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12/05/2020

Pudor

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Durante muitos anos recusei ler texto ou comprar revista ou livro onde estivesse expressa com destaque a palavra felicidade. Se fosse título era certo e sabido que não saía da mesa ou prateleira, com medo de lhe tocar, não fosse ter lepra. Não era nada contra o contentamento, mas sim um certo desagrado pela palavra em si e com o modo com era e é usada. Os clichés ou o mau gosto com que se emprega o termo, sempre rodeado de farta adjectivação a apelar à emoção fácil e a remeter para gente de esfuziante sorriso colgate, vestida em tons nude sobre cenários relvados onde não há um mísero galho nem cai uma triste folha das árvores paradas que a emolduram ou, então, para paisagens fantasiosas cheias de cor-de-rosa, espaços e luzidia vegetação artificial que envolve o exuberante cavalo-alado de crina branca esvoaçante, fazem-me zarpar para paragens mais empoeiradas, com árvores que são árvores e animais que são animais. Manias. Cada um gosta do que gosta. E a beleza da realidade parece-me bastante.


Coisa parecida acontecia, por razões diferentes, com a palavra lindo. Achava ridículo e sei a razão. É a banalização, o tom dengoso e tantas vezes falso como que se dispara um: é tão linda. Pior ainda: é tão fofo. Mas esqueçamos o fofo. O facto é que excesso de requebro tira a beleza ao que é belo. Ainda assim, depois de anos de aprendizado no modo de estar na modernidade, integrei-me na sociedade e passei a usar o lindo com a nuance - que me mantem a salvo da piroseira total -, de jamais juntar o tão senão no gozo. E passei a usar a palavra felicidade para além da ironia.


Resta o último dos três termos para os quais é preciso pudor: o amor. E é aqui que a coisa fica mais patente e se percebe que se não faz sentido desbaratar a palavra e se todos reprovamos a banalização, a verdade é que em maior ou menor grau já todos demos umas facadas valentes na integridade do amor.


Salvo na ironia na qual o excesso do uso tem efeito útil e desejável, ao dizer ou escrever a palavra amor deveríamos usar luvas de pelica e pinças. Ou então não. Deveríamos deixar que voe da boca ridícula e seja agarrado pelos dedos das mãos manchadas de sofrimento. Ou que seja apenas amparado pelas palmas das mãos abertas e gratas das memórias ternas e alegres. Seja como for, deveríamos ter pudor ao falar no amor. Não só para o não banalizar por uso excessivo e incoerente, mas também para fazer notar que o jogo sujo e a mentira retiram verdade ao sentimento mais ainda do que mero uso abusivo da palavra. Matam e enterram o amor, sem remissão.