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08/05/2022

A minha multidão I

Há dias deixei expressa a vontade de escrever sobre os outros. As pequenas surpresas com que me deparei. Apontamentos de memória soltos sobre gente. Porquê escrever sobre isto? Na verdade não me alimento há muito do que é vulgar. Sei lá, músicas mais recentes, bom cinema, séries dos canais por subscrição, quotidiano político, moda, gastronomia, viagens, esse tipo de conteúdos que preenchem muitos espaços online. Nem sinto especial falta da maioria deles. Talvez por isso para além de comentários pontuais sobre política, notícias do mundo, música, animações e relatos do dia-a-dia recorra com frequência ao mundo íntimo, pessoal e das relações. Não me dá prazer especial escrever sobre o que vi, ouvi ou assisti como espectadora. Ou a coisa mexe com o que sinto e penso, tocando os pontos nervosos certos, ou não sai nada que valha a pena. Estando longe de ser uma pessoa com vida social intensa, como todos ao fim de 48 anos conheci bastante gente e mesmo sabendo do egocentrismo e estranheza que transporto, a verdade é que nos outros que está a riqueza do meu mundo. É um mundo crítico, é certo. Mas não certamente oco. Há uma multidão que me envolve, como já aqui descrevi no postal Sonhos e não me tem deixado só. Uma forma desleal de trazer esta multidão às Comezinhas seria, como outros, fazer-me próxima de quem interessa para causar impacto e enaltecer-me à custa desses conhecimentos ou sacar informações sob anonimato e usar o que me contaram para vender o que escrevo. Não é isso que farei. Quem me conheceu, encontrou sempre a mesma pessoa, com identidade definida e todas as falhas bem à vista. Prezo muito a multidão que vai fazendo parte da minha vida para a trair. Estive e estarei inteira diluída entre a multidão.


Não desconheço a velha máxima que diz que gente mesquinha fala sobre pessoas, gente mediana sobre coisas e gente inteligente sobre ideias. Mas também não sou tonta o suficiente para não perceber que tudo depende do modo como o fazemos. É só estar atenta para perceber como a prática inverte a lógica deste padrão simplista. Quanta maledicência e mediocridade jazem em discursos aparentemente intelectuais e quanto bom senso e sensibilidade podem impregnar testemunhos sobre pessoas, coisas e vivências.