
Entre outros jogos de cartas em criança e adolescente joguei muito Crapô - uma espécie de Paciência disputada por dois jogadores. No mundo das cartas há um sem-número de expressões usadas, herdadas de antigos parceiros de mesa de jogo. O Crapô era sobretudo pretexto para longas conversas com os meus compinchas de serão: avó, mãe e primo.
Lembrei-me disto a propósito de uma expressão que a minha mãe usava quando na minha vez de jogar e havendo casas abertas, mostrava os passos todos - provando que era possível a jogada -, em vez de ir directa à conclusão, não insultando a inteligência da adversária. Dizia a minha mãe que se a sô dona L.W. ali estivesse me diria para não fazer joguinhos infantis. Referia-se à companheira de Crapô no Uíge.
A escrita e a opinião também têm joguinhos infantis. Temo até que na maior parte das vezes não tenham mais do que isso mesmo. A obsessão da enumeração dos factos – os necessários e os inúteis - para conferir aparente seriedade às opiniões sujeita o mundo actual a um enorme e emaranhado dilúvio de argumentos supérfluos. E a reacção das pessoas que não estão viradas para joguinhos infantis acaba por ser a do gato do anúncio face à conversa da dona que lhe traz whiskas saquetas: obviamente, desliga para o Vaticano até ouvir o sumo do diálogo.
Consciente que no mundo actual vale a gestão das minudências e do supérfluo, quem não souber memorizar e digladiar argumentos supostamente fundamentados mesmo que forjados, estará votado à desconsideração. Factos existem para todo o gosto e feitio, vingam os floretes e oratória – conclusão a que cheguei na adolescência ao assistir ocasionalmente à verborreia argumentativa em lugares em que se dizia dar valor à opinião. A atenção a estas nuances terá contribuído para que começasse a lidar mal com o contraditório - megera me assumo.
Claro que a falta de consistência também existe. O passar um conjunto de cartas para uma casa aberta, sem demonstrar possibilidade da jogada, colocando-as duas a duas nas outras também abertas previamente, pode ser abusivo e enganoso por não ter fundamento (suficientes casas abertas) e estará dependente da seriedade de quem faz a jogada e da atenção do outro jogador verificar a sua legitimidade – será batota?
Este texto não é dirigido a ninguém em especial, nem crítica a ninguém em especial. É tão só uma constatação do absurdo argumentativo em que se transformam trocas de opinião aparentemente informadas e sofisticadas. Se esvaziássemos todo o supérfluo dessas discussões veríamos que a verdade e o essencial estão bem longe, e cada vez mais longe e arredados do que vinga no mundo.
No fundo, no fundo este postal é capaz de ser tão só saudade dessas jogatinas e do tempo em que me divertia com a Batalha Naval e a Bisca na escola ao invés aglutinar conhecimento como seria suposto. Deve ser isso. Nunca fui grande aluna nem jogadora, mas sempre aproveitei o momento e tentei dar atenção ao essencial.