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08/05/2022

A minha multidão II

Rompeste no café Glass em sobressalto, dizendo que esperasse por ti à saída do liceu, mas não à hora combinada e pediste desculpa por isso. Explicaste a razão para vires assim esbaforida: vinhas avisar que não podias às 17h30, apenas às 17h35. Achei que eras perfeitamente doida. Talvez por isso sejas a única amiga que mantive tantos anos. Nunca batemos bem da bola. Já te tinha achado bastante estranha quando na primeira vez que te vi trazias o cabelo quase pela cintura do lado direito e cortado acima da orelha no esquerdo ou noutro dia a usar turbante e boquilha para fumar cigarros aos catorze anos. Tu achavas que eu era uma antiga colega da primária que te costumava bater. Demorei imenso tempo a convencer-te que em criança vivia a cinquenta quilómetros e por isso jamais poderia ter sido a causadora dos teus traumas e martírios de infância. Continuas com a exactidão dos minutos de atraso. Desperta para tanto assunto e actividade, não páras. Corajosa, encaraste de frente os muitos reveses que a vida te preparou. Tens uma pedalada imensa. Ele é canoagem, ele é skysurf, parapente. De pés assentes na Filosofia e com uma vida de muitos percalços vives em espiritualidade afinada e sempre a aderir às novidades, procurando o conhecimento de todas as minudências que sempre me passaram ao lado. És única.