
A ingenuidade não se costuma confessar, mas não resisto a simplificar e dizer o que sempre penso relativamente ao BES: não teria sido melhor se tivesse falido verdadeiramente sem a onerosa criação do amortecedor Novo Banco? E não haverá, apesar dos pareceres dos expertos na matéria, irracionalidade económica na solução?
Só poderia dar a resposta se tivesse acesso a dados que desconheço, designadamente, quais eram os reais activos do BES em 2014 e qual a amplitude dos depósitos cobertos pelo Fundo de Garantia. Só assim poderia conferir se os 10 mil milhões de euros que Vitor Bento previa custar a solução BES seriam suficientes para cobrir a garantia de depósito de 100 mil euros por cada cliente. Há um ano íamos em 5 mil milhões e as obrigações mantém-se até 2025. Será que serão apenas mais 2 mil milhões?
A bem da sanidade do sistema financeiro e da clareza e lisura de procedimentos, onde deviam assentar os legítimos direitos e expectativas dos clientes bancários, não me repugnaria, pelo contrário, veria com bons olhos uma falência real de qualquer banco que não tenha solvibilidade (céus, as terríveis teorias liberais). À época usou-se o argumento de que a resolução crua inquinaria o sistema financeiro, levando os clientes desesperados a retirar as poupanças dos bancos.
Sabendo bem o quanto têm ficado caro ao País os argumentos da estabilidade política e da estabilidade financeira, pergunto-me se um cliente bancário acreditará mais num sistema financeiro no qual um banco tecnicamente falido é artificialmente mantido em funcionamento à custa de cisões, recapitalizações e vendas ruinosas (pagas, em última análise pelo contribuinte), ou um sistema de onde sejam expurgadas instituições inviáveis e que demonstraram à saciedade falta de lisura com os seus clientes e os portugueses em geral.
Não sejamos ingénuos, um banco com práticas financeiras ilícitas atrai clientes vigaristas. Funciona com íman que se alimenta mutuamente. É evidente que a maioria dos clientes do BES era gente honesta que desconhecia tais práticas. Mas não se pode esconder que o banco parece ter sido palco durante décadas da negociata, ilicitude e corrupção. E a própria Comunicação Social foi dando aqui e ali notas dos casos. E de alguns que envolviam o próprio Estado.
E se argumenta com a ideia que aos clientes bancários interessa um sistema protector que arranje soluções que prevejam a restituição total do capital garantido e de parte substancial do capital de risco investido, sempre direi que este é um caminho sem regresso para o sistema financeiro, e a forma certa de tarde ou cedo entrar em desregulação total. Imagine-se o caso dar-se não com um banco, mas três ou quatro e logo se verá até onde vai o falso altruísmo do Estado e da restante banca para participar nos fundos de capitalização. E até quando estará o contribuinte disposto a pagar indefinidamente o colapso financeiro de terceiros. Além do que é a forma certa de manter os reais responsáveis pela falência impunes e a assistir à cena de camarote.
E como o que nasce torto jamais se endireita, esta solução do banco bom e banco mau, que me faz lembrar a irmã gémea que desejei em criança pequena para me substituir naquilo que não me apetecia fazer (ir para a escola cedo, arrumar o quarto ou fazer os deveres), nunca poderia ser saudável dado o seu irrealismo. Ninguém se livra das suas responsabilidades sem pagar caro por isso, a menos que seja desonesto e viva num País onde há impunidade, que parece ser o caso. É e será, porque haverá sempre prestimosos abonadores dos alegados larápios.