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11/05/2022

Mundo estranho

Ontem no Jornal da Noite da SIC foi apresentada uma reportagem sobre o uso do cibercrime pelo regime russo. No início pensei que fossem falar do papel e perigo dos hackers organizados em máfias estruturadas mantidas pelo estado, mas não, o trabalho era sobre trolls – parecendo que não as aptidões de uns e outros estão em patamares bastante diferentes. Os últimos também são organizados, protegidos e usados pelo estado russo, porém o seu papel não é diferente ao usado em todo o mundo, com conhecimento dos estados e de grande parte dos cidadãos, por empresas (máxime, as tecnológicas) que pretendem promover e vender os seus serviços e produtos.


Num mundo onde há anos vinga a desinformação institucionalizada na comunicação social – por evidente desqualificação de quem nela trabalha e por estar corrompida pela promiscuidade com governantes e importantes interesses económicos e classes profissionais, não é de espantar que se desça mais um degrau na degradação da democracia. A elevação ao poder fáctico e protagonismo destes (trolls) grunhos cuja ambição máxima é a posse e condução de lamborghinis e poderem gabar-se de modo grotesco dos lucros de milhões que obtém, por exemplo, através de furto de dados e acesso a cartões bancários - e que muito se assemelham no estilo de vida e ambições ao actual submundo da droga dos rappers norte-americanos -, soa ao previsível avesso do baixar de fasquia no espaço público.


A promoção no espaço público do rafeiro e acéfalo adornado com uma fina camada de verniz de pretensa instrução e até erudição caminha para a indistinção pelas massas do certo e do errado, da verdade e da mentira. Se o exemplo é o aparente e refinado conhecimento, na verdade falso e rasca, não há como ter referências e vinga a fácil adesão seja às marés da doutrinação institucionalizada do politicamente correcto seja à mais agressiva propaganda promovida por entidades criminosas de trolls, constituindo as duas faces da mesma realidade.


Há quem diga que este discurso é perigoso. Afirma-se que desacreditar o papel das instituições e da comunicação social tradicional é abrir caminho ao descalabro e deterioração dos grandes valores civilizacionais. Já a mim, que não risco nada e penso que não se deve pregar prego sem estopa, parece-me que este tipo de defesa em causa própria, incapacidade de autocrítica e fuga em frente da voz dominante sempre convencida da sua superioridade e autopromovida a grande defensora da democracia e da liberdade constituirão algumas das principais causas do descalabro que se avizinha.