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10/05/2022

A minha multidão IV

Contavas mais quatro anos do que eu e havias chumbado duas vezes, como quase todos na turma do oitavo ano do liceu onde fui cair de paraquedas aos doze anos vinda de outra cidade. Tinhas grandes sonhos e causas, querias ser advogada para defender os oprimidos. Acreditavas piamente no mito do bom selvagem, de Rousseau. Não voltaste a reprovar. Vivias entre gente curtida pelo sol ligada ao mar e já trazias no coração um amor passado, acabado e sofrido. Até ao final do liceu foste a minha melhor amiga. A que me lembrava que no dia seguinte ia ter teste, a que me dizia que matéria devia estudar e me passava os apontamentos. A que me contava os grandes sonhos e desgostos, os momentos pitorescos do dia-a-dia entre família e amigos junto ao mar. A confidente. A que me ouvia ler os jornais e escrevinhanços pessoais, com quem falava de política, guerra e futebol. A parceira de horas a fio no Glass. Entrei na faculdade onde sonhavas fazer o curso e para a qual não tiveste nota, acabando noutra onde também fui admitida. Não percebeste que tal como serias mais feliz na Católica, eu teria ficado mais contente e realizada na Lusíada a estudar aquilo que queria. Achaste-te a injustiçada, mas a verdade é que os sonhos de ambas se goraram.