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07/05/2022

Diário

Nos últimos dias deambulei pelos jornais. Li algumas crónicas sobre a Ucrânia e artigos de opinião sobre a invasão. Recompôs-se um pouco o equilíbrio natural ao permitir vir à tona a visão e mundividência não dominante. (o Nuno começou agora lá dentro a tocar o Concerto pour une voix, de Saint-Preux.) Hoje tentei perceber a celeuma à volta do jornalista freelancer acusado de apresentar reportagens pró-russas da CNN. Limitei-me a ler um artigo da Visão sobre a assunto, só para perceber as fúrias de algumas entradas nas redes sociais e blogues. Está lido.


Ontem andei pelos jornais franceses, o que me entediou bastante atentas as intrincadas questiúnculas de acordos e coligações pré-legislativas. Fico à espera de mais um artigo de Jaime Nogueira Pinto para destrinçar essas minudências. Hoje ainda não o li no Observador. Estava habituada a que saísse à Sexta, agora é ao Sábado. Mas acabei por ler um artigo de opinião já com dois anos sobre o essencial da história da língua portuguesa, para chegar à conclusão que apesar da distância sob o ponto de vista da preparação intelectual, temos quase todos um quadro mental próximo nessa matéria - com uma quota de responsabilidade pela positiva do ensino público. Concordando ou não (o que acontece várias vezes) considero-o por reconhecer solidez na estrutura de pensamento. À semelhança de José Pacheco Pereira, num quadrante ideológico base bem distante, ao longo dos anos não se deixou engonhar nas concepções flácidas do mundo, disfarçadas em linguagem e slogans vigorosos. Um dia destes dei por mim a pensar se estas avaliações resultam de uma espécie de bairrismo, afinal são os dois originários do Porto. A afinidade e solidez deve vir do granito.


Li várias vozes nas redes sociais e ouvi na televisão a alguém por quem tenho respeito, o apelo à (ia sair consciencialização, que deve ser das palavras que mais li nas últimas semanas e mais odeio) ao bom comportamento nas relações internacionais e aos limites nas práticas de guerra. Quem passou dias e dias a estudar a origem da Sociedade das Nações, o seu colapso e a substituição pelas Organização das Nações Unidas, ouve isto num misto de sensação de presenciar a repetição da História e alguma incredibilidade. Não tenho dúvida que algumas pessoas têm tanto ou mais conhecimento da realidade passada, sucede que a emoção ao tomar parte dos corações e palavras ou o simples ir na onda de quem opina muito tolda a visão dos factos. Se é certo que o Direito Internacional e as instituições que visam a sua preservação precisam evoluir, não é menos certo que a natureza humana não muda por tratado. Ímpetos belicistas e imperialistas não terminarão por decreto. Por vezes, fico com a sensação que algumas cabeças foram de tal modo formatadas pelas letras anti-belicistas cor-de-rosa da música popular e narrativas jornalístico-entretém dos últimos sessenta anos, que não conseguem conceber o génio do mal na humanidade. Como se, auto-investidas no papel de super-heróis do bem, pudessem descartar conflitos com belas e entusiastas afirmações e condenações sumárias inoperantes.


Hoje li entrevista a Richard Zenith sobre a biografia de Fernando Pessoa. Lembrei-me que há muito não passo os olhos no poeta que me fez perceber o erro atroz de rotular de narciso tudo quanto seja exploração literária e exibição do eu. (lá dentro a aparelhagem do Nuno toca a Pantera Cor-de-Rosa, de Mancini, adoro.) Só a falta de abertura de espírito pode reduzir a narcisismo o esmiuçar desassombrado, sofrido e verdadeiro das múltiplas facetas que cabem dentro de um cérebro. E que não se confundem com tentativas medíocres de criar artificialmente vozes segundo uma cartilha ou agenda - no intuito de vender imagem.


De resto, o espírito ainda é fraco, apesar do esforço para animar. Almoçar e jantar deixou há meses de ser um gosto. Recordando a ladainha politicamente correcta que ouvi a tantos: ah, mas ganha-se qualidade de vida, sinto-me muito melhor agora, correu tudo muito bem. Está bem abelha, perdi um dos gostos que tinha: comer. É verdade que a mobilidade melhorou, mas por contraposição sinto-me fraca e o ânimo anda pelas ruas da amargura. Além de tudo fiquei sem mais um órgão, neste caso a vesícula (parece que não, mas estando cá de origem servia para alguma coisa), que nunca tinha apresentado qualquer sinal de debilidade (nem pedras). Mais: cai-me cabelo em doses assustadoras.  É evidente que fico contente por estar mais pequena, ter voltado quase ao que era há sete anos, mas o milagre do Cisne não se deu, talvez por antes não me considerar Patinho Feio, como a ladainha dominante quer fazer sentir os gordos (e, em especial, as gordas). Sei, ou melhor, imagino que no fim do processo, quando atingir um peso próximo do que tinha há quinze anos, veja a coisa com olhos mais positivos, mas é bom que se saiba que fazer o bypass gástrico não é necessariamente o milagre cor-de-rosa que apregoam. (o meu Portinho acaba de se sagrar campeão e o Nuno ouve blues, só coisinhas boas.)


A nota alegre do momento é que estou em fase de marcar férias e este ano vão ter uma melhoria. Logo se verá.


Por fim, uma ideia simples dos últimos dias. O mundo divide-se entre gente que suga e gente que dá. Se é certo que, em regra, há troca em que todos tiram e entregam, não haja dúvida que devemos manter distância de quem vive de extorquir. Deixá-los inchar à custa de meio mundo. Que voem bem alto de tão insuflados de vaidade. Em vez de perder energia a lutar contra a desonestidade reinante, quando dela nos apercebemos, mais vale desviar caminho para não ter ou voltar a ter maus encontros. Uma coisa é certa, haja distância de gente com quem não se pode contar.