Ia fazer mais uma agenda com planos e ao espreitar as últimas entradas sob o título "agenda", alguns diários e outros postais fiquei a marinar na sensação recorrente das pontas soltas. Nascem-me mil e um propósitos, sempre. São tantos os pontos em que me apetece tocar, tantos os esboços de ideias que ficam a pairar, e pequena parte reduzida a escrito e ínfima fracção capaz de traduzir a quase integral secção do pensamento. Saem em fatias, como na máquina da lâmina e da manivela de cortar fiambre (e queijo). Havia uma em Valinhas - as coisas que me vêm à cabeça, céus. Devo estar com fome. Os pensamentos, digo. É que saem às fatias. (que efeito terá isto lido por cérebro alheio? - interessa-me sempre a impressão alheia, não disfarço auto-suficiência nem gosto da vulgaridade de exibir desinibição forçada.) A maioria das intenções queda-se por isso mesmo e o que vem à tona parece-me às vezes repetitivo, obsessivo.
Sobre o que pensei escrever hoje? Das ofensas. Será mais uma explicação enfadonha do que qualquer coisa com uma nesga (ia escrever pingo, mas gosto da graça da palavra nesga que me surgiu do nada) de criatividade. As minhas diatribes soam a ressabiamento, porém não são em muitos casos reacções a ofensas que me sejam particularmente dirigidas. Também reajo a essas, obviamente, mas sobretudo ao discurso do espaço público, ao mundo de permanente injuria aos outros por exércitos de indivíduos que vivem da retórica e da ofensa, achando que a isso se resume a liberdade. Quanto mais os vejo diabolizar os identitários - que tantas vezes critico -, mais reparo que estão a zelar pelo espaço de agressão em que se especializaram. E quem diz identitários diz qualquer outra pessoa ou grupo que por motivos fúteis não caia no goto dos agressores. Vivem num ringue segregativo disfarçado de aparente defesa do jogo das regras democráticas, de sã e civilizada convivência. É como depois de se terem especializado em arrancar olhos aos adversários através de gangues de retórica, tentassem convencer o público que fazê-lo é o supra-sumo da elegância democrática e que gente que não sabe lutar com estas armas é medíocre e ordinária. É elevar o rasca e pulha, sempre dissimulados, aos píncaros do bom gosto e dos valores defensáveis.
A psicologia e as tretas dos rótulos de personalidade com certeza devem explicar não só esta minha aversão aos joguinhos farçolas de democratas de algibeira como também a permanente sensação de ofensa. Não tenho dúvida que muitos traduzem isto por birra, incapacidade de conviver com a crítica, aversão à liberdade de expressão, tendência para adesão fácil às correntes totalitárias e outras pérolas que estou habituada a ler e ouvir a gente que se toma por grande defensora dos princípios democráticos. Só fingem não entender como são eles próprios com a sua cegueira sectária e ambição desmedida material e reputacional que estão a destruir peça a peça as conquistas civilizacionais da liberdade e da democracia, desrespeitando diária e cinicamente a base - o outro.
E não é por o outro não reconhecer particular acuidade nestas palavras, nem sequer se sentir defendido por elas, que vou deixar de as escrever. Enquanto sentir as ofensas aos outros como se fossem na minha pele, e bem sei da pretensão do que acabei de dizer, não deixarei de fazer figura de urso aos olhos dos doutos iluminados e sempre vitoriosos. Ainda que só.