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31/05/2022
30/05/2022
Caminhos
Converso com quem conheço bem. Diz-me que tem saudade do tempo em que acreditava num punhado de ideias feitas e como era mais feliz então. Percebo-a. Se bem que o meu período de certezas tenha sido curtíssimo, não haja dúvida que a auto-estima dispara nessa inconsciência. É muito mais fácil encontrar contentamento estando bem consigo e certa das ideias próprias ou da tribo a que se pertence.
As respostas fáceis dizem que esse (o das certezas) é o caminho das pessoas inteligentes, saudáveis e felizes. Resumindo: o caminho da batota é o indicado pelos sábios dos dias presentes.
29/05/2022
A ler
Estará na História a origem das desigualdades entre países pobres e países ricos?
O livro "A Jornada da Humanidade", de Oded Galor, analisa a história do desenvolvimento económico, pondera as causas para diferenças entre países e projeta um futuro risonho. Mas com que fundamentos?, de José Carlos Fernandes, no Observador.
Embora a divergência entre países resulte da complexa interacção de múltiplos factores, cuja relevância relativa vai variando ao longo do tempo, por vezes é tentador identificar decisões ou eventos singulares que funcionam como ponto de viragem na história. Por exemplo, Alexandre Herculano atribuiu, em 1871, no discurso “Causas da decadência dos povos peninsulares”, o declínio de Portugal e Espanha a partir do século XVI aos éditos de 1492 (em Espanha) e 1496 (em Portugal) que determinaram a expulsão de “judeus e mouros, raças inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares tanto deveram”
Se nessa dupla expulsão houvesse que seleccionar um único exemplo para ilustrar como a decisão dos monarcas ibéricos representou um “tiro no pé”, dificilmente se encontraria alguém melhor do que o judeu Abraham Zacut (1452-1515), um dos expoentes da matemática e astronomia do seu tempo, nascido em Salamanca. Os contributos científicos de Zacut foram cruciais para colocar Portugal e Espanha na vanguarda da Europa – entre eles estão um novo tipo de astrolábio, especificamente concebido para medir a latitude em embarcações, e o Ha-hibbur ha-gadol (O Grande Livro), uma colecção de 65 tabelas astronómicas que constituiu um precioso auxílio à navegação em mar alto. O Ha-hibbur ha-gadol foi elaborado entre 1470 e 1478 e traduzido para espanhol em 1481 e para latim em 1496 (ano em que surgiu uma nova versão castelhana, o que atesta o interesse suscitado pela obra). A versão latina, com o título Tabulae tabularum celestium mottum sive Almanach perpetuum (Livro de tabelas dos movimentos celestes ou Almanaque Perpétuo), foi impressa em Leiria pelo judeu Samuel d’Ortas e foi traduzida para latim por José Vizinho, um judeu natural na Covilhã, que fora aluno de Zacut e se tornara médico e conselheiro de João II de Portugal. Foi na corte de João II que Zacut buscou refúgio após o édito de expulsão de 1492, mas o ano em que a sua obra foi publicada em Portugal foi também quando Manuel I promulgou o édito de expulsão dos judeus, o que fez com que Zacut acabasse os seus dias em Damasco.
[...]
Galor não menciona a expulsão dos judeus da Península Ibérica, mas chama a atenção para outro evento singular, quase contemporâneo, que poderá ter contribuído para o início do declínio de outra super-potência: o Império Otomano. Enquanto na Europa a imprensa de tipos móveis desenvolvida por Gutenberg desencadeou, na segunda metade do século XV, uma verdadeira revolução na difusão e preservação do conhecimento, em 1485, “o sultão otomano publicou um edital a proibir a impressora de tipos móveis em escrita árabe, uma tentativa para aplacar os receios da influente elite religiosa de perder o monopólio sobre a disseminação dos conhecimentos da religião – e, em menor grau, dos escribas, que sofreriam com a concorrência”.
Corrupio
De castigo: corrupio cem vezes. É da febre e da dificuldade em respirar por inchaço provocado pela inflamação das vias respiratórias (relatório completo). Desculpas. ;)
Já agora, Póvoa de Varzim.
28/05/2022
Estranhezas
Tenho curiosidade em saber a razão para as minhas (muitas) visitas às Comezinhas serem registadas nos últimos dias nas estatísticas como sendo de Lisboa e Oeiras. Não é que ficasse desagradada com o corrupio de espreitadelas dessas zonas do país, mas à quantidade delas (e ao facto de repente ter poucas do Porto) só podem ser minhas.
Diário

É já uma imagem muito repetida neste blogue. Para quem só aprecia outro tipo de peixinho é uma sensaboria, mas cá vai: abriu a época da caça à sardinha. Pena que houvesse mais olhos do que barriga. A fome não deu sequer para metade do prato. Se ao menos isso de reflectisse na balança seria feliz, mas qual quê: já lá vai o tempo em que tinha boas notícias todas as semanas. Estagnei a perda de peso nos menos trinta e dois quilos. Não é que seja mau até esse ponto (recuei sete anos), mas bem precisava de menos dez quilitos ou um pouco mais (para recuar quinze). Voltar há vinte e tal anos está fora de causa. Ao que parece a introdução o pão (a minha perdição, ao lado de tudo quanto seja hidratos) está a dar cabo do plano que corria segundo o padrão normal até ao mês passado. Enfim, comilona me confesso.
Antes do almoço ajardinei os vasos da varanda e sonhei pela enésima vez com uma pequena casa com minúsculo quintal - quero mesmo arranjar sarilhos. Sucede que mantenho atenção aos sites imobiliários e os preços das casas continuam a subir: agora nem na periferia está ao meu alcance uma pequena moradia com jardim. Continuo a achar absurdos os preços imobiliários, que só se justificam pela compra por atacado por estrangeiros. Para os rendimentos médios portugueses o valor da habitação está exorbitante. Mas de que vale afirmar isto? Num estado que caminha para o socialismo a questão é resolvida com remendos ínfimos (mas muito anunciados e badalados de modo repetitivo) de apoio há habitação económica para os mais desfavorecidos. É assim que entre nós se resolvem os problemas. As empresas de distribuição de electricidade esbulham os clientes? Não faz mal, continuem a fazê-lo e que se criem contratos acessíveis para os mais carenciados. A habitação está cara?, não faz mal, continue a especulação e crie-se uma bolsa de rendas acessíveis para os mais vulneráveis. É a forma de governar à portuguesa. A da esmola.
Houve alturas em que pensei mudar-me para Vila do Conde ou Póvoa de Varzim, mas iria complicar a vida, a menos que ficasse em definitivo em teletrabalho. Ainda assim, é uma ideia para a (distante) reforma: viver numa cidade mais pequena que tenha mar. Não há como ter sonhos, ainda que pouco viáveis. Mantém-nos vivos.
Ainda sem planos para o resto da tarde e noite. Todos os que tinha foram gorados pela Covid. Não sei se leia, se escreva ou faça pura ronha. Ando numa preguiça só.
A ler
- Ventos de Leste. Perante o alarme e silenciamento da “imprensa de referência”, a CPAC, que reuniu em Budapeste a convite de Orban, não deixa de representar uma linha de resistência à ofensiva das “forças do Progresso”, de Jaime Nogueira Pinto, no Observador.
- Trump shares CPAC Hungary platform with notorious racist and antisemite, de Flora Garamvolgyi e Julian Borger, no The Guardian.
- Conservatives want to make the US more like Hungary. A terrifying thought, de Andrew Gawthorpe, no The Guardian.
27/05/2022
Comentários nas Comezinhas
Decidi neste fim-de-semana abrir comentários nas Comezinhas. Não o faço agora por não estar com paciência no momento para ver as definições e configurações. Preguiça. Espero não mudar de ideias. Não é que preveja que existam muitos, sequer vários comentários. Aliás, ao longo destes três anos foram poucas as mensagens na respectiva caixa colocada na banda lateral direita, como são pouquinhos os leitores. Explicar que isto não é vitimização ou pedinchice, mas tão só vontade de ser rigorosa em vez de lírica ou palerma enaltecendo-me à toa como está na moda e reconhecida gratidão aos poucos que se dão ao trabalho de ler as minhas patetices com apontamentos esparsos de sensatez, é tempo perdido, mas ainda assim fica registado o que seria escusado.
Quanto aos que acham obrigatório (não sei se do ponto de vista moral, estou por descobrir) abrir comentários nos blogues, digo apenas que Deus nos livre dos puros doutrinários do pluralismo. Têm sido sempre os mais tiranos, os que baseiam a vida na lei do mais forte, os que mais impõem os seus apetites e preconceitos aos demais e os que mais distorcem a liberdade em seu favor, ainda que façam tudo isto dissimuladamente.
Nego-me a fazer parte ou mimetizar tribos que vendem falsa imagem de perfeição, continuarei a admitir que lido mal com o contraditório: sou um poço de defeitos.
Abrirei comentários por me apetecer. Também por respeito ao punhado de gente que por aqui vai passando, em cujos blogues deixo comentários, não me parecendo justo não dar a oportunidade de se quiserem, palpitar. Naturalmente possibilidade extensível a todos.
*
Adenda: afinal já estão abertos. Foi muito rápido.
Nova realidade

Desta fui apanhada. Tive sorte de estarmos numa fase mais benévola do bicharoco (por enquanto apenas afectada na garganta, com congestionamento nasal e suores). Depois do teste feito à hora do almoço fiquei retida em casa. Ficarei uma semana em teletrabalho. A nova realidade para tantos.
Mais exposição. Falta de noção do ridículo. Falta de bom gosto. Vitimização (última acusação). Que mais? Nem sei. É que não se aproveita nada neste blogue. Nadinha.
Eternos adolescentes
É curiosa a aversão aos relatos realistas de intimidade pessoal ou familiar. Os críticos não desprezam enaltecimentos bacocos de feitos individuais ou de linhagem. Neste oásis à beira mar plantado tudo quanto seja panegírico é social e intelectualmente aceite e louvado. Agora descrever a realidade tal qual ela é ou invocar memórias não abonatórias de si próprio ou dos seus próximos é crime de lesa majestade: egocentrismo, narcisismo e exibicionismo, no mínimo. Matéria esconsa de que se foge, essa a da verdade. Se a autora for mulher, uma menoridade, com toda a certeza.
Eis uma das razões por que nunca crescemos, mantendo-nos eternamente no sebastianismo, a viver de mitos e balelas fantasiosas. Líricos.
Por esta razão o cunho diarístico em Portugal nunca pegou - vulgaríssimo noutras paragens como entre os ingleses. Diários neste país quase não se vêem, a menos que sejam tímidos disfarces deles, tão encriptados quanto o medo dos portugueses em dizer a verdade. Vivemos infantilizados. Continuamos uma sociedade machista e atávica a que interessam mais as esfregas do ego de bravos e impolutos marialvas (ainda que enviesadas ou dissimuladas, isto é, aparentemente depuradas de ego) do que o banal (e rico) relato da vida, das relações e do quotidiano tal qual se apresentaram.
Como reparo que a democratização faz como que os tiques do modo de estar de gente civilizada se disseminem por mimetismo na sociedade ao fim de décadas, ainda vamos ter disto por muito tempo.
A realidade vai continuar a impressionar e assustar eternos adolescentes por resolver.
*
Nota. Neste pequeno texto o corrector da SapoBlogs não reconhece quatro palavras: panegírico, diarístico, atávica, impolutos. Todas elas vulgar léxico.
26/05/2022
Fim do acordo de comodato com Berardo
Será que ainda se vai a tempo de ver a Colecção Berardo em Belém até Janeiro de 2023? Há dois anos estive à porta, mas por faltar pouco mais de meia hora para encerrar não cheguei a entrar.
Diz-se na notícia do Observador que o próximo Museu de Arte Contemporânea poderá conter obras daquela colecção. Não é garantido.
Recapitulando

Nos polígrafos fico a saber o que por aí se diz. Bastante mais informada, é verdade. Resta a dúvida se não se trata do megafone de rumor versus politicamente correcto em vez de detector de mentiras. Em todo o caso, puro entretenimento. That's all folks.
Recapitulando
Hoje não tive muito tempo para pensar, ainda assim a meio do dia ocorreu-me que vivemos numa época em que a verdade passou a ser aferida pela popularidade da preposição afirmação. No reino da moda dos fact check jornalísticos, eles próprios altamente manipuladores, não resta nada à busca de verdade senão o tempo de antena e a notoriedade. As afirmações não valem por si enquanto verdadeiras ou justas, mas apenas como foco de atracção do maior número de adeptos e a forma mais organizada como se juntam em claque e ecoam a sua tese.
A realidade é, ela própria, construída em cima de vagas de disfarces e denomina-se inteligência a habilidade de adequação ao mundo de ficção ilusão assim criado. Um logro só, o alheamento na 'era da informação'.
Vocábulos como ‘facto’, ‘verdade’ ou ‘justiça’ perderam completamente o significado, passando a meros joguetes para atrair likes ou seguidores. E ai de quem disser o contrário - proscrito da modernidade. Vale a forma e a aparência.
Recapitulando
Se há o hábito de pensar na vida, fatalmente se chega à conclusão que o mundo e o conhecimento sempre estarão além. Com maior ou menor felicidade todos os dias se argumenta, todos os dias alguém se debruça sobre fracção ínfima do Universo e tira conclusões. Ainda que tenha o cuidado e a seriedade de questionar o que é preconcebido no raciocínio e aquilo que passa ou não o teste de validação de veracidade, esta será sempre parcial. No dia seguinte, talvez no próprio dia, quando não no exacto momento em que se acaba de proferir a afirmação original, se a postura for honesta, outros raciocínios irão contradizer o pensamento inicial. A procura da verdade é um processo difícil e doloroso, em que a todo o momento se é confrontado com as próprias contradições.
E se há mais de dois milénios no Ocidente – no momento em que surgem os primeiros questionamentos e arranjos filosóficos - parecia possível chegar-se a uma concepção do mundo satisfatória, hoje a tarefa é monumental. Não só o conhecimento do mundo físico aumentou exponencialmente, como os processos de intelectualização do pensamento se foram complexificando de modo absurdo.
E nem é preciso recuar tanto. Se retrocedermos aos séculos imediatamente anteriores - ao tempo das enciclopédias -, percebemos como havia genuína intenção de conseguir reunir em obras mais ou menos extensas todo o saber do Universo.
Onde parará este optimismo e ingenuidade quando comparados com a estupefacção face ao fluxo massivo de dados, informação, conhecimento e sabedoria actualmente à disposição da população mundial? Será que a maioria apenas conseguirá ter a percepção dos dados e da informação – forçando muito a barra, como diriam os brasileiros: o seu julgamento viverá nas sombras da caverna de Platão – e só uma minoria alcançará o conhecimento e sabedoria – ousando mais uma vez: acederá à realidade fundamental das formas ou ideias.
Porém, a questão é: face ao gigantismo da realidade a conhecer, será possível chegar à Verdade, dada a dificuldade de obter uma concepção que explique de forma satisfatória o Universo, o seu funcionamento e o sem-número de ideias que sobre ele versam?
A atitude de alguns é a de se alçar ao patamar do conhecimento e da sabedoria, pisando os que pressupõem a eles não conseguirem aceder, não tomando consciência da fragilidade do próprio conhecimento. Raramente vejo os bem-pensantes admitir erros e contradições. Salvo em falso discurso para dar o ar da tolerância – quando não de condescendência sobre os pobres néscios. Raramente confessam as suas fragilidades e não parecem perceber que sem o fazer não têm ossatura nem o direito de apontar erros a terceiros. Ora, a prosápia é a forma mais infame de desconhecimento – os que têm a possibilidade de aceder ao conhecimento, têm obrigação de perceber os mecanismos de construção do pensamento; têm maior responsabilidade. Sucede que não raro, ao menos em Portugal que é a realidade que conheço, foge-lhes o pezito para a pura maledicência e presunção sem fundamento – se é que alguma vez a presunção pode ter razões de base atendíveis. Perdem-se em injúrias contra a ignorância atrevida, a ignorância voluntária; em suma, contra a estupidez. Odeiam o mundo da discussão das massas, ficam de pêlo eriçado quando observam uma mulher ou um homem fora do mundo académico, fora do gueto de amigos intelectuais, fora da tribo daqueles que preconcebem como pessoas que se podem ouvir ou ler. Nuns casos, a arrogância é de tal modo doentia que são incapazes de escutar ou decifrar o que dizem os anónimos por falta de pedigree (e por contraposição aos peões dos palcos formais e institucionais do conhecimento), noutros a falta de seriedade é de tal ordem que ouvem e lêem estes homens e mulheres desconhecidos e aproveitam abusivamente os seus contributos, sem jamais os considerarem como iguais ou reconhecerem a validade do seu pensamento.
A título de exemplo, esta arrogância face ao presente texto ditaria qualquer coisa do género: olha, uma atrevida ignorante a tentar numa passagem dar o ar de inteligente, com paralelo infundado e desajustado a Platão sem perceber nem aprofundar, por ignorância voluntária, o estudo da obra. A presunção exigiria três citações, quatro referências bibliográficas e uma menção a amigo interessado rotulado de eminente pensador, para que o texto pudesse ter validade. Quando a simples abertura de espírito e humildade ditaria que antes de etiquetar o presente texto como lixo, se pudesse talvez vislumbrar numa simples linha ou par de palavras, um pequeno e modesto rastilho para pensar.
Mas não, o julgamento será: é muito atrevimento, muita ignorância, muita estupidez.
O mesmo acontece aos incalculáveis milhões de observações de desconhecidos encontradas no espaço online. A mais pungente manifestação da Democracia – as redes sociais -, não é necessariamente um esgoto a céu aberto como tantos querem fazer crer. As redes sociais têm muitas fragilidades, mas estão expostas e as suas falhas são na maioria das vezes assumidas pelo pensamento dominante. Ao contrário das debilidades de quem só conhece livre pensamento (esclarecido) nos canais recomendados, tantas vezes por critérios pouco claros e pouco honestos. Na melhor das hipóteses, por medo de ser engolido por essa onda gigante de opinião.
Recapitulando

*
Tal como julgo ter esgotado por uns tempos os postais sobre a insensatez de não se ouvir o que têm a dizer os extremos mais à direita, depois de em Portugal passarmos quatro décadas de beneplácito com os extremos mais à esquerda, vou tentar secar de uma vez o tema dos fact-checks, polígrafos e afins. Ciente que não vou conseguir e que, como se costume, me vou meter em mais uma alhada interminável.
Quem tenha assistido à forma como a mentalidade predominante evoluiu nas últimas décadas e presta atenção no modo desajustado com que se diz repôr a verdade dos factos com esse tipo de mecanismos, percebe que esse mundo é um saco de gatos onde cabe tudo: desde factos propriamente ditos a preconceitos, suposições, intenções e juízos de valor e tudo mais quanto se possa imaginar.
Quem tem uma noção do que é o Direito sabe o quão ingénua ou perversa é a ideia daqueles acreditam ou dizem acreditar que a interpretação da lei se faz por juízos objectivos. Julgar o Direito mera questão técnica é uma tolice. Para lá de todo o conhecimento da lei propriamente dito e da técnica, está o espírito da dita e é ele que guia a interpretação ou julgamento mais correcto. Não se pode interpretar uma lei, sem perceber a sua causa, aquilo que lhe deu origem. Muito menos aplicá-la ao caso concreto. E até o espírito da lei pode ser questionado porque, como tudo na vida, obedece aos critérios de tempo e espaço.
E vem isto a propósito da dificuldade de fazer juízos de valor válidos sobre o quer que seja, incluindo factos. E se isto é assim para gente que está habituada ao estudo e interpretação das leis – disciplina com uns séculos de experiência -, imagine-se para os detentores há relativamente pouco tempo do poder de divulgação de notícias e escrutínio dos vários poderes instalados na comunidade e a tentação que existe de se arvorarem em juízes supremos de todo e qualquer comportamento humano.
E é neste contexto que vemos gente convencida – sem qualquer hesitação de tão inteiramente convencida -, de ser capaz de julgar como verdadeira, falsa ou talvez nem tanto determinada afirmação, sem se dar ao esforço de perceber nada do que está por detrás de cada declaração produzida. Percebendo zero da causa das coisas. Correndo para o que mais parece interessar hoje em dia: intenção de julgamento rápido. Os fact-checks dos jornalistas caem no mesmo logro das redes sociais. Acreditam ser detentores do poder de julgamento e com isso pretendem fazer vingar a mentalidade dominante. A mais atraente para cada um destes auto-investidos juízes.
O que me levou a escrever as linhas precedentes foi a constatação de que há jornalismo que usa as redes sociais como fonte e ganha-pão e, para cúmulo, em vez de estar agradecido, destrata-as para se arvorar em grande senhor dos factos. Ora, as fontes – agora com voz própria audível e com todos os vícios que sempre tiveram -, merecem respeito. As redes sociais, ainda que não embelezem a democracia, são a mais pungente manifestação da dita.
25/05/2022
Nebulosa
Talvez tenhas exagerado nas recapitulações ao republicar várias de uma vez. Nem sequer foi uma seriação muito cuidada. Adiante. Desde ontem andas com ideia de escrever uma nebulosa sobre a dificuldade em dizer exactamente o que pensas. Há épocas em que o terreno parece estar minado. Custa-te menos expores a intimidade – e custa muitíssimo, apesar de poder parecer que o fazes de ânimo leve – do que declarares o que pensas verdadeiramente sobre o tempo presente e o que se avizinha ou pelo menos algumas ideias que te assaltam ocasionalmente. Se fizesses associações entre as desgraças actuais e passagens bíblicas serias de imediato rotulada de louca – como se estivesses a salvo, enfim. Se revelasses premonições logo serias etiquetada de cretina fora da realidade e do tempo. Se te permitisses expressar de modo claro a inviabilidade de um planeta com oito mil milhões de pessoas e a inevitabilidade de uma redução drástica na população mundial serias catalogada de uma assentada de louca, burra e, sobretudo, desumana. É difícil viver e tentar pensar em voz alta num tempo no qual em cada esquina está um piedoso e convicto cientista de trazer por casa pronto a dar ordem de excomunhão ao senso comum com o aplauso dos intelectuais da praça muito contentes com a liberdade que se respira à volta do seu umbigo.
Se tivesses arte e sabedoria suficiente para criar ficção digna de retratar o tempo presente, poderias escapar ao cativeiro. Mas não tens. Foge-te o pé para a realidade, por mais inverosímil que a tua visão possa parecer a olhos alheios. Além do que te falta arcaboiço de conhecimento acumulado para chegar aos vértices de cada questão. Por outro lado, sentir-te-ias ridícula e falsária pondo-te em bicos de pés, vivendo da aparência a debitar sapiência colada a cuspe como se fosses uma qualquer erudita – num tempo em que é cada vez mais fácil e há mais artifícios para dar o ar de que se sabe. Sabes pouco, além do que o senso comum e a atenção ao mundo te permite conhecer. E não podes deixar de frisar uma vez mais ideia tão repisada nas Comezinhas: o constante abafar e ridicularizar do senso comum em prol da doutrinação e da valorização da aparência gera o descambar do próprio bom senso em agressividade, ódio e violência.
O conhecimento da história da evolução da humanidade e da própria ciência não é incompatível, antes pelo contrário, com a valoração da força da Natureza no Universo. Reparas que é cada vez mais comum a ignorância e petulância na invocação da ciência e da erudição. Notas que a intolerância é cada vez mais aceite se tiver sinal positivo, isto é, se for proveniente de quem tem voz. E mais, cada vez mais confundida com Liberdade.
Recapitulando
Foi apenas há meio ano e vários temas eclipsaram-se nos dias correntes, como se não estivessem presentes.
*
Mistela de apontamentos
Ainda não são onze e a noite sem pressa espera por um dia de intervalo. Pergunto-me que dirão entre si os casais por essas casas fora em Leiria, Freixo de Espada à Cinta, Tavira, Odivelas. Que cogitarão os mais velhos ensimesmados? Morreram mais de 5 milhões de Covid no mundo e quantos – outros tantos? - por falta de tratamento. Uns seriam outros, outros próximos. Família, amigos, colegas de trabalho ou a estes relativos numa rede que não tem fim. Abraça o mundo inteiro numa irmandade de apreensão. Conhecidos daqueles com quem se trocam meia-dúzia de palavras na rua, no elevador. Conhecidos com quem se convive diariamente durante anos. Todos de uma forma ou outra foram tocados pelas consequências da pandemia, que voltou a ser tema principal das televisões e redes sociais com a entrada em cena da nova variante de vírus.
Pergunto-me que discutirão os grupos de jovens encostados nos muretes das zonas habitacionais. Na solitária troca de mensagens instantâneas de uma qualquer rede social com outros jovens a 10, 100, 300, 3000 quilómetros de distância. Enquanto estudam ou jogam online, ou jantam refeições pedidas numa qualquer plataforma de entrega de comida. E os solteiros e divorciados, que impressões trocarão com os namorados, familiares e amigos? Para além das frases curtas a que o mundo instantâneo nos subjugou. E os que vivem sós por escolha ou não e que pouco falam com outros – que pensarão? Questiono-me o que vai na cabeça das crianças pequenas também já agarradas aos jogos online e redes sociais, como há 30 ou 40 anos os miúdos se viciavam na televisão.
Em Dezembro – entra já amanhã – fará dois anos dos primeiros ecos não velados sobre a Covid. Imediatamente antes – um mês?, dois meses?, mais? - já havia movimentações por parte de organismos multinacionais a sugerir uma mudança repentina na nossa vida para que era preciso estar preparado.
E nós? Os que não sabemos nem fingimos saber mais do que os nossos concidadãos e com eles vamos partilhando as nossas apreensões, incertezas, zangas. Os que vamos indo e vendo, tentando apalpar a torrente informativa para perceber o que nos espera. No que devemos acreditar?
As conversas na maioria das casas ainda devem continuar a passar pelos mesmos assuntos. Alegro-me ao ler que ainda é na família que os portugueses mais pensam. Segue-se, por esta ordem: trabalho, comida, tarefas domésticas, sexo, amigos e futebol. São as conclusões de um desses estudos recentes que enchem as páginas da internet. Com certeza não incluíram o vírus pandémico nos questionários. De qualquer modo a ser assim há uma certa normalidade, salvo o facto de não sobrar tempo para pensar na vida – e são tantas as formas de o fazer, por exemplo, através da expressão artística, activa, passiva ou assim-assim. Não é novidade que haja pouco tempo para parar e pensar. Nunca esse tempo entrou para as médias. O que não diz tudo, porque também não se contabiliza o tempo de intriga e maledicência e esse ocupa um lugar cimeiro desde que o mundo é mundo. Há estudos até que dizem ter sido um dos contributos para o aguçar da inteligência humana.
Olhando uns períodos acima, não posso deixar de indagar se depois de pensar tanto na família, no trabalho, na comida e nas tarefas domésticas, não se esquecerão do sexo. Não é por nada, ou melhor até é, quanto mais não seja pelo desequilíbrio emocional que daí pode advir. E não estou a fazer apelo a surubas, mas ao tão banal e intemporal uso antigo de fazer amor ou foder, ou as duas coisas em simultâneo para os mais afortunados.
Resumindo. O que mais fazemos é trabalhar fora ou em casa e enfardar, sem tempo de parar para pensar. Ainda assim não alinho nos insultos sobre a estupidificação que daí advém. É só estar atento para perceber que o ócio não é caminho garantido para o conhecimento ou a sabedoria, nem para a felicidade, assim como sabemos que fanáticos do trabalho podem ser óptimos pensadores, além de gente contente consigo mesma. Não é por aí.
Mas reflectindo ainda um pouco sobre os resultados. Não são maus de todo. Se traduzirmos família por amor - afinal é no seu seio que brota parte importante da afeição, do cuidado, da pertença – vemos que no mundo, apesar dos mais de 5 milhões de mortes por Covid, mais uns tantos inquantificáveis por falta de tratamento, os valores ainda não estão invertidos. Haja esperança.
O que pensarão e em que conversarão os jovens, crianças, conjuges, solteiros e divorciados e os mais velhos por esse mundo fora? Para além das frases curtas. Nem me pergunto por aqueles que têm algum conforto material como nós, mas pelos refugiados na floresta da fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, os que fazem a travessia no Estreito de Dover. Na família com certeza, nos muitos que perderam pelo caminho. No sonho longínquo de arranjar trabalho. No delírio de um prato de comida quente e uma manta. Em água para se lavarem. Tudo isto numa voragem de partir de onde a vida é madrasta e percorrendo milhas de tragédia em tragédia com os olhos postos na terra prometida que não os deseja e hesita entre recebê-los e fechar as portas, devolvendo-os à tragédia inicial ou a uma qualquer outra intermédia. Os nigerianos ou moçambicanos a quem não chegava a pobreza para agora se verem a braços com a violência brutal dos terroristas islâmicos? Ou as afegãs obrigadas a voltar ao obscurantismo? Os uigures “reeducados” nas prisões chinesas? As raparigas desaparecidas e mortas no Peru ou o México por violência doméstica ou tráfico humano? As crianças vendidas para tráfico sexual nos civilizadíssimos países da Europa Central? Onde andará a família?
Entretanto passam onze da meia-noite.
Recapitulando


Hoje pela fresca tinha planeado escrever sobre o efeito anestésico da Covid-19 no mundo presente. Por sentir que os conflitos armados, as migrações, a seca, a fome e demais questões de relevo humanitário saíram do radar dos sound bites ou realidade paralela em que vivemos, comecei por procurar informação sobre os conflitos armados em curso. Não é fácil. Se fossemos avaliar a existência destas realidades pelo peso que lhes é dado, diríamos que o vírus as debelou. Ou pelo menos parece que o tempo presente ficou suspenso com a pandemia.
Em vez de horas a fio de dissecação sobre os estados de espírito de Trump e dos seus apoiantes, quem repara nas bandas de Caxemira, onde ao fim de quarenta anos de conflito e reivindicações territoriais entre a China e a Índia sem registo de mortos, na Linha do Controlo Real, há pouco mais de um mês havia combate corpo a corpo com mortos, no vale de Galwan, em Ladakh?
Em vez das extenuantes horas dedicadas à contabilização do número de bifes que deixam de pastar na areia das praias portuguesas e espanholas, quantos pensam no terror que se vive no Norte de Moçambique, onde os terroristas islâmicos continuam a executar e decapitar populares dos territórios que vão ocupando? Os ataques não ocorreram há anos, estão a decorrer nos últimos meses.
Ao invés da nova modalidade desportiva que consiste em ilustrar demorada, minuciosa e diariamente a patente debilidade de Bolsonaro, quem dá atenção à militarização do Mar do Sul da China; à exibição de poderio militar e medir de forças entre Estados Unidos e China?
Ia passar ao tema das migrações, mas recebi emails da empresa que faz a gestão de condomínio do prédio onde vivo: 3.050,33 euros de despesas extras com reparação do elevador e obras gerais. Ponho logo os patas no chão, ciente que esta é que é a minha guerra. Lá para Setembro, quando tiver férias, terei muito tempo para voltar a debruçar sobre as desgraças do mundo, já que agora é certo que nada de veleidades com viagens ou mesmo escapadelas de três ou quatro dias. Vou ter imenso tempo nas duas magníficas semanas de repouso no resort cá de casa, com banhos de sol na pequena varanda e mergulhos no jacuzzi natural proporcionado pelas fissuras das bichas do chuveiro do chinês de primorosa qualidade (da próxima tenho que voltar a uma tradicional drogaria, caso contrário continuarei a trocá-las à média de duas por ano). E, claro, vou ter a oportunidade recreativa de constatar que todas as poupanças do ano foram à viola. E ainda dar largas à criatividade para ver como reponho o rombo. Só vantagens como se pode imaginar.
Tudo isto acontece três dias depois de ter posto em consideração uma oportunidade profissional (real e palpável, ao contrário das habituais), que implicaria mudar de cidade, tendo decidido manter tudo como está face à constatação de que um pouco mais do dobro do meu salário actual não compensaria a mudança. Nem a paz que o Porto me dá, apesar dos pesares.
Recapitulando
Passam apenas dois anos (e três meses e meio) sobre este postal. Não foram dez ou vinte anos. O mundo volve-se rápido. E tende a mostrar-se cada vez mais desconcertante, cada vez mais perigoso.
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Nomes feios

Como crianças brincamos no recreio e, por qualquer capricho, chamamos nomes feios aos outros quando não ficamos em primeiro lugar no jogo. Ou, quando ficamos em primeiro lugar e os outros amuam. Substituímos os é batotice, és burro, és camelo e quem diz é quem é por néscio e, claro, por fascistas, racistas, feministas, marxistas e demais insultos arremessados entre trincheiras que, sobrevoadas por um olhar mais distante, pouco se distinguem entre si.
O nosso é um recreio de escola rica ou, pelo menos, remediada. E quanto mais insultamos os outros, mais claro fica que não sabemos o que são tragédias, dramas ou dificuldades, como a fome, a pobreza, a solidão, a guerra e o genocídio.
A nossa fomezita é de a do prato menos cheio na cantina na escola, mostrada em reportagem televisiva para servir de argumento da oposição quando um qualquer governo faz cortes porque o país está endividado até ao tutano, a mesma cantina que meses depois serve para falar do combate à obesidade e da necessidade de uma alimentação mais saudável. Não é a fome que cola as paredes da barriga, a da subnutrição, da magreza extrema, não é aquela que se espelha num olhar que salta da cara e tenta disfarçar quando pousa num prato de sopa e um naco de pão, transformado em ambrósia, o manjar dos deuses. Não é uma fome envergonhada.
A nossa pobreza é a das casas de bairro frias, com humidade e rachadelas. É a do pão com rissol ao almoço, a da roupa, do calçado e dos guarda-chuvas baratos do chinês. É a do calor forte nas férias do verão, com piscinas insufláveis de plástico na varanda e a ventoinha ligada na sala, junto à televisão que, às vezes, faz cair o quadro eléctrico, quando a ela se soma o grelhador das febras. É a do carro com tinta desbotada e enferrujado estacionado à porta de casa. Não é a das moscas pousadas na cara, das tendas montadas na lama, das filas para aceder à água potável, ao alimento ou à aspirina, ou dos barracos de lata, dos piolhos, das pulgas, do esgoto e fossa a céu aberto, e do buraco comunitário. Não é a pobreza da mulher que sonha com uma cama de lençóis lavados e macios e uma retrete e um lavatório com água como quem deseja um palácio. Não é a de quem nunca teve nada ou ficou sem nada. Nada. Não é uma pobreza muda.
A nossa solidão é a do egoísmo. A do cada um por si. É contra os outros. Às vezes contra todos os outros. É a das angústias existenciais e circunstânciais. É a da distracção, da falta de tempo, do menosprezo. Não é a solidão do mendigo que dorme nos cartões à nossa porta, perdido de bêbado ou simplesmente perdido nos pensamentos de tanto tentar afogar algum desgosto familiar, desespero financeiro ou doença mental. Não é a solidão do Sr. António que já muito velho foi resgatado da rua e alojado e empregado por um qualquer benfeitor e que, no dia em que lhe foi feito um lanche para cantar os parabéns dos 80 anos, revelou ter sido a primeira vez na vida que festejava um aniversário. Não é a solidão calada de uma vida inteira.
A nossa guerra é a guerra das televisões, dos misseis que caem em países lá longe, que não sabemos bem onde ficam no mapa, por não fazerem parte dos nossos roteiros turísticos, mas ficamos a conhecer por as gentes de lá, com telemóveis como os nossos, nos fazerem visitas guiadas às cenas de conflito. É a guerra de estratégia dos políticos e generais de facções, das conferências da ONU, das declarações vãs de boas intenções dos seus secretários-gerais. É guerra de quartel ou protegida, que dá belas historietas para almoçaradas e palmadinhas nas costas dos comensais ou puro aproveitamento para protagonismos. Não é a guerra calada das vísceras à mostra do camarada em agonia, não são os segundos decisivos para o soldado matar ou morrer, não são as solitárias e difíceis decisões do graduado. Não é a guerra do olhar silencioso e cúmplice entre camaradas quando se diz o nome de um homem, de uma terra ou de uma data.
O nosso genocídio não é, simplesmente. Não é o cheiro sentido por uma criança da carne da sua mãe, do seu pai, dos seus irmãos, a ser queimada e da visão das cinzas a cair nos seus pés. Não é, ainda.
Por isso, não me venham com merdas de marxistas e fascistas, sff.
23/05/2022
Vida bónus
O número de vezes que corrijo textos à posteriori colocando ou tirando vírgulas, acentuando, eliminando gralhas e podando falhas de concordância originadas por correcções anteriores daria um terço de vida. Outra terça parte seria absorvida pelo tempo de arrependimento por acções comezinhas, sem significado especial no cômputo da existência e no que conta para a verdade. O último terço seria preenchido pelas dúvidas e hesitações.
E eu a pensar que isto passaria com a idade.
Deveria ser bafejada com uma vida bónus para compensar esta imperfeição. Uma vida novinha em folha e mais fácil de acertar - por uma vez. Há momentos em que invejo as pessoas que têm certezas ou se convencem que quase não erram.
Banda sonora desta tarde
Passei a tarde inteira ao som de Mário Laginha. Não coloco os vídeos, uma vez que as Comezinhas hoje já estão muito povoadas deles. De qualquer modo, quem tiver interesse em ouvir o pianista tem muito por onde escolher no YouTube. A grande parte do que escutei foram actuações com a participação de Tcheka, uma descoberta da semana passada que valeu bem a pena.
Boa semana.
A ler
US would defend Taiwan if attacked by China, says Joe Biden, no The Guardian.
In Beijing, the foreign ministry spokesperson Wang Wenbin said the Taiwan issue was “a purely internal affair for China”.
“On issues touching on China’s core interests of sovereignty and territorial integrity, China has no room for compromise or concession,” Wang said.
Wang said China would always defend its interests with the force of its 1.4 billion population. “No one should underestimate the firm resolve, staunch will and strong ability of the Chinese people in defending national sovereignty and territorial integrity,” he added.
Gilmário Vemba
Há dez anos achava um piadão à Joana Marques no Canal Q. Para dizer a verdade, há dois ou três anos ainda achava graça. Entretanto foi içada ao mainstream passando a fazer parte da tribo intelectual sobranceira – o percurso tipo da praça portuguesa. Perdeu a graça.
É também por isso que sigo com agrado os primeiros passos em Portugal do humorista angolano Gilmário Vemba na Rádio Comercial. Viva a frescura.
22/05/2022
Diário
E caio outra vez em mim. Desfaz-se o fim-de-semana assim: esdrúxulo. Deve ter sido das poeiras do Sul. Virão outros mais normais. Se bem que durante algumas semanas não sejam de prever serenidades e grandes descansos caseiros. Para a próxima temporada estão previstos: corrupio cá em casa, ida a Almada e ao Algarve (até que enfim). Tudo normalíssimo, não fosse cada pequena alteração da rotina já bulir com a pacatez habitual. Hoje darei por terminada a última incursão em Camilo. Acho que amanhã vou pegar nas Crónicas do RAP, ainda tenho várias por ler e são óptimas para esvaziar o cérebro.
A minha multidão X
Estava a terminar o século XX quando me aventurava em conversas pelo mundo fora com o meu inglês macarrónico. Nesse tempo conheci uma neozelandesa, um kuwaitiano e um americano. Com estes conversei durante algum tempo. Mas nem todas os conhecimentos virtuais foram tão inofensivos. Alguns derraparam e não falo apenas dos tão conhecidos descambares para o sexo, como também de ligações "afectivas" (sui generis, vá) sem essa componente. Tenho plena consciência do risco que corro ao relatar estas memórias apesar de não expôr ninguém senão a mim própria - no mínimo serei catalogada de tonta, no máximo de bem pior -, mas também sei perfeitamente que estas memórias são bem representativas do mundo verdadeiro que se desenrolou nas últimas décadas para muitos e muitas. O tal quase sempre remetido para o esconso, como se fosse vergonhoso. O tal na maioria das vezes dissimulado. Ou tratado com meneios intelectuais ou de mera etiqueta social que servem mais de disfarce ou justificação moral do que para retratar a realidade. Serei por isso directa tanto quanto possível.
No calor de um Verão tropecei em ti, um texano. Fosse pelo imaginário de cowboys de miúda, fosse pela atracção pela natação e por piscinas, o diálogo descarrilou. Foi a estreia nas derrapagens virtuais. Na memória guardo apenas a absoluta tonteria.
Já a segunda escorregadela foi pior. Durou dois meses. Eras um típico impostor português que tratava de inventar personagens com vida pessoal e profissional adequadas a ludibriar miúdas tontas na internet. Coisa de matarruano promovido. Percebi anos depois que andavas à cata de material para escrever medíocres e entediantes historietas. Estou certa que ao ler isto a maioria dos leitores pensará: quem anda à chuva molha-se - outra forma de dizer: puseste-te a jeito. Típico pensamento que permite que a pior escória ande à solta impune. A complacência da maioria com a pulhice é infinita. De todas a pessoas com quem me cruzei na vida és a única que me causa verdadeiro asco.
Tu vivias em Connecticut e, como gato escaldado de água fria tem medo, temi que fosses mais uma personagem. Hoje não creio que fosses e, nesse caso, devo-te um pedido de desculpa pelo facto de ter desaparecido quando me disseste que ias enviar um ramo de flores. Assustei-me.
Tu eras o arquitecto mais passado que algum dia conheci. Estou para saber que raio de erva fumavas antes de me descrever os teus projectos de construção. A coisa era totalmente surreal.
Tu eras um militar português estacionado numa qualquer parte do mundo. E não há história.
Por fim, tu foste meu colega de liceu e acabámos por tropeçar nestas vidas online. Pronto, é sabida minha pouca resistência a músicos que sabem verdadeiramente de música.
A minha multidão IX
Esforço-me por lembrar como eras. Alto, cabelo ondulado, olhar doce e traquina. Mais velho dois anos, como seria de esperar. Fugíamos do Pau de Giz para o Kasbar. Os primeiros cigarritos fumados inteiros a meias, os risos nervosos de descoberta, os carinhos e as ousadias. Recordo-te a ternura. E a minha quase eterna minhoquice de rapariga. Depois das Caves do Vinho do Porto, inventei-te defeitos para me afastar, injustos, palermas. Fruto apenas de meros medos e tolices.
Em ti tropecei por estranho equívoco. Suspeitavas que era eu a autora de papelinhos anónimos apaixonados, mas não, eram da vizinha. Sorte a minha que com o engano acabei por lucrar. Jamais me passaria pela cabeça endereçar bilhetinhos, mas bem me lembro de alguma comoção quando a porta do elevador abria e de lá saías: lindo, sedutor, reservado. Foi coisa fulminante seguida de namoro complicado, a mim sobrava-me entusiasmo e contínua confusão, quando tu já estavas na idade de ansiar por assentar. As permanentes reuniões com a tua família entediavam-me. A minha cumplicidade com os meus amigos aborrecia-te. Acabaste por perceber que não te convinha. Na verdade, o resumo poderia ser este: tu andavas à cata de menina prendada - logo a seguir, encontraste e casaste -, e eu só te achava lindo e estava na idade que isso bastava.
Recordo como se fosse hoje a noite no Labirinto em que dei por mim apaixonada. Conversávamos, tu falavas para me impressionar como sempre foi teu timbre (não, dizes tu, nada disso) quando dei por mim a flutuar. Sabia que se estivesses a recitar as páginas amarelas o efeito teria sido o mesmo. Sempre adorei a tua voz: a alegria, a doçura e educação que transportas. Foi coisa diferente de tudo o resto, cumplicidade perfeita, não fossem uma vez mais as minhas minhoquices. Vá, e a realidade. Tudo estava contra nós. Não foi um amor conveniente o nosso, antes sim um amor em contramão. Mas contra tudo o que de mau nos rodeava e desaconselhava conseguimos sempre encontrar entusiasmo na descoberta. Lembro dos atropelos para contarmos as viagens, algumas com coincidência dos destinos. Lembro da forma como nos dávamos a atenção que nunca outros nos houveram dado (senti isso e mais tarde revelaste-me o mesmo), da preocupação mútua e, devo confessar, do meu lado a primeira e única vez que percebi o sentimento de ser alvo de admiração e orgulho por parte de um homem com quem me envolvera (recíproco, diga-se). E recordo tudo o resto. Contigo deixou de haver tempo e espaço para embiocar com o quer que seja, mas tão só para aproveitar a vontade para nos deixarmos ir, com ganas e completamente livres, a saborear o que de melhor há nesta vida. Sob o ponto de vista do entendimento mental também não era coisa difícil de resolver, sempre houve afinidade quase telepática, apesar de não ter sido paixão à primeira vista. Começamos como amigos, encantei-me por ti mais tarde. Ainda hoje, vivendo juntos, a amizade prevalece. Ao fim de quase vinte e dois anos com oito ou nove de afastamento pelo meio, com altos e baixos, com épocas de paixão e outras sem ela, a cumplicidade e a confiança nunca se perderam.
Olhei para ti como uma espécie de salvação. Vinda das confusões de um engodo seguido de uma paixão não recomendável, vi em ti, rapaz da minha idade e vida pacata, um regresso à normalidade. Até hoje estou para saber se o que senti foi paixão ou fuga em frente. De qualquer modo, tive azar, remoías no teu coração um desgosto de amor e procuravas apenas distracção. Senti-o como ofensa que magoa.
Ficámos com uma viagem a Bagdad por fazer, além de muitas gargalhadas por entoar. É a vida. Contaste-me a tua caminhada de fio a pavio com sessões de fotografias desde a infância. E eu o meu percurso sem imagens. Cusquei os teus discos e tu admiraste a forma como adivinhei aos primeiros acordes as músicas que ias passando - foi pura sorte, calhou termos gostos parecidos e teres testado com as poucas coisas que conhecia. Tocaste-me guitarra eléctrica e teclado, falaste-me do Pat Metheny e apresentaste-me a Accuradio que ainda hoje oiço. Nunca estivemos apaixonados, mas a memória que ficou é risonha. Ligaste-me a última vez quando já não havia da minha parte possibilidade de reencontros. Espero que também tenhas encontrado quem te aconchegue.
Além da compulsão pela escrita a ideia que mais retenho de ti é a sofreguidão. Também a ânsia permanente e as fúrias com aquilo que consideravas a mediocridade de tudo quanto se mexe. Nunca percebi o que viste em mim. Possivelmente uma mera curiosidade. Houve alguma afinidade de opinião no desencanto com as podridões do país, mas percebi que esse desencanto com a realidade tem mais a ver com a matéria de que nós próprios somos feitos, do que com a dita cuja. À parte dos bitaites nada nos aproximava. Nunca estivemos apaixonados. Foi um erro de casting. Pelo que fizeste muito bem em tomar a iniciativa de te afastares. Espero que tenhas encontrado alguém que dê um pouco de luz a essa negritude.
21/05/2022
Coisinhas boas
Há pequenos pormenores dos dias que os pintam mais aprazíveis. Pequenas felicidades. Este ano as laranjas, as mais vulgares laranjas vendidas nas grandes superfícies, têm sido deliciosas. Para quem gosta muito de fruta e, em especial, de citrinos, tem sido uma boa temporada para o simples palato.
Vou ali dentro à cozinha descascar uma, mnhamm.
O espanador - Nova Zelândia

Ânimo
Ao longo dos anos tem-me sido oferecidas pens com música. Das ofertas que mais aprecio. Depois de uma noite de total apatia e uma manhã difícil, coloquei a última pen ofertada e abri a pasta de Bobby McFerrin, a ver se largo esta apatia aparvalhada, espevito e começo a pegar no fio à meada das tarefas pendentes.
Vá, mexe-te lesma.
20/05/2022
Assuntos desagradáveis
Uma das únicas três pessoas a quem contou a história, ainda que não com os pormenores da forma como foi premeditada e reiteradamente ofendida, enganada e injuriada pela mais repugnante escória, disse-lhe que face a tudo só se admirava como sobrevivera sã. Aliás, não foi assim que disse: chamou a atenção para o facto de ser preciso ser mentalmente muito forte para encarar tudo aquilo. O que a surpreendeu. Nessa matéria não se tinha em grande conta. A ideia de se ter deixado enganar era prova da sua fragilidade. Gostaria de ter a tal força mental, mas não, não achava que a possuísse. Perguntava-se quantas pessoas seriam sujeitas às mesmas velhacarias. Havia momentos raros em que se sentia única no azar, mas na maioria das vezes constatava que não – é mal do tempo, pensava. A cobardia com que pulhas tentam desfazer vidas alheias de modo dissimulado e não verificável deverá ser mato nos últimos vinte anos. Como foi mato de outras formas desde que o mundo é mundo.
Não tinha nenhuma intenção de confrontação directa, por não estar para se sujeitar ao ridículo e à pocilga onde essa gente gosta de chafurdar. Com isso contava o canalha viscoso, impune como sempre, a debitar lições de erudição e moral. A ela era suficiente que o próprio e os pajens que o encobrem soubessem o asco que são e inspiram em gente decente. Um pulha nunca age sozinho, tem sempre muitos a apascentar, a encobrir. Dos que todos os dias acusam meio mundo das piores vilezas com a mesma convicção que defendem pulhas amigos, difamando ou destruindo pela calada quem for preciso para o efeito. Podem enganar meio mundo, mas nunca deixarão de rastejar no próprio visco.
A Justificativa
Se este blogue fosse rebaptizado, chamar-se-ia A Justificativa. ![]()
Quanto mais dás de caras com a injuria e o maniqueísmo digno das piores telenovelas transformados em opinião literata, mais vontade tens de te culpar por todos os males do mundo. Queres distância desses lugares onde impolutos sempre certos da sua superior moral e inteligência pintam os maus com todas as perversões do mundo - as que lhes cabem e as que é anedótico serem-lhes atribuídas. E os bons como anjos celestias. Não interessa a verdade, interessa sim ser caceteiro, pintar um quadro a que a populaça adira, como adere aos enredos primários das piores telenovelas. O drama é que quem actualmente faz os roteiros da informação é a considerada elite portuguesa. A que, sem estofo nem sensibilidade, vergou ao mundo do marketing, acreditando que a realidade é o que nós fizermos dela. E de facto tem-na feito, cada vez mais pífia, cada vez mais vergonhosamente aldrabona.
Agenda

Aproxima-se o fim-de-semana. Uma vez que me adiaram o compromisso da manhã de Sábado e ficou adiado por uma semana o jantar com amigos, vai ser mais um fim-de-semana trivial com algum tempo para escrever. A ver se finalmente termino a primeira ronda do Espanador, escrevendo um pequeno nada sobre a Nova Zelândia, e se arranjo lenha para desviar a atenção do umbigo. Qualquer coisa que consuma o juízo e me desencaminhe para rota menos bafienta. Quem sabe o tal segundo Espanador, mais europeu. Pelo meio, e regressando ao umbigo, agora relacional, estão em vista mais dois postais para a Minha Multidão, ainda por redigir.
Entretanto pela enésima vez, a cronologia da Covid não está de todo esquecida, apesar de nada ter escrito. Saber que continuará a tomar a nossa atenção é fraco consolo para este sucessivo protelar do escrito.
Heróis
Há anos ouvi um douto comentador e poeta admirar-se com a franqueza de autora maior portuguesa. Pela singularidade de expor as fragilidades dos seus antepassados. À época como hoje, só estranho a dificuldade em perceber que nada de válido é escrito temendo a verdade, muito menos receando a própria dor ou podridão. O resto é treta para entreter e vender imagem. Deus nos livre dos heróis de trazer por casa.
Muito do que é dito nas Comezinhas soa a preciosismo? A mania? A justificações a mais? Sim, é isso mesmo.
Tal qual é.
