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09/05/2022

A minha multidão III

Sabias desenhar o contorno do mapa mundo de memória e acompanhavas-me às conferências na faculdade. Já éramos amigos do liceu. Nesse tempo passávamos horas no Glass na treta e no micanço (como dizíamos). Lia-te crónicas do MEC. Falava-te dos meus amores platónicos e tu ias-me pondo a par das tuas paixões pelas estátuas gregas, que ias fazendo cair uma a uma. Seja no liceu seja na faculdade algumas vieram ter comigo depois queixar-se que as devia ter avisado. Na altura não percebia como não topavam à distância. No dia que te conheci aos catorze anos percebi enquanto mexias o café e olhavas que eras uma bela bisca nessa matéria e isso mesmo te disse uns dias depois prevendo que nunca mudarias. Em vários momentos cortavas-te entre amigos a aparecer, alegando que tinhas “umas cenas”. Todos sabíamos quais eram as cenas que te tomavam tanto tempo. Quando oiço soar o #MeToo lembro-me de ti. Espero que não tivesse razão no vaticínio dos catorze anos e tenhas ganho juízo. Numa das últimas vezes que te vi, esperavas que a Selecção ganhasse o Euro2004 para finalmente atinares. Será que a conquista de 2016 te serenou?