Pesquisar neste blogue

17/05/2020

Tiranetes

pelourinho.jpg


Correndo o risco de produzir um texto de mexerufada entre fé, religião e doutrinação, sem depurar previamente os conceitos de cada uma e atirando-te de cabeça ao tema, sem as precauções usuais entre gente de juízo inteiro, escreves que o assunto religião é terreno fértil para tiranias e tiranetes. O bom de ter passado a vida no limbo entre a fé e o ateísmo, entre fervorosos crentes e desaforados hereges, talvez te tenha dado - com alguma pretensão, bem sabes - uma visão mais avisada. Pelo menos deverá ser mais livre. Saltitando alternadamente entre candura e a malícia e estando tantas vezes em campos hostis à tua natureza foste alvo fácil para o ridículo e a censura. Perante as vivências desconhecidas e livres há sempre alguém disposto ao juízo primário e a considerações absurdas. Ou acertadas, que também as há. Mas o certo é que há moralismos de ordem vária e os moralistas podem estar nos antípodas.


Os mais fáceis de detectar são os que te condenam sem remissão para o mundo da perdição e do pecado. Reconhecíveis pela sua coragem anacrónica, são óptimos amigos e desejas-lhes sempre o melhor possível, porém são uns verdadeiros chatos. Representam as reminiscências de um tempo que já não existe e, por isso, desconfias que a sua moralidade esteja ao nível do coleccionismo de relíquias.


Vem isto a propósito de religião e de doutrinação. Se a primeira parece estar fora de moda, a segunda continua o mais in possível. E se o peso da religião de outrora justificava a denúncia dos abusos e das incongruências, hoje em dia, fora os casos em que está em causa o crime e legalidade ou marcas de sofrimento próprias e herdadas, quase só por graça alguém denuncia ou bate numa instituição tão descredibilizada como a Igreja Católica. Os detractores da dita são não raro de um atavismo e cobardia primário, próprio de bardinos inconsequentes.


Afinal quais são as grandes causas das denúncias? A hipocrisia e a ignorância.


A hipocrisia? A sério? Num mundo em raramente se fala verdade e a realidade está afundada debaixo do manto de ilusão cor-de-rosa para não magoar ou não ferir as mais ténues susceptibilidades? Um manto diferente do da religião, é certo. Mas tão questionável como a própria religião. Com tantos ou mais dogmas, com tantas ou mais mentiras, espartilhos e cilícios. A religião promete o paraíso depois da morte. Mas os doutrinadores do mundo novo não o prometem já em terra a todos os que sigam fiéis os ditames do ideológico-social-cultural-sexualmente correcto? E não proscrevem, não enxovalham os desalinhados nos pelourinhos digitais da modernidade? Não são de pedra, são colunas digitais, com condenações sumárias e diárias. A doutrinação do ‘agoramente-correcto’ é tão ou mais feroz e poderá vir a ser tão perigosa quanto foi a da agora fragilizada Igreja.


A ignorância. Estão a gozar? Neste mundo tão preocupado com o rigor dos factos? E em que se diz tudo e o seu contrário na mesma frase? Onde quase ninguém quer saber as causas das coisas e argumenta com camadas sobre camadas de preconceitos ideológicos ou culturais? Sem os questionar, se não com a própria vida - que seria a forma mais verdadeira de os pôr à prova - ao menos com o pensamento. Recusando colocar-se do outro lado da barricada, que raio de coragem é essa em zombar do inimigo se nem sequer se dá ao trabalho de o conhecer? Só por ingenuidade ou má-fé se diz que os conhecimentos de História ou de Ciência contradizem a possibilidade da existência da fé (e, por conseguinte, a aceitação da existência de uma instituição que a represente). É confrangedor ver gente inteligente gozar com crentes por alegadamente desconhecerem a História da Humanidade ou factos que desmontem a fé ou por ignorarem as teses da Ciência. Deviam dar-se ao trabalho de confirmar que há crentes cujos profundos conhecimentos de História em nada abalaram a fé, tal como ao lado dos cientistas negacionistas há outros tantos que advogam que o estudo científico em nada contradiz a fé e o pensamento religioso.


Por isso, nestes assuntos, chegas sempre à conclusão: sejam crentes evangelizadores ou doutrinadores do ‘agoramente-correcto’ há-que manter a conveniente distância de segurança e não permitir que interfiram na nossa liberdade. Porque sabes bem ser aí que lhes dói. A tua liberdade. A nossa liberdade.


*


Comentário do Nuno. Faz sentido. Também penso assim. E julgo que gente com três neurónios (um que diz que sim, outro que não e o terceiro que desempata) pensará assim.