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27/05/2022

Eternos adolescentes

É curiosa a aversão aos relatos realistas de intimidade pessoal ou familiar. Os críticos não desprezam enaltecimentos bacocos de feitos individuais ou de linhagem. Neste oásis à beira mar plantado tudo quanto seja panegírico é social e intelectualmente aceite e louvado. Agora descrever a realidade tal qual ela é ou invocar memórias não abonatórias de si próprio ou dos seus próximos é crime de lesa majestade: egocentrismo, narcisismo e exibicionismo, no mínimo. Matéria esconsa de que se foge, essa a da verdade. Se a autora for mulher, uma menoridade, com toda a certeza.


Eis uma das razões por que nunca crescemos, mantendo-nos eternamente no sebastianismo, a viver de mitos e balelas fantasiosas. Líricos.


Por esta razão o cunho diarístico em Portugal nunca pegou - vulgaríssimo noutras paragens como entre os ingleses. Diários neste país quase não se vêem, a menos que sejam tímidos disfarces deles, tão encriptados quanto o medo dos portugueses em dizer a verdade. Vivemos infantilizados. Continuamos uma sociedade machista e atávica a que interessam mais as esfregas do ego de bravos e impolutos marialvas (ainda que enviesadas ou dissimuladas, isto é, aparentemente depuradas de ego) do que o banal (e rico) relato da vida, das relações e do quotidiano tal qual se apresentaram.


Como reparo que a democratização faz como que os tiques do modo de estar de gente civilizada se disseminem por mimetismo na sociedade ao fim de décadas, ainda vamos ter disto por muito tempo.


A realidade vai continuar a impressionar e assustar eternos adolescentes por resolver.


*


Nota. Neste pequeno texto o corrector da SapoBlogs não reconhece quatro palavras: panegírico, diarístico, atávica, impolutos. Todas elas vulgar léxico.