Moralidades à quinta-feira
A história talvez esteja alterada, talvez não com intenção. Mas contaram-te que estando um grupo de velhas senhoras a lanchar, aproximou-se uma criança pequena, franca e malcriada e dirigindo-se a uma delas disse: ui, é tão feia. Contida, a visada fez de conta ouvir pior do que de facto escutava, afagou a cara do pequenino e virando-se para a dona de casa e avó da criança disse: tão engraçadinho, o teu pequeno.
Cedo ouviste esta história antiga e, como alguns, afagaste e afagas muitas faces de desaforos de engraçadinhos(as) que insistem em achar não que és feia, mas sim burra.
Em aparte deixas só mais este apontamento. A forma de progredir humana ou profissionalmente e afirmar-se com o dito perfil de liderança ou de sucesso passa muito por colocar-se na posição de quem explica e ensina ao outro como tudo funciona, usando estrategicamente o discurso de modo a confundir a lógica ou perspectiva do interlocutor para impor a sua própria lógica ou perspectiva (independentemente da correcção de cada uma delas) e também passa muito por, alegadamente na melhor das intenções, apontar erros (ainda que irrelevantes) aos outros de modo a fragiliza-los e mantê-los manipuláveis, escondendo os próprios erros e falhas, como exige a esfrega da auto-estima. A muitos tudo isto parece normalíssimo, apenas diálogo e coabitação entre seres humanos mais ou menos imperfeitos. A propósito de questões do género, sempre tidas por irrelevantes, sempre ouviste respostas como esta: a vida foi sempre assim, isso é normal. Qual é o problema? Porém, a alguns como tu isto evidencia peleja e envenenamento sem consideração pelo outro. De onde não decorrerá evolução, mas estratificação arbitrária e estagnação. Jogo de poder pelo poder, pela imposição do mais forte, do mais bafejado, do que tem mais lábia. Continuas a afagar a face a engraçadinhos(as) que se impõem através da força, sejam malcriados sejam falsos polidos, bem ciente do teu procedimento. Há quem diga que o erro está em ti e noutros parecidos: não devias tolerar, deverias impor-te. O erro estará em ti em parte (encontras sempre deficiências nas tuas palavras e acções), mas como já foste cedendo o suficiente, ficas à espera da vez dos outros cederem. Parece-te legítimo que o esforço não seja principalmente teu. Há formas e formas de cada um se afirmar. Não passam necessariamente por copiar comportamentos dos outros que consideras errados ou não condizentes com a tua natureza. Esse seria o caminho mais fácil para quem consegue, para quem tem sobretudo lábia, tu achas dificílimo e não vais perder tempo nele. Vais pelo caminho que consideras correcto ainda que se mostre absurdo, ainda que tu própria não saibas onde vai desembocar.
Claro que tudo isto pode cair em saco roto, na conveniente ideia que se trata tão só de mania da perseguição. Nada mais oportuno a manter o mundo estratificado de modo arbitrário confundindo mérito com lei do mais forte, do mais bafejado, do que tem mais lábia. Afinal dizem ser tudo normalíssimo e que o mundo é como é, sempre foi assim e será, não é?
Notas. Deixo para uma das próximas semanas o tal Moralidades à quinta-feira com assunção de defeito próprio patente. Não esqueci. Optei pelo termo moralidades em detrimento de moralismos apenas porque já estava dois a um.
Escrito a 13-06-2023.
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Posts anteriores desta série.
- Moralidades à quinta-feira, de8 de Junho 2023;
- Moralidades à quinta-feira, de 01 Junho 2023;
- Moralismos à quinta-feira, de 25 Maio 2023.