Notando as avaliações críticas e os temas em que incide mais. Escrevo isto como é costume sem medir todas as consequências, isto é, não sabendo se terei de engolir estas palavras ou enfiar a carapuça. No linguajar popular a ideia equivale ao “quem desdenha quer comprar”.
É importante reparar nas críticas públicas, mas sobretudo nas ditas em surdina, em tom difamatório, ou expressas de modo dissimulado ou cínico com o cálculo de vantagens próprio da intriga.
Conheci a particular situação de alguém que passou anos a criticar os clínicos que exerciam medicina em consultório privado, considerando uma traição ao investimento e rigor no desempenho de funções no Serviço Nacional de Saúde. Sucede ser notório que a sua maior ambição era precisamente essa e conseguiu concretizar o sonho anos mais tarde abrindo uma clínica. Era patente que não fazia juízos genuínos de reprovação, mas sim de cobiça ou inveja.
É um traço muito português: invocar princípios em vão e traí-los assim que a oportunidade surge.
Veio isto a propósito das grandes declarações de condenação da endogamia. É enorme a desfaçatez de gente que desde cedo fez por mimetizar comportamentos dos grupos aos quais tinha ambição de pertencer, trabalhou para integrá-los via casamento ou estreitar interesseiro de relações de amizade – enfim, a desfaçatez de quem vive à custa da endogamia e dela desdenha como se fosse puro. A intrujice de quem sempre se serviu das relações de parentesco ou de guetos privilegiados de interesse e de quem tudo quanto almeja é ascender a situação abonada similar. Vivem das redes de interesse, porém apontam-nas como se fossem uma pecha alheia, consideram-se a si a dignos portadores de respeitabilidade adquirida por superior inteligência, trabalho, carreira e mérito. Devem ter caído do céu tais virtudes. Enfim, bafejados por tanto valor, nunca admitem jeitinhos e facilidades.
Era escusado, até porque nalgumas situações o oportunismo anda de mãos dadas com talento ou pelo menos competência. É pura burrice ou falta de seriedade não assumir as ajudas “celestiais”. Sobretudo é de um ridículo atroz. Mas como entre nós os graus de exigência e de honestidade andam nas lonas, continuamos a ouvir histórias da carochinha do “olha que medíocres eles são e tão puros, inteligentes e talentosos nós somos”.
Só rindo.
(amanhã, se tiver tempo escreverei acerca da tendência para gorar expectativas dos outros; já agora depois de amanhã, se tudo correr bem, escreverei sobre a falta de juízo auto-crítico da "intelectualidade" portuguesa, sempre muito lesta em desdenhar da mediocridade dos representantes de vários sectores profissionais da nação.)