A imagem que o melhor defina talvez seja a do momento em que o apanhei debaixo de uma das tílias de Valinhas a explicar animadamente a dialéctica hegeliana a um dos nossos primos mais novos. O pequenito à época com oito ou nove anos esbugalhava os olhos o quanto podia à medida que o primo meia dúzia de anos mais velho insistia na explanação entusiasta. Estava escolhida a vocação: viria a ser o professor de Filosofia da família e o mais chato de todos nós. Em pequenos tomava-o por espécie de irmão mais novo e bulhávamos constantemente ou porque fazia batota na batalha naval e ria descarada e perdidamente com o facto de me enganar, ou porque desesperava enquanto eu desafinava o Oh Clarinha, isto é, o Hino da Alegria na versão do Brincando aos Clássicos da Ana Faria, para o fazer desistir de pensar tanto tempo na próxima jogada do Crapô. Passados todos estes anos continuamos a discutir e a divergir em quase tudo, desde logo na proximidade ao mundo da religião. É o meu mais antigo amigo. Confidente desde sempre. Não fiz este postal dirigindo-me na segunda pessoa por nunca o ter tratado por tu.