Pesquisar neste blogue

25/05/2022

Recapitulando


Passam apenas dois anos (e três meses e meio) sobre este postal. Não foram dez ou vinte anos. O mundo volve-se rápido. E tende a mostrar-se cada vez mais desconcertante, cada vez mais perigoso.


*


Nomes feios


por Isabel Paulos, em 30.01.20


 


crianças


Como crianças brincamos no recreio e, por qualquer capricho, chamamos nomes feios aos outros quando não ficamos em primeiro lugar no jogo. Ou, quando ficamos em primeiro lugar e os outros amuam. Substituímos os é batoticeés burroés camelo e quem diz é quem é por néscio e, claro, por fascistas, racistas, feministas, marxistas e demais insultos arremessados entre trincheiras que, sobrevoadas por um olhar mais distante, pouco se distinguem entre si.


O nosso é um recreio de escola rica ou, pelo menos, remediada. E quanto mais insultamos os outros, mais claro fica que não sabemos o que são tragédias, dramas ou dificuldades, como a fome, a pobreza, a solidão, a guerra e o genocídio.


A nossa fomezita é de a do prato menos cheio na cantina na escola, mostrada em reportagem televisiva para servir de argumento da oposição quando um qualquer governo faz cortes porque o país está endividado até ao tutano, a mesma cantina que meses depois serve para falar do combate à obesidade e da necessidade de uma alimentação mais saudável. Não é a fome que cola as paredes da barriga, a da subnutrição, da magreza extrema, não é aquela que se espelha num olhar que salta da cara e tenta disfarçar quando pousa num prato de sopa e um naco de pão, transformado em ambrósia, o manjar dos deuses. Não é uma fome envergonhada.


A nossa pobreza é a das casas de bairro frias, com humidade e rachadelas. É a do pão com rissol ao almoço, a da roupa, do calçado e dos guarda-chuvas baratos do chinês. É a do calor forte nas férias do verão, com piscinas insufláveis de plástico na varanda e a ventoinha ligada na sala, junto à televisão que, às vezes, faz cair o quadro eléctrico, quando a ela se soma o grelhador das febras. É a do carro com tinta desbotada e enferrujado estacionado à porta de casa. Não é a das moscas pousadas na cara, das tendas montadas na lama, das filas para aceder à água potável, ao alimento ou à aspirina, ou dos barracos de lata, dos piolhos, das pulgas, do esgoto e fossa a céu aberto, e do buraco comunitário. Não é a pobreza da mulher que sonha com uma cama de lençóis lavados e macios e uma retrete e um lavatório com água como quem deseja um palácio. Não é a de quem nunca teve nada ou ficou sem nada. Nada. Não é uma pobreza muda.


A nossa solidão é a do egoísmo. A do cada um por si. É contra os outros. Às vezes contra todos os outros. É a das angústias existenciais e circunstânciais. É a da distracção, da falta de tempo, do menosprezo. Não é a solidão do mendigo que dorme nos cartões à nossa porta, perdido de bêbado ou simplesmente perdido nos pensamentos de tanto tentar afogar algum desgosto familiar, desespero financeiro ou doença mental. Não é a solidão do Sr. António que já muito velho foi resgatado da rua e alojado e empregado por um qualquer benfeitor e que, no dia em que lhe foi feito um lanche para cantar os parabéns dos 80 anos, revelou ter sido a primeira vez na vida que festejava um aniversário. Não é a solidão calada de uma vida inteira.


A nossa guerra é a guerra das televisões, dos misseis que caem em países lá longe, que não sabemos bem onde ficam no mapa, por não fazerem parte dos nossos roteiros turísticos, mas ficamos a conhecer por as gentes de lá, com telemóveis como os nossos, nos fazerem visitas guiadas às cenas de conflito. É a guerra de estratégia dos políticos e generais de facções, das conferências da ONU, das declarações vãs de boas intenções dos seus secretários-gerais. É guerra de quartel ou protegida, que dá belas historietas para almoçaradas e palmadinhas nas costas dos comensais ou puro aproveitamento para protagonismos. Não é a guerra calada das vísceras à mostra do camarada em agonia, não são os segundos decisivos para o soldado matar ou morrer, não são as solitárias e difíceis decisões do graduado. Não é a guerra do olhar silencioso e cúmplice entre camaradas quando se diz o nome de um homem, de uma terra ou de uma data.


O nosso genocídio não é, simplesmente. Não é o cheiro sentido por uma criança da carne da sua mãe, do seu pai, dos seus irmãos, a ser queimada e da visão das cinzas a cair nos seus pés. Não é, ainda.


Por isso, não me venham com merdas de marxistas e fascistas, sff.