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10/05/2020

Instantâneos

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Uma jovem estudante, com saudade das intermináveis conversas com a melhor amiga, descobre a fórmula certa de trazer normalidade à vida: num descampado, cada uma no seu carro e com os seus cães, estacionam lado a lado mantendo a distância de segurança, abrem as janelas e põem a prosa em dia.


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Uma anciã alentejana resmunga da vida. A família zelosa trouxe-a do monte para os arrabaldes da cidade. Em vez da companhia dos vizinhos da aldeia, sente-se só ao ver a filha, o genro e os netos falarem ao computador.


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O silêncio frio da noite corta a alma da mulher que desce à rua para despejar o lixo e percebe que à porta do prédio vizinho estão estacionadas duas ambulâncias do INEM. Lá dizia Jorge de Sena que «a morte ao dizer tudo é bem calada».


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Pai e filho matam saudades ao telefone. Encantam-se ao recordar uma tarde passada junto à margem do Tejo: o filho travou o carro para deixar passar uma cobra e, para espanto de ambos, a dita fez-se de cão, olhou para trás e esperou que a companheira fizesse igual trajecto. Lá ficaram pai e filho à espera, cúmplices como só eles com os bichos e a natureza das coisas.


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Dois irmãos confinados riem como perdidos das palermices e patifarias que fazem um ao outro nos intervalos de ele trabalhar e ela estudar. Riem como só manos miúdos e já crescidos sabem rir, como quem rouba uma meia do pé. As gargalhadas de ambos são a mais bela bênção dos deuses.


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O viciado no trabalho aproveita os fins-de-semana para relaxar. Medonho de barba por fazer, veste um gorro, põe uns óculos de sol e, antes de seguir para a caminhada, manda a fotografia no whatsapp com a legenda: «depois do cozido, pronto para assaltar umas casas».


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O medo que ao desconfinar os portugueses dêem largas à imaginação, peguem no fato de banho e na toalha de praia, faz com que os deuses abram as comportas e gritem lá vai disto: tromba de água.