Estava a terminar o século XX quando me aventurava em conversas pelo mundo fora com o meu inglês macarrónico. Nesse tempo conheci uma neozelandesa, um kuwaitiano e um americano. Com estes conversei durante algum tempo. Mas nem todas os conhecimentos virtuais foram tão inofensivos. Alguns derraparam e não falo apenas dos tão conhecidos descambares para o sexo, como também de ligações "afectivas" (sui generis, vá) sem essa componente. Tenho plena consciência do risco que corro ao relatar estas memórias apesar de não expôr ninguém senão a mim própria - no mínimo serei catalogada de tonta, no máximo de bem pior -, mas também sei perfeitamente que estas memórias são bem representativas do mundo verdadeiro que se desenrolou nas últimas décadas para muitos e muitas. O tal quase sempre remetido para o esconso, como se fosse vergonhoso. O tal na maioria das vezes dissimulado. Ou tratado com meneios intelectuais ou de mera etiqueta social que servem mais de disfarce ou justificação moral do que para retratar a realidade. Serei por isso directa tanto quanto possível.
No calor de um Verão tropecei em ti, um texano. Fosse pelo imaginário de cowboys de miúda, fosse pela atracção pela natação e por piscinas, o diálogo descarrilou. Foi a estreia nas derrapagens virtuais. Na memória guardo apenas a absoluta tonteria.
Já a segunda escorregadela foi pior. Durou dois meses. Eras um típico impostor português que tratava de inventar personagens com vida pessoal e profissional adequadas a ludibriar miúdas tontas na internet. Coisa de matarruano promovido. Percebi anos depois que andavas à cata de material para escrever medíocres e entediantes historietas. Estou certa que ao ler isto a maioria dos leitores pensará: quem anda à chuva molha-se - outra forma de dizer: puseste-te a jeito. Típico pensamento que permite que a pior escória ande à solta impune. A complacência da maioria com a pulhice é infinita. De todas a pessoas com quem me cruzei na vida és a única que me causa verdadeiro asco.
Tu vivias em Connecticut e, como gato escaldado de água fria tem medo, temi que fosses mais uma personagem. Hoje não creio que fosses e, nesse caso, devo-te um pedido de desculpa pelo facto de ter desaparecido quando me disseste que ias enviar um ramo de flores. Assustei-me.
Tu eras o arquitecto mais passado que algum dia conheci. Estou para saber que raio de erva fumavas antes de me descrever os teus projectos de construção. A coisa era totalmente surreal.
Tu eras um militar português estacionado numa qualquer parte do mundo. E não há história.
Por fim, tu foste meu colega de liceu e acabámos por tropeçar nestas vidas online. Pronto, é sabida minha pouca resistência a músicos que sabem verdadeiramente de música.