidas.
Acresce que o salário mínimo em Portugal é de 635 euros. Aconselho as ilustres figuras da televisão a darem-se ao trabalho de fazer a regra dos três simples. Assim: 635 está para 100 como 19,95 está para X. O resultado é que uma só máscara – que não é lavável e portanto a reutilização, em rigor, está comprometida – pode representar mais de 3% do salário de muitos portugueses. Imagine-se, agora, a situação para os muitos pensionistas, cujos rendimentos estão ainda abaixo deste valor.
Curiosamente, pareceu-me ouvir ontem no Jornal da Noite que Itália impôs um limite de preço, de qualquer coisa como cinco cêntimos. Muito parecido com o preço a que estão a ser vendidas em Portugal? Ah, não. Aqui, há um mês, era usual pedir-se 70 euros por uma caixa de 50 máscaras cirúrgicas e agora baixaram para metade: 35 euros. Ou seja, 70 cêntimos por máscara.
Já agora não teria sido mal pensado se quem dissertou na televisão em matéria de Covid-19 tivesse usado a regra dos três simples ao comparar dados estatísticos dos diversos pontos do globo, em vez de atirar quando interessava com números absolutos e aterradores. Uma morte é sempre uma morte. Mas uma cabeça também é sempre uma cabeça e convém que funcione com justeza e sem alarme.