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20/05/2022

Assuntos desagradáveis

Uma das únicas três pessoas a quem contou a história, ainda que não com os pormenores da forma como foi premeditada e reiteradamente ofendida, enganada e injuriada pela mais repugnante escória, disse-lhe que face a tudo só se admirava como sobrevivera sã. Aliás, não foi assim que disse: chamou a atenção para o facto de ser preciso ser mentalmente muito forte para encarar tudo aquilo. O que a surpreendeu. Nessa matéria não se tinha em grande conta. A ideia de se ter deixado enganar era prova da sua fragilidade. Gostaria de ter a tal força mental, mas não, não achava que a possuísse. Perguntava-se quantas pessoas seriam sujeitas às mesmas velhacarias. Havia momentos raros em que se sentia única no azar, mas na maioria das vezes constatava que não – é mal do tempo, pensava. A cobardia com que pulhas tentam desfazer vidas alheias de modo dissimulado e não verificável deverá ser mato nos últimos vinte anos. Como foi mato de outras formas desde que o mundo é mundo.


Não tinha nenhuma intenção de confrontação directa, por não estar para se sujeitar ao ridículo e à pocilga onde essa gente gosta de chafurdar. Com isso contava o canalha viscoso, impune como sempre, a debitar lições de erudição e moral. A ela era suficiente que o próprio e os pajens que o encobrem soubessem o asco que são e inspiram em gente decente. Um pulha nunca age sozinho, tem sempre muitos a apascentar, a encobrir. Dos que todos os dias acusam meio mundo das piores vilezas com a mesma convicção que defendem pulhas amigos, difamando ou destruindo pela calada quem for preciso para o efeito. Podem enganar meio mundo, mas nunca deixarão de rastejar no próprio visco.