
O rádio ligado como sempre e a cama de ferro encostada à parede. Tinha ilhós salientes onde encaixariam as grades, se as houvesse. Roçavam na parede e perfuravam-na levemente. E tu desperta na madrugada, no alto dos teus quatro ou cinco anos, gostavas de ir descascando a parede à volta do pequeno furo. À medida que a cal ia caindo no chão o buraco ia aumentando e ganhando formas diferentes. A aventura nunca passou os limites do reboco para chegar às grandes e grossas pedras do muro que te separava do terreiro da casa, do paraíso. É o primeiro guilty pleasure de que tens memória e acabava sempre com um ralhete e a tua mãe ou a Eca de espátula e gesso na mão a compor o estrago, o marco do início do vício de uma vida: ser noctívaga.
Os grandes medos e pesadelos que costumam assombrar as crianças eram muito atenuados por estares muito ocupada com assuntos prementes. Mas sempre te lembras de alguns maus sonhos. O homem sem cara, só com olhos muito brancos a perseguir-te na noite e a os bandidos invisíveis a querem fazer mal aos teus irmãos. Qual heroína, imaginavas-te com armas feitas de meccano de vigia à janela a defender as três grandes gavetas da cómoda onde em sonhos dormiam os teus irmãos ainda bebés. Quando acordavas davas por eles mais velhos e crescidos do que tu, mas o certo é que achavas que precisavam de protecção. Mais tarde, quando tiveste secretária e livros havia ainda mais motivos para estar acordada. O rádio continuava ligado e assuntos urgentes para resolver à noite ou já de madrugada. Como dar vida às canetas de feltro despejando um pouco de álcool etílico ou desenhar casas e plantas. Ao mesmo tempo que ias devaneando com um universo paralelo ao real. Podias ter-te lembrado de fazer os deveres da escola, mas isso era coisa que nunca te ocorria. Ou melhor, ocorria. Nasceu aí a má sensação de incumprimento. Aliás, recordas chegar Setembro e prometeres: este ano vai ser diferente, vou portar-me bem e ter cadernos organizados e tudo. Mas quem mais jura mais mente e a realidade era mais forte do que tu. É que sempre havia assuntos muito mais importantes a tratar. E sempre alguém a dizer: apague a luz. Como assim? Com tanta coisa a resolver? Mais tarde chegou a vez dos dicionários e das enciclopédias. E outros livros. E era o delírio. Saltar de palavra em palavra, de sinónimo e sinónimo, de provérbio em provérbio. Tentar fixar as capitais dos países, as montanhas, os mares e a população. Conhecer a história. E raio de péssima memória a tua, que nada ou pouco retinha. Ou pior, baralhava o que lia. Mas valia-te o universo alternativo que a tua imaginação ia criando, ao som da música do rádio. Claro que estudar para os testes do Liceu não fazia parte dos grandes planos da noite. Até porque havia que dar cabo da biblioteca de filosofia da tua mãe, ao ponto de calculares a idade média com que morriam os filósofos para ver se esse era um caminho a seguir. Até que chegou o momento em que era suposto estudares à séria e mais uma vez mostraste a tua natureza preguiçosa. Começavas as madrugadas a tentar fazer raízes quadradas de cabeça, para chamar a concentração, e quando davas por ela eram cinco o seis da manhã e ainda estavas com a calculadora na mão a conferir se acertavas nos resultados enquanto mantinhas as fantasias de sempre. Não restava muito tempo para estudar para os exames. Talvez por isso tenhas chegado ao cúmulo de fazer uma cadeira, para a qual tudo o que tinhas lido de um dos semestres era o índice do livro. A ignorância é muito atrevida.
De maneira que te fizeste noctívaga e foi vício que, com prejuízo da saúde, te acompanhou muitos anos. E como deitar tarde implica acordar tarde ou, pelo menos, acordar mal, essa foi uma constante da vida. Custar a acordar. Ter dois ou três despertadores que voam e odiar que conversem contigo de manhã. Todas essas coisas que quem tem mau acordar reconhece. Só a partir dos trinta e três anos aprendeste a impor um horário razoável para dormir e, desde então, não adormeces por regra depois das duas da manhã. Ainda assim, foram precisos mais dez anos para começares a acordar por ti. Foi preciso assentar nos quarenta e começar a gostar das manhãs. E ainda hoje te é estranho veres-te acordada antes do despertador. Quase te apetece beliscar e perguntar: és tu mesma? Enfim, envelheceste.