
No segundo fim-de-semana de Março fui a Lisboa nos derradeiros momentos de alguma normalidade no que à epidemia diz respeito. Sabia que se adiasse a ida, já a não faria - até ao Verão, digo; não está nos meus cálculos morrer já, mas nunca fiando. No Domingo cheguei ao Porto e chovia, como quase sempre acontece quando regresso. Chegar a casa, nem que seja de uma saída rápida de três dias a vinte quilómetros, é das sensações mais vigorosas que tenho. Há sempre qualquer coisa de estranho na casa a que voltamos, como se ela se ressentisse da nossa traição, do nosso abandono. Acho que as casas a que regressamos só nos começam a perdoar no dia seguinte, depois de uma noite de sono e de estarem certas que lá dormimos. Desconfio até que tomam nota se adormecemos para o mesmo lado. Por nosso lado, no dia da chegada também nos comportamos de forma duvidosa, como se ainda procurássemos de modo protocolar o espaço do hotel. Na semana seguinte ainda trabalhei no escritório. Aliás, na segunda-feira, dia 16, fui testar o trabalho remoto.
Assim, dia 17 de Março recolhi a casa. E no dia seguinte tentei orientar-me. Quarenta de sete dias depois - e a uma semana de voltar a trabalhar fora de casa - cumpre fazer a prestação de contas e ver se realizei alguma coisa do aconselhado. O que no fundo mais não eram do que ideias para manter o equilíbrio prático e mental em dias mais difíceis, porque se virmos bem não tive mais tempo disponível para as minhas coisas, antes pelo contrário. Trabalhei sempre. E nas actuais condições posso considerar-me uma privilegiada por isso.
Dos assuntos inadiáveis que propus, organizei as imagens, mas não os documentos. Se tenho algum jeito para o arquivo convencional, para o digital fui sempre uma negação. Não me pesa na consciência; tudo se altera com a idade. Hoje tenciono tratar das facturas e quejantes. Ao guarda-vestidos nem para ele olhei, mas também não é grave. Duas vezes por ano é suficiente para dar uma volta e deixá-lo decente; ainda vou a tempo. Os tupperwares idem. Li três livros, o que é um incremento. Suponho que no último par de anos leia uma média de um livro por mês e não me caem os parentes na lama ao admiti-lo. Será pouco. Como serão desconsideradas as leituras fora do recomendado pelos círculos de ilustres literatos. Nada disto importa para quem faz o caminho por sua conta e risco. Do lado de fora. E fora disto, três ou quatro crónicas diárias e uns contos aqui e acolá em livros sempre à mão de semear. Mas foi nos blogs que perdi mais tempo e é aí mesmo que terei de dosear a bem do que é útil e desejável. Não vi filmes. Uma falha grave na última quinzena de anos, durante os quais vi muito pouco cinema. Quanto à volta de Vila Real de Santo António a Caminha em Google maps só faltam elas mesmas e uns saltinhos às ilhas para terminar o primeiro giro nacional.
Para manter o equilíbrio – possível – fiz um passeio a pé mais esticado uma vez por semana. E quase todos os dias uma volta ao quarteirão. E, como não há bela sem senão, ao escrever diariamente aqui nas comezinhas, mais do em qualquer altura anterior, expus-me bastante. Coisa que noutros tempos me atormentaria. Hoje, quase me marimbo, o que é bom.