
17. Nova Zelândia
A falta de vontade de escrever sobre a Nova Zelândia leva-me a incorrer numa batota já cometida noutras entradas da série Espanador - o que transformou a sequela num registo muito desigual. Vou lançar um par de bitaites em vez de me debruçar sobre o que mais interessaria a quem lê. O facto é que a ideia que faço da Nova Zelândia - naturalmente ignorante e injusta, por nunca lá ter estado - aproxima-se do Canadá, com a agravante de na primeira não ter ligações a familiares lá radicados o que ainda me afasta mais*. São países onde vinga o pendor do activismo comunitário - sempre dito tão distante e desejado entre nós. Sociedades onde se privilegia a participação e contributo dos cidadãos na conquista do bem comum. Onde o politicamente correcto é rei.
Há meses fiz algumas leituras sobre a história e geografia neozelandesa, o povo nativo maori e a colonização europeia desta agora monarquia constitucional cuja Chefe de Estado é Isabel II, apesar de poderes muito restritos, mas não retive grande coisa nem vou acrescentar nada sobre o tema. Quem tiver curiosidade dará um pulo à Wikipédia, à Britannica ou a outras páginas online. Vou antes desabafar razões pelas quais não desejaria viver na Nova Zelândia.
Em Fevereiro de 2021, a primeira-ministra Jacinda Ardern obrigou os quase dois milhões de habitantes de Auckland a ficar em casa a partir da meia-noite e ao encerramento de escolas em empresas (à excepção das essenciais) por causa do teste positivo de três elementos da mesma família. Repito, três casos levaram ao confinamento de dois milhões. No final do ano passado estava a ser preparada uma nova lei, a entrar em vigor até ao término deste, que proíbe a compra de cigarros para quem nasceu depois de 2008. Assim, de uma penada é vedada às novas gerações a compra cigarros durante toda a vida. E é da Universidade neozelandesa de Otago a ideia genial de combater a obesidade com um mecanismo de parafusos e ímanes que impede o utilizador de abrir a boca mais de dois milímetros. Desde o aloquete (cadeado para as pessoas do sul) no frigorífico que não via ideia tão absurda - aliás, esta de prender os dentes supera bem a do trancar o frigorífico no grau de insanidade.
Mas vá, nem tudo é mau, um dos fundadores da Google está a trabalhar com a Air New Zealand na criação de uma frota de carros autónomos para servirem de táxis aéreos. Como tantos da minha geração, sempre idealizei carros voadores. Além do que estas ilhas do Pacífico são tidas por apetecíveis refúgios de multimilionários como abrigo numa hipotética futura situação catastrófica. Lá terão as suas virtudes, e convenhamos que sob ponto de vista da natureza (agora designada biodiversidade) a paisagem é deslumbrante.
*Um dia em conversa com um amigo, saiu-me qualquer coisa como isto: como todos os portugueses, tenho ou tive família alargada espalhada pelos quatro cantos do mundo e em consequência notícias constantes desses pontos fora do país (no meu caso Timor, Austrália, Singapura, Moçambique, Angola, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Brasil, México, Estados Unidos, Canadá). Ao que ele, à época emigrado, me respondeu espantado: não tive nem tenho familiares cá fora. Devo dizer que esta afirmação me surpreendeu numa idade que já não seria suposto. Nasci e vivi rodeada de gente que como eu ou estivera ou contava com elementos da família alargada a viver fora de Portugal. Admito que essa é a minha normalidade.
Desta saga existem nas Comezinhas as entradas abaixo indicadas, muito desiguais entre si. Com este postal sobre a Nova Zelândia dou por terminada a primeira temporada. Outra seguirá, com tempo.