
Nesta manhã de Maio despertas às oito e esperas uns minutos para te reencontrares com o mundo. É preciso abandonar os montes de palha que juntaste em sonhos. Deve ser bom sinal, responderá mais tarde e a teu pedido gente do Alentejo. Confere, também tu ficaste com a boa sensação. O vazio ao teu lado e o restolho ao longe denuncia-o. Está a surripiar fruta como se fosse a do quintal do vizinho. Ele regressa e tu levantas-te. Vais à cozinha beber água e encontras o local do crime: a cuvete das cerejas que compraste ontem. Encetada. Sorris e comes o primeiro punhado do ano. Não logo, mas passado hora e meia, a imagem dos pés de cereja em vê invertido, dois a dois, com duas penduradas, faz-te lembrar os brincos das raparigas na escola primária. Voltas para os lençóis e colocas a grande questão: levantar ou ficar um par de horas na boa da sorna. Será que o mundo aguenta sem ti? Continuará a rolar sem que o penses, questiones e debatas? Ris-te da tua parvoíce. Riem-se das vossas parvoíces e supõem que os vizinhos - estes e os da casa anterior -, vos achem pouco mais do que apalermados. Afinal, quem é que acorda anos a fio a rir alto? Só tontos.
Abres o estore e conferes que, apesar de em Almada vingar a chuva molha tolos cá, apesar do céu cinzento, não chove. Confirmas o estado da japoneira e da nespereira. A das camélias amareleceu um pouco, mas tem pequenas novas e luzidias folhas a rebentar. Outras a acastanhar. Assim descobres: a perenidade nunca é para todos. Nem para ninguém, mas esqueçamos o realismo por momentos; o mundo pode esperar. A das nêsperas dos dois mastros – e será que algum dia as vai chegar a dar? – ficou espernéfica desde que se finaram todas as folhas a dois terços de altura. Parece um espanador verde ou uma cabeça de mulher esguia, que corta o cabelo junto à nuca muito rente – quase rapado – e a que alguém com graça e maldade chama galinha depenada. Entre o tagarelar da passarada o cão do vizinho dá sinal. Diz que tem fome. Daqui a pouco virá a dona da voz meiga. Vai acalmá-lo, brincar um pouco com ele e dar-lhe a ração.
Regressas e deténs-te nas cortinas esvoaçantes. Quase chegas com as mãos às cortinas e ao vento. Espirras. A janela não veda e ainda bem. Vai ser triste quando for trocada por uma nova. Daquelas que cumpre a função de vedar. Por ti, gostas de janelas que não fecham bem, do vento a entrar pelas frinchas. E de fechaduras com chaves que abrem ao contrário, mas dessas já não conheces. Desapareceram. O mundo antigo vai-se esfumando com a dita qualidade de vida. Contramaré, cada vez mais sentes alegria na imperfeição e falta do erro. Como diz o Nuno, nada como ouvir o silvo da respiração do saxofonista para perceber que há músico e não engenharia do som. Devias tentar uns versos sobre os bons defeitos do mundo. Dos que o humanizam, que dão verdade e aflição ao sentimento. Dos que metem frio na alma e a despertam. Devias tentar um poema, mas hoje parece impossível reduzir ao essencial a prosa da manhã. Ademais, é o poema que terá que te tentar a ti, e não de outro modo. Senão soará forçado. Entretanto, começa a chover. Forte.