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14/05/2022

A minha multidão VIII

Fui tropeçando em gente no mundo online e alguns desses conhecidos passaram a amigos (ah, credo, não há amigos na internet dizem os dissimulados) sendo diversos os móbeis de ligação e ponto de encontro. Como sempre na amizade, há as que se vão mantendo e as que ficam pelo caminho. O trivial.


O gosto pela escrita e a admiração por gente que escreve bem levou-me até ti há dezassete anos. Encontramo-nos uma única vez na qual andamos a pé pelas ruas do Porto horas a fio, com um chá pelo meio no Passeio Alegre. Apesar de várias alusões a futuros cafezitos, mantivemos contacto estritamente por email durante todos estes anos, à excepção de meia dúzia de chamadas, e nos primeiros tempos pouco sabia da tua vida, reservado que és. Da minha soubeste mais porque sou um tanto desbocada. Mas os temas de troca de emails foram quase na íntegra à volta da escrita e notícias pontuais - vá, e relativas ao nosso Portinho. Conto contigo para as dúvidas existenciais de quem vai escrevendo e torço pelo sucesso nas tuas novas empreitadas.


A ti conheci há quase quatro anos, e não no real. Descobrimos que estudamos na mesma faculdade em épocas diferentes e durante quase dois anos acompanhei à distância os dissabores da vida de emigrado por força maior. Felizmente esse tempo passou e regressaste. Um dia destes tenho de reaparecer lá no espaço onde não vou há meses para me rir um pouco e aprender qualquer coisa com aquelas conversas surreais que duram até ao exacto momento em que aparece um rabo de saia cujo dedilhar te desperte a atenção. Gosto particularmente da forma como quando te confronto com o facto de estares muito a par do mundo das novidades dos livros, me dizeres que isso se deve a teres lido muito em miúdo e que agora lês pouco. Deve ter sido prognose. É possível que não te volte a ler e não faz mal nenhum - a vida é feita disso mesmo, de ir tropeçando em gente e ir seguindo em frente.


Em ti tropecei há três anos. Injuriaste-me na primeira vez que trocámos letras - disseste qualquer coisa como me fugia o pé para o chinelo. Estranhamente não levei nada a mal - tiveste sorte, era insulto para normalmente me fazer trepar pelas paredes e reduzir-te à insignificância. Percebi pelos teus comentários e reacções que és bom coração e fico contente com as tuas partilhas de notícias do mundo, música e fabulosas fotografias de montanhismo. Discordo de muitas das tuas considerações, mas não tenho a menor dúvida que estás habituado a pensar e que o emaranhado que vem à superfície é apenas a ponta de um acumulado de conhecimento mais profundo. Além de tudo, tratas bem do Ritz.


Tu tens menos vinte anos do que eu. Quando te vi solta lá no espaço onde te conheci tive aquela sensação que só se tem depois dos quarenta: revi-me naquele mesmo sítio há vinte anos. Ao mesmo tempo recuei ainda mais e dei por mim a lembrar-me do sorriso de uma antiga professora a olhar para mim e a dizer que não me conseguia ralhar por me assemelhar tanto a ela em novita. Foi assim que olhei para ti. Trataste-me como se trata uma mãe postiça, vamos trocando mensagens ocasionais, combinámos e tomámos uns cafezitos e continuam a ficar pendurados os projectos de andarmos a pé ao fim-de-semana. Tudo quanto espero é que não faças as asneiras que fiz - faz outras, mais inteligentes.


A si ainda não conheço pessoalmente. Apesar de a ler com gosto há três anos e da troca de comentários quase sempre divertida, é extraordinariamente reservada. O que no caso me parece sinal de inteligência. O tempo dirá se vamos manter o hábito de leitura mútua e se um dia seremos amigas de ver a fronha.