Pesquisar neste blogue

22/05/2022

A minha multidão IX

Esforço-me por lembrar como eras. Alto, cabelo ondulado, olhar doce e traquina. Mais velho dois anos, como seria de esperar. Fugíamos do Pau de Giz para o Kasbar. Os primeiros cigarritos fumados inteiros a meias, os risos nervosos de descoberta, os carinhos e as ousadias. Recordo-te a ternura. E a minha quase eterna minhoquice de rapariga. Depois das Caves do Vinho do Porto, inventei-te defeitos para me afastar, injustos, palermas. Fruto apenas de meros medos e tolices. 


Em ti tropecei por estranho equívoco. Suspeitavas que era eu a autora de papelinhos anónimos apaixonados, mas não, eram da vizinha. Sorte a minha que com o engano acabei por lucrar. Jamais me passaria pela cabeça endereçar bilhetinhos, mas bem me lembro de alguma comoção quando a porta do elevador abria e de lá saías: lindo, sedutor, reservado. Foi coisa fulminante seguida de namoro complicado, a mim sobrava-me entusiasmo e contínua confusão, quando tu já estavas na idade de ansiar por assentar. As permanentes reuniões com a tua família entediavam-me. A minha cumplicidade com os meus amigos aborrecia-te. Acabaste por perceber que não te convinha. Na verdade, o resumo poderia ser este: tu andavas à cata de menina prendada - logo a seguir, encontraste e casaste -, e eu só te achava lindo e estava na idade que isso bastava.


Recordo como se fosse hoje a noite no Labirinto em que dei por mim  apaixonada. Conversávamos, tu falavas para me impressionar como sempre foi teu timbre (não, dizes tu, nada disso) quando dei por mim a flutuar. Sabia que se estivesses a recitar as páginas amarelas o efeito teria sido o mesmo. Sempre adorei a tua voz: a alegria, a doçura e educação que transportas. Foi coisa diferente de tudo o resto, cumplicidade perfeita, não fossem uma vez mais as minhas minhoquices. Vá, e a realidade. Tudo estava contra nós. Não foi um amor conveniente o nosso, antes sim um amor em contramão. Mas contra tudo o que de mau nos rodeava e desaconselhava conseguimos sempre encontrar entusiasmo na descoberta. Lembro dos atropelos para contarmos as viagens, algumas com coincidência dos destinos. Lembro da forma como nos dávamos a atenção que nunca outros nos houveram dado (senti isso e mais tarde revelaste-me o mesmo), da preocupação mútua e, devo confessar, do meu lado a primeira e única vez que percebi o sentimento de ser alvo de admiração e orgulho por parte de um homem com quem me envolvera (recíproco, diga-se). E recordo tudo o resto. Contigo deixou de haver tempo e espaço para embiocar com o quer que seja, mas tão só para aproveitar a vontade para nos deixarmos ir, com ganas e completamente livres, a saborear o que de melhor há nesta vida. Sob o ponto de vista do entendimento mental também não era coisa difícil de resolver, sempre houve afinidade quase telepática, apesar de não ter sido paixão à primeira vista. Começamos como amigos, encantei-me por ti mais tarde. Ainda hoje, vivendo juntos, a amizade prevalece. Ao fim de quase vinte  e dois anos com oito ou nove de afastamento pelo meio, com altos e baixos, com épocas de paixão e outras sem ela, a cumplicidade e a confiança nunca se perderam.


Olhei para ti como uma espécie de salvação. Vinda das confusões de um engodo seguido de uma paixão não recomendável, vi em ti, rapaz da minha idade e vida pacata, um regresso à normalidade. Até hoje estou para saber se o que senti foi paixão ou fuga em frente.  De qualquer modo, tive azar, remoías no teu coração um desgosto de amor e procuravas apenas distracção. Senti-o como ofensa que magoa.


Ficámos com uma viagem a Bagdad por fazer, além de muitas gargalhadas por entoar. É a vida. Contaste-me a tua caminhada de fio a pavio com sessões de fotografias desde a infância. E eu o meu percurso sem imagens. Cusquei os teus discos e tu admiraste a forma como adivinhei aos primeiros acordes as músicas que ias passando - foi pura sorte, calhou termos gostos parecidos e teres testado com as poucas coisas que conhecia. Tocaste-me guitarra eléctrica e teclado, falaste-me do Pat Metheny e apresentaste-me a Accuradio que ainda hoje oiço. Nunca estivemos apaixonados, mas a memória que ficou é risonha. Ligaste-me a última vez quando já não havia da minha parte possibilidade de reencontros. Espero que também tenhas encontrado quem te aconchegue.


Além da compulsão pela escrita a ideia que mais retenho de ti é a sofreguidão. Também a ânsia permanente e as fúrias com aquilo que consideravas a mediocridade de tudo quanto se mexe. Nunca percebi o que viste em mim. Possivelmente uma mera curiosidade. Houve alguma afinidade de opinião no desencanto com as podridões do país, mas percebi que esse desencanto com a realidade tem mais a ver com a matéria de que nós próprios somos feitos, do que com a dita cuja. À parte dos bitaites nada nos aproximava. Nunca estivemos apaixonados. Foi um erro de casting. Pelo que fizeste muito bem em tomar a iniciativa de te afastares. Espero que tenhas encontrado alguém que dê um pouco de luz a essa negritude.