
Sempre na linha das boas práticas da contratação pública, os nossos governantes renovam a fé inabalável nas figuras de estilo da ironia e do eufemismo no momento da celebração dos contratos. Parece-me bem, porque haveríamos de funcionar como os alemães e dar o significado de momento crítico à palavra emergência e de necessidade premente ao termo urgência? Seria uma falta de criatividade imperdoável e como sabemos os redactores dos contratos públicos como os demais portugueses estão a trabalhar a contragosto e guardam dentro de si a recôndita ambição de escrever livros de auto-ajuda com vendas milionárias.
Assim se compreende que no passado os actuais governantes tenham contratado um serviço de comunicações de emergência milionário que só funcionava em situações de normalidade e nunca em emergência. E que, agora, alegando urgência no material (máscaras e testes de diagnóstico, por exemplo) façam ajustes directos de oitenta milhões de euros, conferindo altruisticamente prazos de execução próximos dos trezentos dias.
Percebo, faz parte da política de apoio às empresas. Existem cinco grandes medidas governativas nesta matéria: as linhas de crédito, as moratórias, as carências e a ironia e o eufemismo na contratação. Estas duas últimas parecem ter a nuance de se destinarem a amigos ou especiais grupos de interesse com apetência comprovada para hermenêutica.