Banda sonora desta tarde. Em fecho de mês. Véspera de feriado.
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30/04/2024
A beleza do ballet dos boys e girls
É tempo dos detentores de cargos públicos de confiança política deslizarem: saem da boca de cena os da Companhia A para entrarem os da Companhia B. De perfis e trajes muito semelhantes: em pontinhas e de Tou Tou de Ballet como se assistíssemos a um bailado clássico. Critério de mudança: filiação ou afinidade. Tudo belo: muito delicadinho como os movimentos graciosos dos(as) bailarinos(as).
Um espectáculo com que podemos sempre contar - obrigados a assistir mediante pagamento obrigatório do dispendioso bilhete.
Como detectar a ambição de alguém?
Notando as avaliações críticas e os temas em que incide mais. Escrevo isto como é costume sem medir todas as consequências, isto é, não sabendo se terei de engolir estas palavras ou enfiar a carapuça. No linguajar popular a ideia equivale ao “quem desdenha quer comprar”.
É importante reparar nas críticas públicas, mas sobretudo nas ditas em surdina, em tom difamatório, ou expressas de modo dissimulado ou cínico com o cálculo de vantagens próprio da intriga.
Conheci a particular situação de alguém que passou anos a criticar os clínicos que exerciam medicina em consultório privado, considerando uma traição ao investimento e rigor no desempenho de funções no Serviço Nacional de Saúde. Sucede ser notório que a sua maior ambição era precisamente essa e conseguiu concretizar o sonho anos mais tarde abrindo uma clínica. Era patente que não fazia juízos genuínos de reprovação, mas sim de cobiça ou inveja.
É um traço muito português: invocar princípios em vão e traí-los assim que a oportunidade surge.
Veio isto a propósito das grandes declarações de condenação da endogamia. É enorme a desfaçatez de gente que desde cedo fez por mimetizar comportamentos dos grupos aos quais tinha ambição de pertencer, trabalhou para integrá-los via casamento ou estreitar interesseiro de relações de amizade – enfim, a desfaçatez de quem vive à custa da endogamia e dela desdenha como se fosse puro. A intrujice de quem sempre se serviu das relações de parentesco ou de guetos privilegiados de interesse e de quem tudo quanto almeja é ascender a situação abonada similar. Vivem das redes de interesse, porém apontam-nas como se fossem uma pecha alheia, consideram-se a si a dignos portadores de respeitabilidade adquirida por superior inteligência, trabalho, carreira e mérito. Devem ter caído do céu tais virtudes. Enfim, bafejados por tanto valor, nunca admitem jeitinhos e facilidades.
Era escusado, até porque nalgumas situações o oportunismo anda de mãos dadas com talento ou pelo menos competência. É pura burrice ou falta de seriedade não assumir as ajudas “celestiais”. Sobretudo é de um ridículo atroz. Mas como entre nós os graus de exigência e de honestidade andam nas lonas, continuamos a ouvir histórias da carochinha do “olha que medíocres eles são e tão puros, inteligentes e talentosos nós somos”.
Só rindo.
(amanhã, se tiver tempo escreverei acerca da tendência para gorar expectativas dos outros; já agora depois de amanhã, se tudo correr bem, escreverei sobre a falta de juízo auto-crítico da "intelectualidade" portuguesa, sempre muito lesta em desdenhar da mediocridade dos representantes de vários sectores profissionais da nação.)
29/04/2024
Não há revoluções nem evoluções por procuração
Paternalismo bacoco e empatia interesseira são as formas ideais encontradas pelos bonzinhos privilegiados de manterem a hegemonia. Falar em nome dos pobres, das raças marginalizadas, das mulheres, dos homossexuais, afirmando-se muito compreensivo com as suas dores e direitos é a fórmula mágica para enaltecer a bondade e coragem dos defensores das causas dos oprimidos, tantas vezes marimbando-se para o destino dos ditos, antes preocupados com a venda da própria imagem. Não há revoluções ou evoluções por procuração.
Tenho observado como singram os tais defensores das causas dos oprimidos - os que falam em seu nome. Sempre muito considerados pelas redes de interesse, sempre muito bem-sucedidos. Apajados como óptimas pessoas, muito empáticas e sensíveis, vingam usando retórica fajuta para obter simpatia e audiência. Na realidade fincam os pés nos ombros dos oprimidos de quem se dizem muito amigos, enterrando-os num fosso cada vez mais fundo de dependência, para à custa deles fazerem carreira, nome e, enfim, se alçarem a grandes democratas.
O que é preciso, na perspectiva de quem quer manter o status quo ou ascender a situação privilegiada, é que os marginalizados não tenham voz própria. Para isso fala em seu nome e quando muito passa a palavra a alguns representantes que tenha em mão, com vontade de protagonismo, mas pouco inteligentes, por isso manietáveis. É a cultura da mediania. Aposta-se em homens e mulheres medíocres que vendam bem a banha da cobra. E despreza-se quem com clareza e objectividade seja justo.
O objectivo dos intrujões não é a justiça. Caso contrário, rejubilariam com as vitórias e alegrias de quem tem valor, quem vence as adversidades saindo da pobreza, das minorias raciais bem integradas social e profissionalmente, das mulheres que se impõem pelo carácter num mundo onde dominam os homens, dos homossexuais com vidas pessoais resolvidas e felizes. Mas se estiverem atentos, reparem no desdém, inveja e cobiça dissimulada em elogios oportunistas de que estas pessoas são alvo. Reparem como se promove e enaltece a mediania presumida. Os aldrabões precisam da retórica do coitadinho do meu amigo gay ou do tão feminista ou anti hipocrisia religiosa eu sou para se encostar às redes de interesse que promovem os protagonismos sem valor. Tudo quanto procuram é manter privilégios e audiências à custa de suposta superioridade moral e do frisson inconsequente.
Enfim, num linguajar muito popular: sabem-na toda - os(as) oportunistas.
28/04/2024
Constatação
Raramente vi um mostruário de tanta falsidade e oportunismo como nos últimos oito dias. Raramente vi tanta gente a trabalhar para a imagem. Há momentos em que penso que pode ser positivo: se começarem a acertar para obter boa cotação, pode ser que cheguem a perceber um dia o que é certo e o que é errado.
Fim-de-semanário
Tem sido um fim-de-semana alargado diferente. Passei-o quase integralmente a planear uma mudança hipotética. Hoje irei ter a conversa definitiva. Como é hábito antecipo. Ponho nos pratos da balança prós e contras, antevejo todas as alterações necessárias, todas as variáveis a equacionar. Pelo meio levanto vôo e devaneio muito. Logo em seguida finco os pés no chão e começo a ponderar os aspectos realistas. O devaneio faz-me muitíssimo feliz, os pés no chão trazem-me solidez.
Depois de dias de muita conjectura, ontem antes de dormir procurei informação objectiva acerca da situação material em causa. Fiquei quase sem chão. Tinha avaliado mal um dado muito importante da equação. A realidade é diferente do que pensava. Além de extrapolar para outras situações da vida, que agora não vem ao caso, senti o esboroar do que me parecia quase certo.
Ainda assim a intuição diz-me que tudo está no caminho certo e por incrível que pareça acredito ou sinto que o instinto pode sobrepor-se à razão. Claro que em seguida um terceiro olhar ajuizador faz-me perceber que não tenho mão no futuro e não posso conhecê-lo antecipadamente. A vida faz-se vivendo. E é assim.
Preparo-me para as duas hipóteses de desfecho, sabendo que pode haver uma terceira ou quarta. Logo se verá. Mas a felicidade de devanear e planear ninguém ma tira e tem sido assim que, bem ou mal, tenho percorrido a vida. Como o caracol.
Divagações
Ontem em conversa chegávamos à conclusão como se tinham restringido os contactos sociais nos últimos vinte anos. No fim dos nossos comentários concluí que é comum a muitos pelo mundo fora. De vidas cheias de presença de gente, familiares a amigos, de casas cheias e reuniões regulares passámos a existências mais isoladas: solitárias ou em casal ou núcleo reduzido de pais e filhos. Sem grandes e frequentes contactos físicos com família alargada e amigos. Nada tem a ver com a pandemia, que foi um momento episódico. A mudança vem detrás e prende-se mais a montante com as vidas pessoais e profissionais mais frias das cidades e a jusante com a preponderância do telemóvel e da Internet na vida de parte importante da população mundial. Parte substancial dos contactos humanos passou a fazer-se digitalmente. Nos casos felizes a mudança para o digital é o ponto de partida para laços que mais tarde se estreitam com a presença física. Em muitos casos, benignos ou malignos, nunca passam do mundo digital. Nas últimas décadas nasceu uma nova forma de relação humana que influirá muito na concepção do mundo de cada um.
Nota. Montante: nascente do rio. Jusante: foz do rio. Usei os termos de modo espontâneo e logo fiquei hesitante. Claro que fiquei a deambular sobre o significado e sentido das duas palavras e fiz as minhas habituais pesquisas acerca de. Daria outro post. O mundo é gigante e nunca chegaremos ao todo, mas com tempo podemos ir conhecendo uma ínfima parte dele e divertir-nos com isso. O que não vale a pena é acharmos que os outros são ignorantes por não conhecerem ou desejarem possuir a nossa ínfima parte de conhecimento e enaltecermos aqueles que replicam a nossa ínfima parte de conhecimento – a fórmula certa não só de sermos injustos e mesquinhos como de o mundo não evoluir. Cada um transporta como bagagem o seu pequeno grão de areia.
27/04/2024
Posts
Há posts para todos os géneros e feitios. Uns fixam-se mais num tópico definido e mantém sempre a mesma linha, outros vão variando. Os que deixando questões em aberto, permitem a interacção e os que se fecham em si, dificultando o comentário. Os textos acutilantes e desalinhados que desagradam, os inócuos e empáticos que atraem. As notas críticas de oportunidade ou facção que geram polémica e audiência, as que levantam questões fora de moda provocando rejeição e/ou reflexão. Os posts que replicam com nova roupagem os lugares-comuns intelectuais e os que criam algo novo. Há de tudo.
Coisas de brasileiros, passem à frente. Apenas evidências.
As legendas têm erros ortográficos graves. O drama, a tragédia. Balelas vindas do Brasil. Tenham cuidado, este tipo de coisas "básicas" da Internet pode-vos fazer mal ao cérebro e ao dedo mindinho intelectual esticado. Não oiçam de maneira nenhuma. Continuem no vosso rigor e seriedade - na vossa sapiência.
Bem-vindo ao mundo real
O balão enche. Enche e ganha forma gigante e vaidosa quando passa horas de solidão a ler, estudar, trabalhar, pesquisar online, ver filmes e séries, devanear com sonhos e ambições, enfim, a atafulhar-se de argumento. E puf: esvazia-se e quase sai disparado pela janela aberta num divertido suicídio de desenho animado ao envolver-se com os outros, ao tomar consciência da emoção e razão - da realidade comezinha.
26/04/2024
Emoção e razão
Não é que pudessem fazer melhor. Embrulhados em preconceito e vidas demasiado pequenas para dar resposta às catadupas de perguntas que o mundo lá fora foi levantando. Não é muito o que lhes chegou do passado ao longo da vida por testemunho directo, familiar ou de amigos. Cresceram com minhocas na cabeça sem solução. O mundo que a televisão, comunicação social e Internet relatou foi enorme. O mundo que a música e o cinema transmitiram foi empolgante. O que os livros instruíram foi muito. O que as relações interesseiras e superficiais trouxe foi exuberante. Mas não são capazes de discernir e desfazer os nós da causa das coisas. Falta em profundidade e abrangência o que sobra em aparente complexidade. Falta intimidade com a emoção e a razão. Falta simplicidade. Emprenham pelos ouvidos e pelos olhos e regurgitam sem processar. Os mais sensíveis debitam com cunho pessoal a confusão mental assim gerada. Outros mais espertos e rasos atiram certezas com oportunismo. Mundos muito pequenos, mesmo quando viajados, mesmo quando experimentados em relações humanas, mesmo quando capazes de ironia. Caixas sensoriais e racionais exíguas.
Deves compreender isto e não exigir demais. Até porque cada caixinha pequena dessas traz sempre qualquer coisa, por insignificante seja, com que podes aprender. É importante compreender atitudes, reacções, gostos, aproximações ou repulsas e segregações. O porquê das agremiações, escolhas e histórias de vida. E não precisas sentir complexo de culpa por ver isto com distância, como se sentada num ponto de vigia soerguido, dando-te o ar errado de imodesta. Nem precisas de te acusares de não possuíres a simulada nobreza de espírito de ver grandeza em cada um desses mundos. Não te iludas. Aceita a vida tal qual é.
A diferença entre dois autores que leste há dias é abismal. Dois homens. Um que te parece boa pessoa e de quem já conheces obra vive fechado nas suas sombras confusas e percepções obscuras e tacanhas. Com a melhor das intenções julga ser justo com as mulheres não imaginando o quão necessário seria preciso tirar-se a si próprio do anacronismo sombrio. Lê-lo faz-te estabelecer paralelos com várias mulheres e homens que foste conhecendo e lendo ao longo da vida com um traço comum: incivilidade e falta de inteligência ou personalidade doentia. Tantas vezes gente de bons sentimentos e bem-intencionada, mas muitíssimo limitada. Convencidos que estão a lutar por um mundo melhor. Alguns com sucesso. Outros, cheios de esquemas e subterfúgios, pródigos em avaliações primárias e julgamentos físicos e psicológicos básicos ou retorcidos, com tendência para comportamentos verbais agressivos dissimulados. Tendo-se por sumidades. Tendo-se por exímios manipuladores. Alguns com muito sucesso. O segundo autor, de quem leste muito pouco – mais vais procurar ler mais -, é luz e clareza. Capaz de criar. Não precisa fazer esforço para compreender as mulheres. Observa e constata. Foi bafejado pela lucidez e é-lhe fácil ser justo sem sequer ter a pretensão de apregoar o empenho em causas.
25/04/2024
Afinal
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Ups, afinal ainda veio mais amostra gastronómica. Salmão e batata assados com salteado de cogumelos. E uma tarde inteira de conversa a três: a F., o Nuno e eu. Só sobra sono, muito sono. Vou dormir.
Ponto de situação
É incrível, mas é tal qual: uma gaivota rasou hoje a vidraça da janela em cujo parapeito o Ritz observava a rua.
Recapitulando
O Livro dos Três Princípios - Festejo - 37 (fim)

Atravessou o jardim no passo decidido de quem tem pressa em mostrar-se triunfante, no momento em que o João, sentado no banco de jardim de perna cruzada, dobrava meticulosamente o Independente já lido, pousava-o e, reservado, levantava os olhos. Assistia ao movimento de mulher ousada. Com gestos precisos ela afastava qualquer empecilho, provando ser capaz de traçar o próprio caminho, longe de sinas de vida dura. Nada contida, de corpo elegante e bem delineado, balançava afinada os braços a cortar a brisa amena e marchava decidida, com coluna bem erguida, peito alçado e movimento de anca livre. Um manifesto de liberdade. Magnífico exemplar do 25 de Abril, concluiu João, ao acender o SG Gigante, e logo desviar o olhar para o velho e quebrado homem a invectivar o grupo de adolescentes com quem acabara de se cruzar e que, além do despropositado coro de vernáculo, audível em todo o jardim, atirara à água três ou quatro latas de refrigerantes, agora juntadas à garrafa de superbock no fundo do lago. Mais logo o Alcino limpa, pensou. Desde 1969, varria e recolhia o lixo no centro da cidade. Estreou-se ainda em ditadura e assim permaneceu, sempre. Este ano, Portugal vai à final do euro, pela primeira vez na história do futebol, e o Alcino reforma-se, divagava o João. O vermelho das latas de coca-cola, bem visível no fundo da água, na madrugada seguinte seria mais difícil de distinguir, já fora laranja das latas de sumo Kas, ou do azul dos invólucros do capri sonne. Com o passar dos anos era indiferente, só custava mais no inverno, quando a água estava mais fria e suja. Pedia ao destino não aparecessem bichos maltratados ou mortos. Era uma recolha sofrida. Revolvia as entranhas por mais madrugadas passadas. Contara isto ao João em tardes de amena cavaqueira no banco de jardim.
Depois de acenar ao Alcino, cumprimentando-o, voltou a olhar na direcção oposta, viu a Ana Paula desaparecer depois de subir os poucos degraus da câmara municipal, para cumprir o horário da tarde. Esquitécia, a palavra assomou no seu pensamento no tom morno e doce da Constança. Assim se referia a mulher à Ana Paula, quando em casa conferiam o dia. Era a única pessoa a usar o termo. Nem sequer constava do dicionário. O João matutava se teria relação com a sesquitércia da matemática. Não sabia, mas achava adequado. Ainda assim, defendia sempre a figura central: não há rã sem girino, dá-lhe tempo. Ai, não tenho dúvida, é mesmo uma questão de tempo. Tens razão, dizia a Constança. Antigamente, nós dávamos tempo, três ou quatro gerações, muita fé e paciência. Mas o mundo hoje é outro. O tempo está para gente sem dúvidas nem educação. Irá longe num ápice, os outros nem por isso, vaticinava. Estava envolvido no pensamento da mulher, quando a filha se aproximou, carregando o caderno novo de capa florida, onde esboçara o primeiro início do livro, e perguntou a cor dos sapatos da Ana Paula
(Escrito de Abril de 2015 a Abril de 2019.)
24/04/2024
Nada que interesse, é favor passar adiante
Sonhei com batatas e estou a ouvir Bach. Tudo a rolar.
Continuo a ter pó a impostores(as), falsários(as) e agressores(as) dissimulados(as).
Vivem e morrem afogados no próprio visco.
Nada mudou. A paciência é uma virtude de que não nos devemos gabar, apenas praticar.
23/04/2024
O país do circo
“Foi nossa preocupação a simplificação da gestão do SNS, através do aumento da autonomia das instituições face a outros níveis de decisão (por vezes chamada de verticalização, mas cujo alcance é a diminuição dos patamares de decisão, aumentando a rapidez nas respostas e aproximando a decisão do local de prestação de cuidados), e da redução para menos de metade das instituições (de mais de 100 para menos de 50) e dos respetivos lugares de administração”, adiantou ainda o diretor-executivo demissionário.
De acordo com o médico, a defesa dos recursos humanos numa “visão de motivação e reconhecimento pelo excelente trabalho efetuado”, o investimento na modernização das estruturas e equipamentos do SNS, foram das “vertentes mais relevantes e cujo trabalho ainda tem um percurso a ser feito”.
“Paralelamente implementou-se uma agenda de desburocratização”, adiantou Fernando Araújo, apontando os exemplos da autodeclaração de doença, dos certificados de incapacidade temporária nos serviços privados e sociais e nos serviços de urgência dos hospitais públicos e a renovação das receitas de medicamentos para doenças crónicas disponível nas farmácias.
Além disso, foi implementado o alargamento do período de validade das receitas e meios complementares de diagnóstico e terapêutica para 12 meses, os projetos-piloto dos Centros de Avaliação Médica e Psicológica para a emissão dos atestados médicos para as cartas de condução e outras finalidades, a vacinação nas farmácias comunitárias e o acesso dos médicos das juntas da Segurança Social ao processo clínico eletrónico.
“Estas medidas, algumas das quais eram reivindicadas há décadas, possuem uma característica comum: simplificação administrativa, facilitação da vida dos utentes, desburocratização do trabalho dos profissionais de saúde, e melhoria da satisfação na utilização dos serviços”, assegurou Fernando Araújo no comunicado que faz o balanço de 15 meses de funções.
*
Em Portugal lucidez, coragem e competência não singram. Não podem perdurar. Impõe-se o circo da mediocridade, dos interesses corporativos e económicos, do apego aos empregos inúteis de administração na função pública, da vaidadezita profissional oportunista, narcisa e desafasada da realidade, do bate-boca e da intriga de facção. Vinga a aparência de democraticidade assente nas balelas de treinadores de bancada que fazem comentariado e política. Vence quem vê o país e a vida como um campeonato de futebol.
Clap, clap, clap. Parabéns pela retórica interesseira do último ano e meio, pelo sensacionalismo imbecil no intuito de tirar dividendos eleitorais à custa do mau funcionamento do SNS, pela resistência à mudança que pôs em causa cargos inúteis e más práticas instaladas, e parabéns pela incapacidade de compreenderem e reconhecerem quem faz a diferença pela positiva no país.
Bravo, bem-sucedidos ratos do país. Desculpem o incómodo desta passagem pela praça pública portuguesa da seriedade discreta. Já podem continuar os vossos joguinhos de interesse que destroem o país e alçar os vossos apaniguados sem préstimo às peanhas do poder. Foi só um intervalo de decência - quem sabe não vinguem sementes (na lei e no terreno) que possam ser respeitadas dentro do SNS, já que em políticos, jornais e comentadores das redes sociais e blogues não podemos confiar.
Recapitulando
Apetece tudo menos alinhar no comentário das eleições europeias. Mais do mesmo: mais uma pedrada no charco - criação em rede de interesses de figuras públicas tão, mas tão desalinhadas e refrescantes que deixam a babar em unanimidade bovina desde ultra-conservadores a moderadinhos da aparência passando por vanguardistas iludidos. Ai, que excite, tão polémico - bem ou mal, falem de mim para me dar a dimensão que não possuo. Ai, que espanto: um exemplo, um paradigma de respeito pela convivência democrática. Claro, quem manifestar desinteresse é um rezingão ultrapassado, velho caduco que não se excita com a novidade, o frescor. E óbvio, é só inveja e ressabiamento, que mais podia ser? Em suma: frescor na aparente retórica polida a tresandar a bafio de quem nasceu velho. Mais uma pedrada no charco - vibra o status quo.
Enfim, continuando no meu rame-rame republicando mais um texto antigo sobre trivialidades, na constatação de lá ter de voltar a votar nulo - ao que estamos destinados nesta luxuriante praça pública portuguesa, tão bem acompanhada pelo furor opinativo dos jornais, redes sociais e blogues.
Aqui fica um post do ano passado acerca de letras de músicas. Menoridades, bem se sabe. Nada que interesse a gente muito sofisticada que gosta de aparentar indiferença por aquilo que a rói.
Antes me ficasse pela republicação sem cair na tentação de alinhar na imbecilidade do comentário da actualidade. Mas que fazer? Já temos o cérebro comido, é para o que estamos destinados. Acabámos a reagir com a bílis às e aos muitos cheerleaders trepadeiras das facções da praça pública portuguesa.
*
Significados
Depois de três aulitas de excel vamos lá ao post. Que tinhas tu congeminado ontem de manhã, enquanto conferias conta-correntes? Hum, isso. Recordas que desde sempre procuraste, cuscaste, pesquisaste. Desde o final do século passado sobretudo online. Antes disso nos dicionários, enciclopédias e outros que tais. Ler os outros é sempre um estímulo a buscas várias. Recordas várias pessoas que foste lendo ao longo dos anos – o menos relevante é saber quem, apesar das curiosidades baterem sempre nos pontos menos interessantes – e da forma como repetidamente ias pesquisar os temas abordados. A título de exemplo lembras alguém que citava muito certa poetisa – também é irrelevante saber quem é a poeta. Assim a ficaste a conhecer, hoje sobra uma memória difusa. Já aqui disseste várias vezes que a tua memória é uma peste, mas à época, coisa de 18 anos, leste bastantes poemas dela, entrando naquele espaço geográfico, época e mundo interior peculiar. É tudo quanto queres dizer e não dar uma de entendida. Quem fala de poesia, fala de romances, viagens, astronomia, o que seja. O que tens a menos em horas de leitura exaustiva de ensaios ou romances, absorvendo a obra completa de cada autor, tens de sobra em flashes vários. Salpicos que resultam de interesses dispersos por cada momento, alguns prolongando-se por meses, às vezes anos. Chamam a isto superficialidade resultante da falta de disciplina e da incapacidade de concentração. Deixá-los chamar. Hoje nem vais perder tempo com questiúnculas.
Há 20 como há 15 anos ou mesmo agora a música é motivo de buscas. São inúmeras as vezes que consultas páginas sobre músicas que ouviste, seja versões online de revistas da especialidade, como sites mais populares com interacção dos utilizadores. Gostas de ler comentários aos vídeos do YouTube, tal como estudos académicos sobre músicas icónicas – não se pode calcular o que te ris com a profusão de rendilhado imaginativo e sem sentido ao estilo crítica cinematográfica de alguns desses estudos -, lês a wikipédia, mas também as páginas onde são depositadas opiniões sobre as letras das canções. A parte séria, ou seja, sobre composição instrumental é-te de difícil apreensão por não perceberes nada do assunto, pelo que essa parte é passada na diagonal, mas sobre as letras, céus, há tanto a dizer.
Há vários padrões de opiniões sobre os poemas, as rimas, as letras das músicas. Cada um mais maluco que outro. E dizes isto com todo o carinho e compreensão como se vai entender no final deste postal.
Há os comentadores que vêem Deus em todas as letras de música. Se a dita for sobre rolhas de cortiça, pois haverá sempre um John Smith ou um Washington Silva a afirmar que a rolha tem significado espiritual: está nas escrituras, está na bíblia. E daí parte para a evangelização. Claro que este tipo de comentadores, usando as palavras francas do nosso primeiro, põe-se a jeito. É sabida a pouca cotação de Deus e da religião nas modas e nas correntes de opinião aceites entre os que têm voz na comunicação social e no entretenimento, pelo que haverá sempre o humorista de serviço, que hoje equivale ao diácono no tempo em que a religião tinha peso na sociedade, a ridicularizar a estupidez do Smith ou do Washington.
Há os apaixonados. E aqui há um vasto leque. Os com dor de corno, para quem qualquer música se refere aos traidores ex-namorada ou ex-namorado. Os empolgados com o início da relação, para quem cada palavra lembra uma parte do corpo do amado, um traço de personalidade, uma palavra, uma promessa de felicidade eterna. Aqueles para quem a letra define na exactidão o que sentiram dois anos antes, quando se divorciaram, devastados pelo sofrimento ou exaustão. Os casais eternamente felizes para quem aquela canção com 90 anos é a sua música, a que ouviram quando se conheceram, quando casaram, quando baptizaram os três filhos, quando foram de férias para Bali, quando passaram pelo primeiro susto de doença, quando compraram a terceira casota para o cão da família, e agora que escolhem o lar de terceira idade de mão dada.
E os para quem tudo é sexo. A letra fala de modo acessório de um copo de água? Pois é o cálice da vida, a mulher. Num dos versos é usada uma palavra com duplo ó ou o símbolo gráfico de dois pontos? Mamas, são mamas. E aquela exclamação ganida no final do refrão só pode ser uma alusão ao caralho a vir-se. O grau de carência leva a comentários do mais divertido que pode haver. Ausência ou excesso – nunca se sabe e cada um sabe de si.
Há a malta da fantasia com drogas. Para alguns comentadores não há nenhuma música que não tenha referências a drogas. Se o sujeito a quem são dedicados os versos viu o céu, snifou coca, se deitou na relva, fumou marijuana, se deu o braço a torcer, injectou heroína, se viu vacas voadoras tomou ecstasy.
Há ainda os que enredam isto tudo e montam uma teoria da conspiração com todos os tópicos numa salgalhada que ninguém entende. Alguns passam a criativos aclamados com resmas de fãs a idolatrarem o absoluto absurdo de um somatório de imbecilidades. Nos casos de maior patetice os intelectuais aderem fascinados e explicam aos ignorantes toda a magnitude e superior inteligência por detrás dos enredos construídos. E quem não compreender cada meandro das simbologias e significados intrincados de cada palavra proferida, é absolutamente quadrado, ingénuo ou sonso. Não percebe nada da vida nem tem leituras ou educação, naturalmente. Nasceu tapado e tapado morrerá. Coitado.
Ora tu vais variando ao longo dos dias, dos meses, dos anos, da vida. Nuns dias és capaz de ser mais imbecil e imaginativa, moralista, apaixonada, tarada ou alucinada do que qualquer Smith. Noutros olhas para tudo isto e só te apetece distribuir gotas pela humanidade a ver se ela se recompõe da maluqueira. É por isso com todo o carinho que lês os comentários. Com eterna compreensão, sentimento de fraternidade e boa-disposição.
Ontem comentavas com alguém no local de trabalho que todos têm a sua quota de perversidade e o que diferencia o homem dos animais é a capacidade de dosear os instintos. Há quem tenha imensa curiosidade por temas fracturantes e chocantes e por isso veja séries, filmes e documentários infindos sobre temas que te cansam. É como as buscas sobre a poetisa ou acerca de músicas que ouves: pesquisas, lês o que tens a ler sem escalpelizar cada perversidade nem necessidade de demonstrar conhecimento sobre a dita para mostrar sofisticação ou esperteza. Se cada um se quiser conhecer a si próprio já tem dose de perversidade para uma vida e uma biblioteca inteira de ensaios e romances sobre o tema. A ficção sobre o mundo dos outros serve apenas como álibi e não trará muito de novo à curiosidade, muito menos servirá de libertação.
Pronto, agora já vais dormir contente, com o tpc feito: a redacção sobre significados.
Boa noite.
*
Adenda: inicialmente publicaste este texto com gralha do título, sem o primeiro i. Só pode ser uma mensagem subliminar, um aviso de espionagem militar. No mínimo. Ai aquele i, a falta daquele i, quantas séries de Netflix não daria?
22/04/2024
Manias
Alguém avisa os repórteres das peças exibidas nos telejornais que não é indiferente usar os verbos avisar e ameaçar? Sobretudo em contexto de guerra.
Agradecimento
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Obrigada uma vez mais à SapoBlogs pelo destaque.
Quando abri as Comezinhas na SapoBlogs em 2019 comecei por publicar O Livro dos Três Princípios - nessa altura tinha em mente a publicação numa espécie de folhetim. Foi isso que recordei quando vi a cuidada referência de hoje ao facto do Passeio ao Alto Douro estar publicado numa (pequena) série. Como tantas outras vezes na vida, tudo se encaixa anos depois. Muito a tempo. Sem pressas nem vontade de alarde, tenho apenas a intenção de continuar a fazer das Comezinhas uma camilha em volta da qual se sente um punhado de gente, cujas casas ou camilhas também visito, em regime de civilizada e democrática reciprocidade. Reparei há alguns dias que outros blogueres publicam em folhetim. Parece-me bom hábito.
Sol
Bem-disposta com a luz dos últimos dias e a poisar cheia de planos de mudança no termo de um fim-de-semana que correu a contento. Perfila-se uma semana mais curta já que irei aproveitar o 25 de Abril para tirar a próxima sexta-feira de férias e assim ficar de gazeta quatro dias. Claro, à custa de um dos 22 dias de férias anuais e não de alguma facilidade de privilegiado funcionário do Estado, sempre tão desgraçadinho e herói na luta por um lugar ao sol.
Gosto destes tempos sem frio nem calor de brisa suave e vontades reforçadas. Fomos a Almada, encontrámos tudo sereno. O Nuno foi espairecer com o P. – em princípio, virá cá passar uns dias no próximo mês - e um amigo. Conhecemos a primeira casa da minha enteada R.. Alegria, a primeira casa. No caso dela com muito trabalho nas folgas a raspar paredes e tectos para pintar. Nisso mesmo estava dedicada ontem. A noite bem dormida atenta a temperatura excelente e o saudável hábito em casa da mãe do Nuno de deitar cedíssimo. Assim o começo do dia é melhor aproveitado.
Ao fim da manhã uma corrida desaustinada por Lisboa para apanhar o comboio. Na viagem recebi e fiz alguns telefonemas. Ainda deu para ler uma dúzia de páginas do livro que me acompanhava - e me pôs a pensar na diferença de mundividência e destreza de escrita entre gente e fases de vida social intensa por contraste com existências mais despovoadas de interacção e maior disponibilidade interior; não mais do que a dúzia de páginas para não me cansar. Ligou-me o meu afilhadinho, e lá pusemos a conversa em dia acerca das vidas após cirurgia, dos amigos e da ida em trabalho a Milão no próximo mês, sem tempo para ver nada; pena. E uma vez que há semanas me havia mandado mensagem a dizer que queria combinar estarmos juntos, liguei à F. a convidar para almoçar connosco no dia 25. Neste feriado atenta a xerichia na rua, é sempre bom estar sossegada em casa. Porá a conversa em dia com o Nuno, antes de abalar, emigrando novamente - dada a falta de emprego em Portugal. Depois liguei à T. para repor a falha no combinanço da tarde no Cinema Batalha e sugeri dizermos também ao C., para nos juntarmos os três da vida airada daqui a 15 dias. A ver vamos se concretizamos. Não há como uns dias de sol para voltar a vontade de ver gente e estar com os amigos. É cíclico. Julgo que é para isso que o Universo engendra equinócios e estações. Por falar nisso nunca mais me lembrei de procurar as pinturas pirosas das quatro estações.
Despachámo-nos rápido para o comboio: não o queria perder já que tínhamos combinado visitar um apartamento aqui perto pouco depois da hora de chegada a Campanhã. Mais uma andança a pé, agora pelo Porto, num dia perfeito em brisa, temperatura e cheiros. Há qualquer coisa de belo no ar que não sei explicar, e vem de fora para dentro. Não, não vi o passarinho, tirando o melro que anunciou o muro do prédio da casa que fomos ver e de que não vou falar para não azarar. Gostámos muito.
Em casa o Ritz mostrou-se contente com a nossa chegada, chamou a atenção o máximo que pôde para puxar brincadeira e snacks e tudo regressou ao rame-rame. Quando me preparava para fazer uma salada de alface iceberg, ovos cozidos e atum, o Nuno pediu que juntasse uma batata cozida. Estava com fome. Comemos e fizemos as compras online no Continente.
Pedi que fosse para dentro ver o programa de humor de Domingo, por não ter pachorra. Mas oiço daqui da sala, onde a televisão está desligada, o humorista a gozar com uma sujeita que há muito considero completamente destemperada e desajustada da realidade – há anos fiz um postal inspirado nela sobre o apelo do reles e das histórias de faca e alguidar e inspirado também noutra figura pública portuguesa, essa masculina, discreta e sonsa. Dizendo-se amigo da dita é patente o contraste em papel-químico; refulgem na praça pública portuguesa pela elevação do vulgar ao patamar do intelectual mesclando-o com laivos de vida civilizada que cobiçam; a intelectualização do reles e a busca do lugar-comum literário. Com natural sucesso – muito considerados pela elite fajuta nacional - e ao que vou vendo nos últimos anos com vários discípulos a singrar. No caso dela, os homens com audiência que alçam ou destroem a passarela pública, só agora deram por isso, já que andaram anos fascinados com tanta inteligência, conhecimento e coragem. E no fundo mesmo os que agora satirizam com grande entusiasmo o que antes gostavam tanto, até continuam a apreciar – o género é o seu target. Enfim, o luxuriante rame-rame da vida pública portuguesa.
Lá estão as Comezinhas a perder tempo com má-língua. Antes continuasse no registo do quotidiano caseiro, sempre se gastariam menos neurónios – não, dizem os iluminados, a vida caseira é para esconder por fazer parte da esfera íntima, não compreendendo a diferença entre viver com naturalidade e exibir.
Boa semana, gente heróica que chegou ao fim do post. A estucha do costume; fartinha de dizer: não percam tempo. Mas já que estão aí, se me permitem a sugestão – parvoíce, isto de dar conselhos –, aproveitem o sol e se puderem e quiserem, desfrutem da presença da família e amigos e sejam felizes.
21/04/2024
Ponto de situação
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No último ano a cada vinda a Lisboa há uma parte da cidade fechada ao trânsito. Os motivos variam: corridas de bicicleta ou a pé, comemorações de eventos. O resultado é sempre igual: um motorista asiático da Uber atarantado, incapaz de arranjar solução para chegar à estação de comboios.
Hoje saímos a meio da Rua do Ouro e em passo acelerado chegámos a tempo a Santa Apolónia. Pelo caminho vimos a reunião dos ramos das forças armadas, imagino em ensaio para o próximo dia 25.
Já sabem que não sou fotógrafa. Fica apenas o registo.
20/04/2024
Em trânsito
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Socorro. Esqueci-me dos auriculares no Porto. Como passar 24 horas sem música no ouvido? Dramas.
Lugar 13
Não é a primeira nem será a última vez que circularei no lugar 13 do Intercidades. Estarei fadada para o azar? Não, há uma explicação lógica para a coincidência. É preciso estofo para aguentar o lugar de azarada. Cada um tem a vaidade que merece. Deixemos os heróis gabarem-se das heroicidades.
Nota de agenda. A propósito, deixo aqui ficar o lembrete para fazer um post acerca da síndrome Mr Bean (Rowan Atkinson). Já sabem, nas Comezinhas as referências são deste calibre.
19/04/2024
Recapitulando
Hoje ao almoço vi a cara simpática do Jorge Costa na televisão e lembrei-me do postal abaixo, por isso reproduzo-o. Há anos deixei de gostar de falar e ouvir falar de futebol e quanto às eleições que se aproximam deixo apenas um agradecimento e um voto (furado, por não acreditar muito que a mudança ocorra): o muitíssimo obrigada a Pinto da Costa por mais de quarenta anos de dedicação ao Futebol Clube do Porto e pelos muitos sucessos do clube, e o voto para que André Villas-Boas ganhe as eleições (bem podia deixar de lado as peneiras anacrónicas do duplo éle que não condizem com o uso do termo "esposa"; isso já não se usa há mais de cem anos; veja se percebe a piada), comece um novo ciclo no Portinho e não se deixe embalar pelo engodo do mundo sórdido do futebol muito menos pelo canto de sereia vindo de outros clubes cujos métodos inescrupulosos de actuação são idênticos aos que tivemos no nosso clube, para pior, porque dissimulados a querer dar ar de lisura (falsa, mesmo falsa).
Porto, sempre. Mais ainda em dia de derrota.
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Futebol

*
Cresci a ver jogar futebol. Até aos vinte e tal anos seguia regularmente os jogos, sobretudo, os do meu Portinho. Via os jogos à moda dos rapazes que sabem 'da bola', ou seja, a saber o que era uma boa marcação, uma boa recepção, um bom passe, um fora de jogo bem ou mal tirado, uma boa leitura de jogo, um bom pé esquerdo, enfim, essas coisas de quem cresce entre um pai e um irmão - o mais novo chegou a jogar à séria, o primogénito nunca foi grande fã, o do meio começou a ligar mais tarde -, absolutamente apaixonados pelo futebol. Da segunda metade dos anos 70 recordo os pequenos sacos vermelhos (ou encarnados possidónio) e brancos da TAP em formato cilindro com roupa dos meus três irmãos nos dias em que iam para a ginástica no Futebol Clube do Porto a 50 quilómetros de casa. Levava-os a minha mãe que os trazia no fim das aulas na Faculdade de Filosofia. Eu ficava, por ser ainda muito pequena para essas andanças. Não tenho nem nunca tive paciência para conversa sobre arbitragens, questiúnculas e feiras de vaidades. Cresci entre gente que, mais do que falar sobre, valorizava o desporto: o gosto antigo da minha mãe pela ginástica e a prática do meu pai e irmãos do ténis. O Futebol Clube do Porto era o clube de paixão do meu pai e a casa onde os meus irmãos faziam desporto. É coisa que está no sangue, por assim dizer.
Fui às Antas ver dois jogos. É possível que tenha ido mais alguma vez e não me lembre. Da primeira recordo sobretudo que chovia copiosamente e do medo de malhar e rolar por ali abaixo até ao campo - logo comigo para quem é menos cansativo subir escadas do que descer, não por vertigem mas por o cérebro se esquecer de trabalhar nessas ocasiões e de me avisar atempadamente qual pé devo lançar a seguir. Nos anos 80 assisti ao jogo no estádio com o Covilhã - ainda jogava o Geraldão – e em 87, como qualquer portista, chorei baba e ranho de felicidade. Mas no início dos anos 90, sofri in loco, nas Antas, contra o Bayern - perdemos por dois. Ao longo nos anos admirei jogadores como o Futre (de quem fui vizinha), Fernando Couto, Luís Figo (da concorrência), Jorge Costa, Jorge Andrade e Ricardo Carvalho. Não me ficava pelos brilharetes, fintas e fogo-de-artifício de quem mais do que de futebol, gosta do espavento e do espectáculo envolvente. A discreta e fundamental posição de central sempre me impressionou mais do que o resto. E também jogadores – fosse qual fosse a posição -, cujo perfil fosse mais reservado - bom, o Futre é um caso à parte: na altura que jogou no Porto eu tinha entre 11 e 13 anos e, naturalmente, achava piada à exuberância. Nos anos 90 houve uma fase que acompanhava o campeonato espanhol (torcia pelo Barcelona, coisa que só mudou muito mais tarde por causa do Cristiano Ronaldo), o italiano (mais pelos nossos jogadores) e algum inglês. Gostava muitíssimo do correr de bola em Espanha, alegre, enérgico e resoluto. Houve alturas em que seguia o campeonato espanhol todos os fins-de-semana tal qual o português. Detestava a agressividade e mau-feitio rendilhado das lutas corpo a corpo e faltas sucessivas do futebol italiano. Gostava do atravessar de campo em dois ou três passes longos e decisivos do futebol inglês e, sobretudo, da forma como os jogadores não faziam as fitas infantis como os mediterrâneos, especialmente os portugueses e italianos.
Ao Dragão - lindo de morrer, mas gélido o suficiente para acabar em pneumonia no mais saudável e resistente dos adeptos -, fui três vezes, e é impressionante mas não me lembro quem era a equipa adversária numa delas. Nas outras duas foi o Braga, e uma das ocasiões o melhor jogo da época - imagino que haja quem desminta, mas não quero saber. Foi na época 2010/2011, com o mui senhor André Villas-Boas ao comando do Portinho: jogou-se muito de parte a parte, tendo Porto e Braga oferecido hora e meia de puro prazer àqueles quarenta mil (?) adeptos, que puderam ver o que é trocar bem a bola, jogar limpo, competitivo e muito emotivo, sem manhosice. Eu que vejo muito mal ao longe e acho que se vêem os jogos muito melhor na televisão, adorei lá estar naquela noite em que ganhámos por 3–2, com o mister simpatia Helton na baliza e o afável touro Hulk a marcar um dos golos - os outros dois foram do Varela.
Apesar destas investidas raras nos estádios e de quando em vez assistir a um jogo na televisão, quando me aproximei dos trinta perdi o gosto por este desporto. Transformado em tema principal das televisões, meios de comunicação social e alguns espaços digitais, o excesso de miudezas, mesquinhices, diz-que-disse e apelo ao invólucro deixou-me a léguas do futebol. Além de um ou outro jogo do Porto, acompanho distraída esporádicas exibições das fases de qualificação da Selecção (e por falar em homens discretos, a devida vénia a Fernando Santos) e, claro, muito atenta às fases finais dos europeus e mundiais.
O facto de viver com um sportinguista que não liga peva nem percebe nada de futebol – e que, como eu, se lembra de um tempo onde desporto na televisão não equivalia a futebol, mas a uma infinita variedade de modalidades -, ajuda ainda mais no distanciamento e dou graças por nesta casa não se subscrever em especial nenhum canal cabo dedicado ao dito desporto rei. Tenho, isso sim, saudade de ver os Jogos Olímpicos de fio a pavio. Passar madrugadas a ver basquete, atletismo, ginástica rítmica e artística e tudo mais. O futebol hoje em dia cansa-me. Só apetece tirar o som da televisão, apagar as letras do monitor, e pedir: deixem-nos trabalhar jogar em paz para que nos possam dar prazer e alegria.
Escrevi este postal hoje por uma razão muito simples: sonhei na noite passada com a classificação da Liga. Não faço ideia por que carga de água fui sonhar com isso, mas o facto é que sonhei que este fim-de-semana o Benfica empatava a 1-1, o Sporting perdia por 2-1 e o Porto vencia - neste caso não me apareceu, como nos outros, o painel digital a vermelho com o resultado. No sonho estávamos contentes porque alcançaríamos o Sporting. Apesar de muito alheada do que se passa no futebol, na última vez que vi a classificação estávamos a 10 pontos, pelo que pelas minhas contas é preciso que a quimera se concretize 3 vezes e meia para conseguirmos. Além de mais agora, escrito o postal, fui consultar o calendário da Liga e vi que este fim-de-semana não há jogos. Telefonei ao meu pai que me confirmou a razão: jogam as selecções. Resumindo: como bruxa não valho um chavo. E estamos nisto.
Porto, sempre.
Agradecimento
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Ui. Dois destaques num dia só: Música e Contratempo. Quase pareço gente crescida.
Afinal vale a pena ser bruta.
Obrigada, equipa da SapoBlogs.
Uma mexerufada por dia não faz ideia do bem que lhe fazia
Depois de logo na passagem de ano de 2019 para 2020 aqui trazer um prato de bacalhau no forno, há três anos anunciara no blogue que iria postar uma semana de jantares. Como não raro, à época não cumpri. Ficou feito sem rigor nestes últimos dias. Cinco refeições banais seguidas: carne de porco com cogumelos marron e arroz branco; salmão com batata cozida e couves-de-bruxelas; salada tomate, beringela, espinafre e outros legumes, ovos cozidos, mozarela e azeitonas; favas com carne de porco e enchido; pastéis de bacalhau com legumes e arroz branco. E espero encerrar ou pelo menos diminuir drasticamente este cansativo mostruário gastronómico trivial. Se me perguntarem porque o fiz, respondo que nem sequer o preparei previamente, saiu espontaneamente, mas resultou bem no meu critério por falta de paciência para sofisticações pouco convincentes a que o mundo moderno nos habituou. É evidente que cada um tem os seus hábitos e gostos, porém a contínua busca de aparência é entediante.
Devia arranjar um tópico diferente. O ano passado introduzi os trapos com o mesmo critério de simplicidade, avessa a modas. Mas não sou capaz de gastar muito tempo com esse tema. Atraem-me mais as lojas e artigos para casa. Também já aqui aflorei esse gosto longe das lenga-lengas de decoração mainstream dos conceitos minimalistas, que vão dar ao mesmo paradigma da escrita enxuta e a necessidade imperiosa de deitar ao lixo dois terços do que escrevemos para deixar o diamante puro. Balelas que se vão repetindo à exaustão ao longo do último século como dogmas baseadas em sensações e inclinações de alguns autores - sobretudo poetas, para o trabalho dos quais a dica tem lógica - que não são mais do que técnicas a seguir apenas se fizerem sentido. E diz-vos isto quem deitou ao lixo não dois terços, mas tudo quanto escreveu até aos 33 anos, por isso aprecia pouco a presunção daqueles que se acham no direito e dever de impor critério, quando notoriamente não o têm nas suas escolhas, privilegiando o rasca presumido na forma e o preconceito e oportunismo na substância. É fácil apontar falhas e dar lições balofas de rigor aos que não apreciamos ou não nos dizem amén, difícil é viver da exigência connosco próprios e com os que gostamos - disso os iluminados alrabões são incapazes.
E mais que tenho a dizer? Duas notas de ridículo. A primeira para anotar que há gente que tem a lata de achar que em Portugal não se valorizam as ciências humanas e sociais e que somos medíocres por causa da aposta na ciência e nas novas tecnologias. A preguiça mental destes arautos da inteligência nacional vai continuar a conduzir-nos à estupidez generalizada muito convencida da sua sapiência fajuta. Gente incapaz de raciocínio lógico, de compreender o funcionamento da natureza física e humana que, por não ter qualquer inclinação para as ciências e tecnologia, habituada que está a perorar por mero gosto de retórica e replicação do que ouve, delas tem medo e foge em vez se ocupar de tentar entendê-las. O pior cego é aquele que não quer ver – mas isto que vende e é destacado, essas sumidades do vácuo. A segunda nota para voltar a insistir na ideia que quase me comovo com os self made man e woman dos tempos modernos. Ao lado de gente de valor, apostada do estudo, trabalho e empenho, que viveu ou vive com real independência e que normalmente não perde tempo a fazer discurso de superação nem a contar histórias trágicas de engodo, resmas de trepadeiras humanas, que se esgadanham por um lugar ao sol de modo dissimulado, singram à custa do elogio oportunista, da bajulação e do encosto nas tais elites endogâmicas que dizem desprezar. Quanto mais se afirmam lutadoras, trabalhadoras, sérias e independentes - quanto mais dizem fazer limonada ao espremer limões - mais se lhe notam as estratégias de ascensão à custa de métodos pouco ortodoxos que não passam pelo mérito. Nunca assumem o que bem sabem por experiência própria: quão aleatório é o critério de sucesso singrando lado a lado o fruto do trabalho e o saque dos embusteiros. A estratégia dos iluminados é que não se distingam.
E pronto, aqui ficam as trivialidades de hoje.
18/04/2024
Jantar
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Hoje o jantar veio do Take Away ao qual ia com regularidade nos últimos anos. Voltei e revi o dono com quem há muito não conversava o usual punhado de minutos até levantar a refeição. Pôs-me a par das novas do problema grave de saúde pelo qual passou e recuperou, tendo trabalhado sempre sem se ir abaixo, tirando na fase da radioterapia. Ao referir o impacto em termos psicológicos de se ver confrontado com o que mais tememos, descansei-o: o mundo está insano sem sequer razões de saúde graves. Uns mais do que outros, brincou ele. Daí partimos para o quão nefasta é a televisão e as enxurradas de informação/opinião. Contou-me que não a vê há anos, limitando-se a assistir a filmes e séries. Andou a rever películas que viu em rapaz de Pasolini, Fellini, entre outros. E mais recentemente escolheu um filme que andava para ver há alguns anos – Snowden, de 2016. Fazendo brevíssima apresentação, aconselhou-mo. Acrescentou que não tem redes sociais e procura viver o mais afastado da loucura actual. Contei que tenho um blogue e já há vinte anos tinha outro no qual dava bitaites e foi mau – sim, todos temos o hábito de apontar o dedo, mas esquecemo-nos do nosso contributo ou mera participação na insanidade. Relatei que tive de me afastar, estando dez anos em silêncio digital. E ainda hoje depois de regressar ao activo, faço ocasionalmente quinzenas de desintoxicação, afastando-me. E foi isto. Falámos na importância de nos defendermos e da necessidade de abstrair. Trocámos as cortesias do gostei de vê-la e eu de revê-lo, peguei no saquinho com os pastéis de bacalhau, arroz branco e legumes e vim para casa jantar, contente por rever uma pessoa boa e educada a levar a vida em frente.
Música
Não compreendo nada de música senão o efeito que tem nos meus neurónios e em consequência na disposição. Nos últimos anos ganhei o hábito de ouvir música nos auriculares enquanto trabalho. Isto para lá do já costumeiro rádio no corredor no local de trabalho ou na sala em casa. Desde que tenho memória oiço música na rádio – desde bebé a minha mioleira funciona com esse combustível.
Vem isto a propósito de hoje ter tentado pôr como banda sonora da manhã de trabalho uma qualquer selecção de hits dos últimos anos. Rolava Rihanna, Ed Sheeran, Adele, Selena Gomez, Miley Cyrus, por aí. Estes são alguns dos mais badalados, mas há dezenas ou centenas deles a produzirem coisa muito semelhante. Aguentei pouco tempo e reparem que já escolhi alguns concertos destes artistas para banda sonora das Comezinhas e às vezes gosto de os ouvir, ou aprecio algumas das composições. Sucede que não raro este tipo de música pop, nuns casos rasando o R&B, folk ou rock, acaba numa linha abafada por um manto monocórdico extremamente cansativo. Parece que o cérebro não chega a engatar a primeira, não sai de ponto morto – não conduzo, por isso posso estar a dizer asneiras. O que quero dizer é que não desenvolve, estupidifica. E quando digo isto bem me lembro de no tempo de miúda os mais velhos dizerem-me que o “catchapum” (palavra saída agora, creio que o que me diziam era: tum, tum, tum) das discotecas era estupidificante.
Estes álbuns de hits dos músicos populares parecem ter só dois tempos, sem variações e vão-se sucedendo sem que haja diferenças entre eles. Cansam-me bestialmente na maior parte dos casos, habituada que estou há muitos anos a ouvir jazz todos os dias. E também oiço muita música daquela em que não é preciso prestar especial atenção, a que os chicos-espertos da opinião chamam música de elevador – os tais que sabem de música por ler e reproduzir o Blitz ou qualquer artigo da “especialidade” nos jornais generalistas, como os pseudo-literatos sabem de escrita, leitura e literatura de consumir jornais ou revistas literários para poder replicar lugares-comuns de gueto.
E se gosto de alguma desarmonia e dissonância, também me seduz a melodia. Agora é preciso qualquer coisa mais do que pacotes de repetição de acordes para vender. Lá está, vale a mesma regra que aqui tantas vezes apliquei aos artistas e autores do circuito de venda português, não adianta muito replicarem-se à exaustão, ou melhor, podem continuar a fazê-lo, terão boa aceitação, audiência e vendas, só não terão especial qualidade nem mérito, por mais simpáticos sejam, boa imagem passem e sucesso alcancem.
E esta era uma das várias banalidades que pensei escrever de manhã e não pude, chegando à noite possivelmente já desvirtuada.
*
Adenda. Esta manhã tenho estado a ouvir uma colectânea de música barroca de Bach, dizem eles para acompanhar corrida. A corrida tem sido vagarosa, sobretudo, "emailando" com algumas urgências pelo meio hiper super importantes e delicadas - felizmente, a idade e o calo já dão o devido desconto ao histerismo associado.
17/04/2024
Jantar
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Surpresa da manhã. A C., prima do Nuno, voltou a mandar favas do Algarve e lá tive de as guisar. Introduzi umas alterações, em vez de entrecosto pus secretos de porco preto cortados em pedaços, de enchido escolhi uma moira de Lamego. De resto, o que mandam as receitas: azeite, cebola, alho, louro, pimentão doce. E alho francês e hortelã enviados também por correio pela C., a quem liguei ao almoço a agradecer o gesto de carinho alentejano. Também mandou doce de amora feito por ela - por coincidência a única compota que gostei durante muitos anos.
Contratempo
Que maçada isto de teres de trabalhar. Apetecia-te tanto escreveres à toa. De manhã tens sempre tanto de urgente e banalíssimo para dizer, mas deves cumprir obrigações. Uma chatice, a vida real. E sábia, a vida real. Prudente. O Universo não dá ponto sem nó, está tudo tão bem cosido. Até a falta de tempo. O contratempo.
16/04/2024
O post aberto ontem
Nos últimos dias abriram/leram, entre outros postais, os seguintes:
- Canso, de 02.12.19 ;
- Silhueta, de 02.12.19;
- Seda, de 11.12.19;
- Maniqueísmo, de 13.12.19.
Ficção
Como já fiz antes, deixo aqui ideias para quem tiver falta de inspiração a escrever. Isto cansa-me tanto que não tenciono desenvolver.
Suponham a hipótese de enredo para conto, novela ou romance. Sem vocação para intriga, sugiro apenas os factos ficcionados.
Sujeita a observação em segredo e a manipulação uma personagem vai compreendendo ao longo da vida o interesse que desperta em gente sem escrúpulos. Deixo ao vosso critério os motivos do interesse. Está só apesar de muitos se considerem na mesma situação – a sensação é geral.
Os seus passos são espiados e as suas palavras e acções registadas e sujeitas a tentativa de manipulação psicológica mal-intencionada. Imaginem ainda que há momentos de maior tensão originados pela culminância de disputa de poder em que a personagem fica quase de mãos atadas nas palavras e acções de tal modo estão minadas por continuada agressão subliminar levando-a a questionar a própria sanidade.
Ao deparar-se com recorrente uso dos seus pensamentos para distorção em prejuízo da verdade chega a questionar de onde virão os ataques em última instância e com que fim, colocando várias hipóteses, algumas das quais rebuscadas pela imaginação - simplificando, aquilo a que os inteligentes chamam teorias da conspiração.
Ora como os tais inteligentes sabem e apreciam a menção: um princípio do método científico determina a lei da concisão - a navalha de Ockam com que se elimina partes desnecessárias do argumento, determinado que ao invés de apostar em várias camadas de suposições devemos seguir a solução mais simples.
Em suma, um telemóvel e um computador sob escuta são apenas resultado do velho tique nacional de espiar a vida alheia no país onde vários milhares de cidadãos são escutados por motivos fúteis pelos amigos de espiões de trazer por casa - adultos que nunca amadureceram a brincar aos walkie-talkies e assim singram no país de brincadeira.
Um tédio só.
15/04/2024
Lido
"O Problema dos 3 Corpos". A série de ficção científica que pôs a China a discutir o futuro — mas também o seu passado, de Cátia Bruno, no Observador.
Diário
Está tudo de pernas para o ar. É noite de Domingo, o mundo aguarda a reacção de Israel ao ataque do Irão, o Conselho de Segurança da ONU está reunido e só há uma hora pus a roupa miúda da semana na máquina de lavar. A roupa de casa já está lavada, pronta para a dona L. passar amanhã.
Enredei todo o fim-de-semana. Se houve momentos bons como a tarde e noite de ontem, janelas abertas, aragem verde de Primavera, descanso consciente e conversa doméstica cúmplice à volta dos nossos interesses, as madrugadas foram para o tecto e não devo mesmo correr riscos. Sinto a mioleira comprimida e pesada, em tensão e os próprios músculos das costas junto ao pescoço entesados, o que não é bom sinal. Pior ainda se a nuca estivesse presa, aí seria aviso de risco grave para o juízo.
Se ainda tivesse tirado proveito, mas qual quê? Fiz sobretudo cera. Isto de gostar da própria companhia tem muito que se lhe diga - é um prazer aprendido por quem tirou partido de um longo percurso solitário sem se envaidecer de modo oco com a auto-suficiência e sem dela dar lições. É bom ao criar lastro para pensar e escrever, por dar tempo para a reflexão, porém faz dispersar o foco dos planos. Ontem ao fim da noite, depois de duas horas de conversa, vim sentar-me no +1 e após emaranhar um pouco peguei numa das histórias de Portugal – estão maioritariamente lidas. Mas logo ao fim da introdução tresmalhei. E foi-se o estudo pró maneta. A despropósito, na semana passada na livraria, peguei num livro a pensar comprá-lo, e de repente fez-se luz: caramba, este já li há dois anos. E é assim a minha maravilhosa memória.
Muito mais interessantes foram os momentos passados ontem de madrugada numa qualquer página de quiromancia. Por razão casual vi uma fotografia de uma palma de mão nas páginas das notícias da actualidade e lembrei os tempos da adolescência em que me dedicava a esta bruxaria. Recordo da paciência infinita da avó, quando numa das temporadas a duas em Valinhas, pedi que me deixasse ler a sua mão. Fiquei fascinada por ver uma linha da vida igual – não conheci mais ninguém com a mesma linha cortada ou dispersa por diversas linhas. Como viveu até aos 92 anos, julgo que há probabilidades de chegar a uma idade bonita. Entretanto já me havia esquecido do significado, mas dizem os bruxos que por ser dupla significa corte repentino ou mudanças bruscas na vida, ou por conter diversas linhas representa vitalidade extra. E dei por mim a sorrir com a memória do comentário da avó quando lhe descobri uma linha debaixo do dedo mindinho que me intrigava não conseguindo apanhar o sentido ao ler as revistas. Menina, é normal que não perceba, esse foi o destino do golpe de vidro com uma garrafa de cerveja que se partiu. Rimos as duas. E acabaram por aí as minhas actividades adolescentes no mundo da quiromancia e um futuro brilhante como sibila. Até ontem ter reparado na linha do destino que apesar de leve atravessa toda a mão desde a base, cruzando com uma das linhas da vida indo acabar no dedo mindinho. Ainda não vi o significado, ou melhor, já vi nos destaques que uma bruxa lhe chama linha da saúde, mas como reparei há dez ou doze anos ser a mesma que na astrologia recomenda comer brócolos, achei que não valia a pena abrir a página.
Como vêem continuam a perder tempo lendo as Comezinhas. Entretenham-se com gente que enuncia muita leitura, memórias, relatos e projecções que comovem ou enobrecem os autores e ironia sofisticada que os ilustra. Aqui só há trivialidades de gente básica e sem interesse que até escreve acerca de compras e preços de artigos do supermercado. Ou então, se apetecer deixem-se levar pela ideia simples que tenho em mente, e percam dois minutos a olhar para a palma das vossas mãos – ou uma xícara de café, uma cigarra ou um lápis. Tudo vai da predisposição para aceitar com curiosidade o outro, se este se apresentar genuíno e não produzido para enganar.
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A palma da mão direita tal qual é e não tal qual a pretensão de ser à custa do logro.
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E agora mais um despropósito extra postal: os mal-entendidos geram-se por não haver lisura e franqueza. Em regra não desconfio, mas a partir do momento em que os propósitos não estão definidos e confiro haver hábito de enganar, pilhar, causar dano e promover quem engana, pilha e causa dano, não tenho razões para acreditar na bondade das palavras ou acções, sobretudo, encobertas.
14/04/2024
Conquistas
Há quem se empenhe em invadir territórios vizinhos para criar um império, há quem ambicione marcar a passagem no mundo com testemunho físico ou intelectual criando obra para esse exclusivo efeito, há quem tudo faça para ser lembrado pelos descendentes.
Dou-me por contente por nos últimos anos ter afastado do espírito a angústia de Domingo ao fim do dia. A perspectiva da aproximação de segunda-feira é simpática. Mais uma rodada. Venha ele: o futuro palpável, logo ali ao virar da noite.