Excessivo, desbocado, inconveniente, intransigente, dramático. O perfeito leão. São tantos os teus defeitos que estaria aqui horas a enumerá-los. É exactamente por isso que sempre gostei de ti. A primeira vez que falámos perguntaste-me num tom todo cerimonioso se te podias sentar ao meu lado no autocarro. Zombei da teatralidade. Passados uns tempos éramos amigos de todos os dias e eras tu quem gozava comigo (e como ficava atrapalhada) e de todos os outros. Foste o único aniversariante que vi faltar ao aniversário depois de convidados os amigos e tudo marcado. Só trinta anos depois depreendi porquê. Quando te achava com mais três anitos do que eu, tinhas mais sete. Foi preciso chegares aos cinquenta e três para confessares a idade e chamares-me pirralha. Por mais décadas que passem serás sempre a alma da festa quando nos reunimos. Por mais que desapareças por anos a correr o mundo, a tua gargalhada sonora fica no ouvido. Não és só barulhento e vaidoso, mas inteligente, culto e bom coração. Por isso os reencontros são sempre tão bons e aprendo sempre. Devo-te muitas palavras e gestos amigos e grandes esfregas na auto-estima. Além da confiança com que me fizeste atravessar o equador para passar uns tempos contigo em Luanda a trabalhar. Um outro momento define-te. A forma como me convocaste com outra amiga para um café no dia em que fazias dezoito anos. Pensando bem agora, na verdade talvez fossem vinte e dois. Pediste um whisky antes de nos comunicar que eras homossexual. Ambas sabíamos há muito, mas contigo tudo tem pompa e circunstância, e consegues fazê-lo de maneira extraordinária.