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11/05/2020

Cadeirão de orelhas

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O atrevido ainda não tem três meses de casa e já se põe com imposições. Lá por ser confortável e de um azul bonito acha que tem direito a companhia. É preciso muito cuidado com o que se mete dentro de casa. Começam com exigências e levam-nos à falência. Diz que não quer velharias por perto ou, então, exige que sejam devidamente estofadas.


Pronto, não resisto. Lá terá que ser. Começa o namoro numa qualquer loja da especialidade. Numa vulgar de Lineu, claro está, porque é tudo bem medido, pesado e contado. Pode ser este da casa progenitora do pedinchão. Gosto deste mas queria outra cor para estragar a harmonia. E não há. Este é bastante mais cómodo no preço. Ao contrário deste, que parece igual a este. E, por fim, o da loja dos móveis de bom ar, mas qualidade duvidosa.


Finda a ronda congemino a hipótese de seguir a opinião de quem lhe vai dar mais uso e mandar estofar o cadeirão que comprei há dezanove anos para o escritório onde fiz de conta, durante dois, que sabia de leis. No fundo tropecei nelas e ainda hoje estou para saber como aguentei e acabei formada. Bem vistas as coisas foi uma proeza. De leis percebo pouco ou nada, mas sempre apurei as manias de questionar tudo, procurar a causa das coisas e ver todos os pontos de vista e racionalizar e estruturar o todo. Não adianta de muito, afinal as almas geniais, como Oscar Wilde, dizem que alguém que vê os dois lados de uma questão é pitosga de todo. E não deixa de ser verdade.